Como a integração entre Ciência da Informação e tecnologia pode promover a saúde mental?

Doutorando da ECA cria startup que pretende democratizar o cuidado para pessoas neurodivergentes

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Foto de homem pardo sorrindo. Ele é careca, tem barba e bigode e usa óculos de armação redonda e preta. Ele também usa um fone de ouvido branco e veste uma blusa preta. No fundo, o céu azul e dois edifícios.
Gabriel Cirino. Foto: acervo pessoal/
Gabriel Cirino.

Gabriel Felipe Cotta Cirino, mestre pelo Programa de Pós-Graduação em Ciência da Informação (PPGCI) e pós-graduado na modalidade MBA em User Research (pesquisa do usuário), levou 15 anos para se formar em Publicidade e Propaganda. “Não entendia o porquê, começava e saía. Nesses períodos eu também iniciei Artes Visuais. Também não consegui concluir, entrei e saí.”

Em meio a suas tentativas, já no mercado de trabalho, Gabriel lidou com problemas relacionados à ansiedade. Foi aí que ele recebeu o diagnóstico de Transtorno de Ansiedade Generalizada (TAG) e Transtorno do Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH), bem como descobriu a possibilidade de ter altas habilidades. Segundo Gabriel, “isso tudo fez sentido” e, com isso, “o que antes eu achava que era uma dor, por sempre começar alguma coisa e parar”, foi compreendido como algo natural e trabalhado para potencializar suas habilidades — a principal delas, para ele, “é entender o mundo complexo ao redor e traduzir isso de uma maneira fácil”.

Com o acesso aos cuidados necessários para os transtornos, Gabriel conseguiu terminar a faculdade e, logo depois, ingressou no PPGCI na modalidade de mestrado profissional. Ao contrário do mestrado acadêmico, voltado para a produção científica e formação de docentes do ensino superior, a modalidade profissional foca a aplicação das pesquisas desenvolvidas no mercado de trabalho.

Como parte de seu projeto, Gabriel desenvolveu a startup Braine (acrônimo para Brazilian Artificial Intelligence for Neurodiversity), que oferece inovações para o atendimento a populações neurodiversas com custo menor e um processo de diagnóstico mais ágil. Com as ferramentas da Braine, é possível “encurtar o que hoje é um diagnóstico de autismo de um ano para algumas semanas e [diminuir] o custo que hoje gira em torno de 5 a 10 mil reais para algumas centenas ou dezenas de reais”, ele explica.

Por meio da democratização do tratamento proposta pela empresa, Gabriel espera que “a partir do momento que a pessoa obtenha um diagnóstico, isso não seja um rótulo, mas uma linguagem do cuidado”. Ele também acredita que “chegou o momento de ter o debate de inclusão de todos os tipos de mente”.

Gabriel conta que, nesse momento, “o foco da minha vida é fazer o doutorado para levar esse cuidado que hoje eu tenho e essa qualidade de vida para todas as pessoas do Brasil” a partir do aprofundamento nas pesquisas.

 

“Não é o diagnóstico que liberta, é o cuidado.”

Gabriel Cirino, pesquisador

 

Neurodiversidade no mercado de trabalho

O TDAH se manifesta, principalmente, pela desatenção, hiperatividade e impulsividade presentes no comportamento dos indivíduos. Esses sintomas podem ser desafiadores no ambiente profissional, exteriorizando-se na forma de dificuldades para se concentrar em tarefas, desorganização e procrastinação, por exemplo.

Para Gabriel, o transtorno foi uma via de mão dupla. Ao mesmo tempo em que era incentivado a inovar “pela capacidade que o TDAH proporciona de pensar, talvez, criativamente, fora da caixinha” e por suas habilidades em comunicação, ele também relata que foi demitido e perseguido por conta de sua identificação como pessoa neurodivergente.

 

A Braine e o mestrado

A pesquisa de Gabriel no mestrado profissional foi orientada pela professora Ednéia Silva Santos Rocha, do PPGCI, resultando na dissertação intitulada Desenvolvimento de soluções tecnológicas inclusivas em saúde mental: A interseção entre ciência da informação, inteligência artificial, ética e neurodiversidade. Defendido em 2024, o trabalho explora a relação interdisciplinar entre diferentes áreas em prol de pessoas com transtornos neurodiversos. Nesse caso, a Ciência da Informação foi essencial para compreender formas de armazenar e gerenciar os dados sensíveis dos usuários da Braine e de suas ferramentas: “eu entendo que a saúde é transformar dados em informação e a informação em conhecimento” explica Gabriel.

A empresa é apoiada pelo Centro de Inovação, Empreendedorismo e Tecnologia (Cietec) da USP e oferece soluções que usam Inteligência Artificial (IA) em processos de atendimento médico a pessoas neurodivergentes, com diagnósticos e acompanhamentos de saúde. De acordo com Gabriel, o uso da IA e de algoritmos na saúde para otimização da gestão de informações permite “liberar o profissional para fazer o que ele faz de melhor, que é cuidar das pessoas”.

 

“Eu fiz algo na ECA que acho que é histórico. Eu qualifiquei [o mestrado] e em um mês, 20 dias depois, eu estava defendendo, e 20 dias depois eu estava matriculado no doutorado.”

Gabriel Cirino, pesquisador

 

Para o desenvolvimento da startup e das patentes da Braine, o pesquisador cursou disciplinas na Faculdade de Economia, Administração, Contabilidade e Atuária (FEA) da USP. Gabriel também lembra que começou a atuar com IA já inserido no mercado de trabalho, quando desenvolvia ferramentas contra fraudes na área de seguros, e foi incentivado por uma gestora a pesquisar sobre design de informação — foi só aí que descobriu o curso de pós-graduação em Ciência da Informação e o programa de pós-graduação nessa área que, para ele, “é um background necessário” para lidar melhor com dados. 

Gabriel considera esse passado no mercado profissional um diferencial seu em relação a outros pesquisadores. Para ele, há muitos estudos que ficam restritos ao ambiente acadêmico e, por isso, “há a necessidade de ter esse empreendedorismo, principalmente aqui na USP, para levar todo o nosso aprendizado para a sociedade”. Nesse sentido, ele também considera que possui uma “capacidade empreendedora nata”, que o ajudou a ser premiado em eventos, como rodadas de negócios. 

 

Foto à distância de dois homens vestidos com camisetas pretas e calças jeans escuras. Eles estão em cima de uma plataforma com  Web Summit Rio escrito com letras tridimensionais, com a logo do evento em cor laranja atrás. No fundo, há uma estrutura de um edifício baixo e palmeiras em um gramado verde. É dia e o céu é azul com poucas nuvens.
Gabriel junto de Gregory Máximo, co-fundador e head financeiro da Braine no Web Summit Rio 2024, evento que reúne empreendedores e investidores do ramo da tecnologia. Foto: acervo pessoal/Gabriel Cirino.

 

Mestrado acadêmico e mestrado profissional

Existem duas categorias de mestrado. O mestrado acadêmico ou stricto sensu é voltado para a produção científica e para a formação de docentes do ensino superior, enquanto a modalidade profissional, ou lato sensu, se dedica à aplicação das pesquisas desenvolvidas no mercado de trabalho.

Na ECA, apenas o Programa de Pós-Graduação em Ciência da Informação (PPGCI) oferece a modalidade profissional.

 

O trabalho de Gabriel se alinha aos Objetivos do Desenvolvimento Sustentável (ODS) propostos pela Organização das Nações Unidas (ONU) e evidencia “a conexão entre sustentabilidade, inclusão e tecnologia” — em especial, o pesquisador destaca os ODS 3: Saúde e Bem-Estar; 9: Indústria, Inovação e Infraestrutura; e 10: Redução de Desigualdades. A dissertação afirma que, “ao alinhar as soluções desenvolvidas aos ODS, a pesquisa busca ir além das necessidades imediatas, contribuindo para metas globais de desenvolvimento sustentável e reafirmando o compromisso com a responsabilidade social e o impacto positivo de longo prazo”.

Hoje, a Braine abarca três produtos:

  • O AURA-T, que corresponde à sigla para Autism Universal Rapid Assessment Tool (Ferramenta de avaliação rápida universal para Autismo, em inglês) e faz uso de algoritmos para identificar sintomas do Transtorno do Espectro Autista (TEA) em crianças, com base em padrões de comportamento, linguagem e interação social;
  • O Care360, que significa Caring Accessible Responsible Ecosystem 360 (Ecossistema de cuidado acessível responsável 360) que reúne informações para integrar pacientes, familiares e profissionais da saúde e facilitar o tratamento;
  • E o Bruna, Behavioral Responsible Unified Neurodiversity Assistant (Assistente comportamental responsável unificado para a neurodiversidade), que tem a função de auxiliar pacientes neurodivergentes em suas rotinas cotidianas.

 

Doutorado e expectativas de futuro

Depois de terminar o mestrado profissional em nove meses, Gabriel iniciou o doutorado e conseguiu obter todos os créditos necessários em disciplinas em apenas um semestre. Ele segue agora sob a orientação do professor Francisco Carlos Paletta, do Departamento de Informação e Cultura (CDB) e espera publicar um livro com os resultados de suas pesquisas sobre a Teoria Geral do Inconsciente Informacional Computacional, elaborada por ele próprio.

Além dessas formações, o doutorando segue aprendendo e conta que atualmente faz  “duas especializações no Albert Einstein — uma em Neurociência e outra em Health Data Science, ou seja, Ciência de Dados para a Saúde”. Ele também compartilha que está concluindo uma especialização na PUC Campinas, sobre TEA e TDAH, e outra na PUC do Rio Grande do Sul, em Gestão da Saúde.

 

“Por ironia do destino, eu tentei por muito tempo me formar em comunicação e em artes, e hoje eu estou aqui na maior escola de comunicação e artes da maior universidade da América Latina, do Sul Global, que é a USP.”

Gabriel Cirino, pesquisador

 

Fora do âmbito acadêmico, Gabriel espera expandir ainda mais a atuação da Braine. Ele relata que está em conversas com alguns municípios para começar a fazer “isso que é o meu sonho: zerar as filas de neurodiversidade e levar cuidado precoce para as crianças, seja na área da saúde, da assistência social ou da educação”.

 

 


Imagem de capa: montagem de Maria Luiza Negrão com foto do acervo pessoal de Gabriel Cirino.