Olga Futemma: cultura japonesa e apagamento de mulheres cineastas

Pesquisadora ecana investiga argumentos não filmados da cineasta e levanta questões sobre o seu projeto artístico e carreira. 

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Olga Futemma
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Olga Futemma é uma cineasta e pesquisadora nipo-brasileira formada no Departamento de Cinema, Rádio e Televisão (CTR) da ECA. Sua carreira como diretora consistiu em diversos documentários e uma ficção — todos curta-metragens produzidos entre 1974 e  1988 — cobrindo sobretudo temas ligados à vida de imigrantes japoneses no ocidente, mas também à rotina de mulheres que trabalham na cidade. 

A autora deixou diversos argumentos que não chegaram a ser filmados, mas que enriquecem sua filmografia. Cinco deles foram estudados pela pesquisadora Hanna Esperança, doutoranda no Programa de Pós-Graduação em Meios e Processos Audiovisuais (PPGMPA) da ECA e resultaram no artigo Uma análise dos projetos cinematográficos de Olga Futemma. O estudo foi publicado no volume 52 da Revista Significação: Revista de Cultura Audiovisual.

A intenção do artigo é entender como essa produção escrita dialoga com o restante da obra de Olga e como esse diálogo pode ampliar a visão sobre sua filmografia. A pesquisadora também coloca em questão as interrupções e descontinuidades comuns na vida de cineastas mulheres.

 

Entre a realidade e a ficção

 

Ao considerar os filmes não realizados dentro desse corpus, busco compreender não um projeto cinematográfico que poderia ter sido, mas sim um projeto cinematográfico que é.

Hanna Esperança, pesquisadora

 

Em uma primeira vista sobre a obra de Olga, é fácil perceber seu interesse na imigração japonesa para o Brasil, na vida cotidiana e nos dilemas do imigrante japonês. Em Sob as Pedras do Chão (1974), por exemplo, ela faz um retrato poético da Liberdade, bairro paulistano com a maior concentração de imigrantes japoneses. Em Retratos de Hideko (1981), a cineasta explora as relações entre mulheres japonesas e suas filhas, netas e bisnetas, enquanto Chá Verde e Arroz (1988), sua única ficção, narra a passagem de um cinema ambulante japonês por uma cidade do interior de São Paulo. 

Foto de dois homens sentados em um campo à luz do dia. Eles estão de costas para a câmera, têm cabelos escuros e curtos, usam chapéus pretos e vestem camisas brancas e calças pretas, o da esquerda também usa suspensórios. À direita dos homens há a traseira de uma caminhonete. O fundo tem uma fileira de árvores e o céu claro.
Um dos membros do cinema ambulante do filme Chá Verde e Arroz é um ex-benshi, um tipo de narrador de filmes mudos, que perdeu seu espaço com a popularização de obras faladas. Foto: Reprodução/Chá Verde e Arroz. 

Entretanto, a análise de alguns de seus argumentos não filmados nos traz uma nova perspectiva: “é possível”, diz Hanna, “visualizar que o interesse de Futemma pelo cinema e pela intersecção entre realidade e ficção não é algo localizado, mas uma característica de sua obra”. No argumento Humphrey Bogart e Eu, Olga pretendia retratar a vida de dubladores brasileiros, contrastando o glamour dos personagens na tela com a imagem modesta dos profissionais que lhes emprestam a voz. A proposta de Diretores de Fotografia, outro argumento não filmado, vai em um caminho semelhante: retratar as facetas da profissão, “abordando as dificuldades que os diretores de fotografia encontram no mercado de trabalho  e a desvalorização geral da categoria”. 

 

Viver no ocidente e preservar o oriente

 

A filmografia de Futemma é formada, portanto, por um corpus consistente que se estrutura por meio de repetições e reinvenções formais e narrativas. 

Hanna Esperança, pesquisadora

 

Hanna aponta que alguns argumentos de Olga reforçam ideias que já haviam sido trabalhadas em suas obras filmadas. No projeto de curta-metragem Yonosuke: Um Samurai em Chamas, a cineasta explora, por meio de seis personagens, o homem japonês, seus descendentes e o conflito de “preservar a cultura dos pais sem se negar a viver e participar da sua própria”. Nesse caso, Hanna nota que a proposta do argumento é semelhante a de Retratos de Hideko, algo que a cineasta afirma não ser por acaso, mas uma forma de abordar a totalidade da experiência da imigração: 

 

O reverso de ‘Retratos de Hideko’? Não simplesmente. A proposta de um tema como ‘Yonosuke’ se deve à necessidade de aprofundar cada aspecto da imigração japonesa, para melhor avaliar o que ocorreu na consciência dessa gente, nesse longo processo de mais de 70 anos de aculturação.

Olga Futema, Cineasta.

 

No último argumento analisado, O Retorno do Samurai, Olga traria de volta o personagem Yonosuke, explorando ainda mais os dilemas entre as culturas e a mescla entre realidade e ficção. Tendo como ponto de partida uma “face documental”, o filme criaria “uma camada de realidade que se relaciona com a trajetória do herói”. O personagem é descrito no argumento como alguém que “nega a própria cultura”, sendo filho único e, portanto, o responsável pela continuidade da família, mas ao mesmo tempo, sem filhos. Embora Yonosuke aparente não se preocupar com as exigências dos pais, ele também não se sente plenamente adequado à cultura ocidental: 

 

A dificuldade de ser cineasta “em tempo integral”

 

Foto de mulher amarela sorrindo. Seus cabelos são curtos, lisos e grisalhos e seus olhos são escuros. Ela usa óculos e veste uma blusa azul escura. O fundo está desfocado e tem um parque com árvores, uma quadra e cercas de metal.
Olga Futema foi funcionária da Cinemateca Brasileira de 1984 até 2020, passando pelos cargos de diretora-adjunta e coordenadora geral. Foto: Reprodução/Jojoscope.

Olga Futemma atuou como cineasta por 14 anos, o que, embora pareça muito, não foi o bastante para concretizar seu projeto artístico. Para Hanna, estudar os argumentos da realizadora abre espaço para uma visão de sua obra que não seria possível apenas a partir dos curtas filmados. Ao mesmo tempo, também é uma oportunidade para tirar mulheres cineastas do isolamento histórico. “A produção cinematográfica interrompida por demandas domésticas, maternidade ou pela simples necessidade de sustento”, explica a pesquisadora, “produz uma descontinuidade na filmografia de mulheres que dificilmente se mostra acidental.”

A própria Olga, comparando a sua carreira com a de seu então companheiro, Renato Tapajós, diz que nunca se considerou cineasta em tempo integral: “o Renato se definia como cineasta, documentarista, porque ele era. Eu era de vez em quando”. Para a pesquisadora, os projetos não realizados tornam-se vestígios de uma obra artística posta em silêncio, silêncio que o artigo busca romper:

 

Mais do que simplesmente preencher lacunas historiográficas, trata-se de reconhecer como campo legítimo de análise cinematográfica aquilo que também existiu no plano do desejo e da concepção –– os projetos interrompidos, os argumentos não filmados, as carreiras descontinuadas.

Hanna Esperança, pesquisadora

 

Revista Significação

A Significação – Revista de Cultura Audiovisual é vinculada ao Programa de Pós-Graduação em Meios e Processos Audiovisuais (PPGMPA) da ECA e publica estudos sobre obras audiovisuais e sistemas digitais, em sua diversidade de práticas e ideias no que diz respeito a processos específicos de reflexão, criação, produção e difusão. 

Em seu 52º volume, a revista traz publicações de duas pesquisadoras ecanas, o trabalho de Hanna sobre Olga Futemma e o artigo Walter Benjamin e Dani Karavan: uma travessia entre história, instalação e cinema, que propõe a fruição da instalação Passagens, Homenagem a Walter Benjamin (1990-1994), de Dani Karavan, como uma experiência cinematográfica. 

 

 

 


Foto de Capa: Reprodução/ Chá Verde e Arroz (1988)