Veja como HQ que retrata bastidores do brega no Pará consegue desenhar o som
Artigo da revista 9ª Arte analisa como o livro Brega Story, de Gidalti Jr., traduz a cultura da aparelhagem de Belém
Você já se pegou cantarolando o refrão da música Voando pro Pará, da cantora Joelma? O sucesso que fez o Brasil inteiro querer tomar um tacacá é apenas uma das muitas ramificações de uma longa e rica árvore genealógica que começou a brotar por volta de 1940 com as primeiras influências do ritmo brega. Declarado patrimônio cultural imaterial no estado do Pará, a trajetória de ascensão, reinvenção e resistência do gênero musical caminha lado a lado com um outro movimento artístico na região: o cenário da narrativa gráfica.
Vencedor do Prêmio Jabuti na categoria História em Quadrinhos com a obra Castanha do Pará (2018), Gidalti Jr. lançou, em 2021, a graphic novel Brega Story. O livro acompanha a trajetória do músico Wanderson Jr. nos bastidores da cena musical de Belém. Recentemente, esse universo foi explorado na 14ª edição da revista 9ª Arte, no artigo Desvendando o processo gráfico em Brega Story, pelos pesquisadores Francisco Pereira Smith Júnior e Carlos Geovane da Costa Araújo, ambos da Universidade Federal do Pará (UFPA).
A proposta central do estudo é destrinchar os bastidores do desenvolvimento visual e textual do livro, além de mostrar como ele desafia as estruturas tradicionais dos quadrinhos para converter som em imagem. Aprofundando aspectos da interação entre texto e ilustração, ele revela os caminhos gráficos que o autor percorreu para traduzir a experiência sensorial festiva e ruidosa das aparelhagens de tecnobrega para o papel.
O processo gráfico e a estética
O artigo inicia traçando um contraste entre a estrutura dos quadrinhos tradicionais (marcados por um padrão mais rígido e linear dos quadros) e a proposta de Gidalti. A HQ paraense representa a cultura da música brega e tecnobrega, típica das festas de aparelhagens (gigantescos sistemas de som e iluminação), por meio de quadros que se sobrepõem e abrem mão de margens nítidas. Alinhado a uma tipografia que varia conforme a intensidade sonora, o design transporta o leitor para as intensas festas onde tudo acontece simultaneamente.
Além disso, segundo os pesquisadores, outro jogo gráfico do autor é a variação entre páginas coloridas, para enfatizar certos momentos de clímax, com páginas monocromáticas em momentos cotidianos. As ilustrações em preto e branco, segundo o artigo, forçam o leitor a focar mais nas expressões dos personagens e nas emoções transmitidas por meio das linhas e sombras.
“A escolha estética [da variação entre páginas coloridas e monocromáticas] não é apenas uma decisão estilística, mas também estratégica, considerando tanto a expressividade da narrativa quanto a viabilidade econômica da publicação.”
Francisco Pereira Smith Júnior e Carlos Geovane da Costa Araújo, pesquisadores da UFPA.
Segundo os pesquisadores, a identidade visual da obra também se apoia em uma representação estética da periferia de Belém. Elementos como os emaranhados de fios elétricos nos postes e detalhes arquitetônicos típicos conferem uma autenticidade que conecta o leitor ao cenário urbano local. Essa ambientação oscila entre planos abertos, que exibem a grandiosidade de aparelhagens e closes dramáticos dos personagens.
Para dar vida a essa atmosfera, o autor adota o que os pesquisadores chamam de traço intencionalmente "sujo". O uso de linhas rabiscadas, sobrepostas e aparentemente desordenadas funciona como uma técnica para materializar o som no papel: quando as caixas acústicas disparam as batidas, o peso gráfico e as linhas explosivas que emanam do centro da página fazem a imagem vibrar, transmitindo fisicamente o impacto das ondas sonoras ao leitor.
O reflexo cultural da música, do dinheiro e do melodrama
Como outra maneira de espelhar a cultura do brega, o artigo destaca a inserção de trechos de canções que fazem parte do imaginário sociocultural do Pará, como Gringo Lindo, da banda Calypso. Esse recurso cria uma ponte com o repertório afetivo de quem lê e reforça ainda mais a ambientação e a conexão com o enredo.
“Quem conhece o repertório brega imediatamente reconhece a referência e a incorpora à cena, tornando-a mais impactante. Esse tipo de recurso não apenas reforça a verossimilhança da narrativa, mas também evidencia a importância da música como um elemento identitário na construção da cultura paraense.”
Francisco Pereira Smith Júnior e Carlos Geovane da Costa Araújo, pesquisadores da UFPA.
A realidade financeira do meio musical periférico também ganha destaque. Em determinadas cenas nos bastidores, o murmúrio incessante e desesperado pela palavra "CACHÊ!" aparece em balões de fala sobrepostos, criando um efeito de eco e saturação. Esse jogo tipográfico ilustra, segundo os pesquisadores, as tensões econômicas de uma indústria competitiva, onde a disputa por sobrevivência financeira e visibilidade dita o destino dos artistas locais.
O sofrimento amoroso, a traição e a construção social da masculinidade, marcas registradas do gênero musical, também ganham contornos gráficos. O artigo analisa a cena em que um trecho da canção Don’t Cry, do músico Marcelo Wall, ilustra um homem chorando. A justaposição de um semblante socialmente pressionado a esconder sentimentos com uma lágrima escorrendo contrasta ironicamente com o trecho "Homem que é homem não chora. Pode até sofrer por alguma mulher", exibindo o sentimentalismo das canções retratado em imagem.
A pesquisa afirma que Brega Story consolida-se como um poderoso espaço de crítica social e resistência, ironizando a marginalização regional e a "folclorização" - representações estereotipadas, simplificadas e descontextualizadas - da cultura periférica. Para os pesquisadores, através de um embate geracional entre o brega tradicional e o tecnobrega digitalizado, a novela gráfica traduz as complexidades de um território que resiste ativamente à homogeneização cultural e ao apagamento.
“A partir de um discurso visual comprometido com a crítica social, a obra escancara o abismo existente entre o Norte do Brasil e os centros hegemônicos de poder simbólico.”
Francisco Pereira Smith Júnior e Carlos Geovane da Costa Araújo, pesquisadores da UFPA.
Revista 9ª Arte
O artigo de Francisco e Carlos faz parte da última edição da revista 9ª Arte: Norte em Quadrinhos e a atuação da coletividade nas fissuras do mercado editorial brasileiro. Ela divulga artigos científicos sobre histórias em quadrinhos a partir de pesquisas acadêmicas desenvolvidas por pesquisadores brasileiros e estrangeiros. Funcionando sob o sistema de fluxo contínuo, o periódico de acesso gratuito abre espaço para resenhas, entrevistas históricas e um panorama completo de eventos e exposições.
Imagem de capa: reprodução/ Brasa Editora.