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Trilha Nordeste: viagem amplia vivências em Educomunicação

Recebidos pela Universidade Federal de Sergipe, ecanos visitam comunidades locais e refletem sobre o diálogo entre academia e população

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No último semestre, estudantes entre o primeiro e quarto ano do curso de Educomunicação participaram de uma viagem ao Estado de Sergipe para conhecer comunidades e expandir os conhecimentos adquiridos durante o curso. A experiência, batizada como Trilha Educom Nordeste, foi uma proposta elaborada pelo professor Claudemir Edson Viana, no intuito de  interagir com culturas locais e dialogar com diferentes instituições.

O professor explica que o curso de licenciatura é transdisciplinar e que as aulas apresentam a potencialidade da comunicação como um campo que também educa. Ele destaca que o contato direto com populações diversas é essencial na Educomunicação porque essa é uma área do conhecimento vinculada à sociedade e às relações interpessoais.

A proposta inicial para a trilha surgiu no Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia (INCT) Combate à Fome. O instituto é integrado por diversos pesquisadores, como o professor Claudemir e a professora Patrícia Horta, da Universidade Federal de Sergipe (UFS), que compõem o eixo de Educomunicação. Ambos docentes também participam do Núcleo de Comunicação e Educação (NCE). O contato entre eles e o trabalho que a UFS possui com comunidades tradicionais guiou a escolha do local da viagem. Para Claudemir, projetos como esse, que envolvem diferentes instituições, oferecem oportunidade de aumentar a integração entre diferentes grupos no campo da Educomunicação.

 

Foto com quatro pessoas de pé, em uma sala, à frente de uma tela de projeção. Da esquerda para a direita: mulher branca com cabelo longo e castanho escuro, usa vestido longo branco,pulseira marrom e colar em formato de flor; homem branco com cabelo preto e curto, veste camiseta cinza,  calça jeans  e usa óculos; mulher negra de pele clara, usa óculos, veste blusa preta e saia jeans longa; mulher branca falando e gesticulando, ela tem cabelos curtos e grisalhos, usa óculos, veste uma blusa preta com um xale escuro por cima, saia branca e usa colar amarelo.
Da esquerda para a direita: Patrícia Zimermann, Claudemir Edson Viana, Renata Siqueira e Patrícia Horta. Foto: Fernanda Morales Valverde/Labidecom.

Labidecom

O Laboratório de Inovação, Desenvolvimento e Pesquisa em Educomunicação promove atividades de extensão e pesquisa para alunos e professores da graduação e da pós-graduação. O núcleo desenvolve oficinas, seminários e outras atividades com conteúdos nas áreas da educação e comunicação.

Como representante do primeiro ano da licenciatura, os estudantes da disciplina de Fundamentos Epistemológicos da Educomunicação, lecionada pelo professor Claudemir, escolheram Leandro Ribeiro Santos. A aluna do segundo ano, Fernanda Valverde foi selecionada por ser estagiária do Labidecom, laboratório do curso de Educomunicação.  No terceiro ano, o escolhido foi Leonardo Cardeal da Costa, que atuou no desenvolvimento do projeto com o professor Claudemir, como bolsista PUB. Por último, Jéssica Turbiani, do quarto ano,  foi indicada pela professora Dayana Melo, responsável pela disciplina Diversidade Cultural e Educomunicação: a Cultura Africana, Afro-brasileira e Indígena, que aborda temas relacionados a comunidades tradicionais.

 

Montagem com quatro fotos: homem negro careca, com cavanhaque sorrindo, ele veste uma camisa com listras verticais brancas e azuis; mulher branca com cabelo liso e comprido castanho escuro sorrindo, ela está sentada e veste camiseta preta e calça jeans; homem branco com cabelos curtos, lisos e  pretos, veste uma camiseta vermelha e calça bege;  mulher negra de pele clara, veste blusa  branca e calça com listras coloridas.
Estudantes que participaram da Trilha Educom Nordeste. Da esquerda para a direita:  Leandro Ribeiro Santos (1º ano), Fernanda Valverde (2º ano), Leonardo Cardeal da Costa (3º ano) e Jéssica Turbiani (4º ano). Montagem: Ana Vitória Barbosa. Fotos: Labidecom.

 

Da ECA ao mundo: a prática da Educomunicação

A veterana Jéssica encarou a experiência como um dever. Ela entende que o projeto se relaciona com o conteúdo da licenciatura pois o curso aborda a decolonialidade e possui um viés social, político e democrático.

Para a aluna, “a prática é essencial para um trabalho na educomunicação”, pois a experiência expande o conteúdo estudado. A trilha proporcionou a oportunidade de conhecer ações educomunicativas realizadas nas regiões visitadas, principalmente, observando os projetos que a UFS desenvolve com as comunidades.

Durante os sete dias de viagem: a comitiva compareceu ao lançamento do aplicativo Do quintal à Cozinha, do Movimento de Mulheres Trabalhadoras Rurais de Sergipe (MMTR/SE); conheceu o Movimento das Marisqueiras de Sergipe; foi para a cidade de Japaratuba; conheceu Dona Joséfa, a guardiã de sementes e tradições na comunidade quilombola do Sítio Alto, localizada em Simão Dias; e, por fim, visitou a comunidade quilombola Terra Dura e Coqueiral, na Capela.

Jéssica diz que o dia mais marcante para ela foi o da a visita a Japaratuba, quando foram recebidos na fazenda da pesquisadora conhecida como Dona Lurdinha. A anfitriã reuniu líderes comunitários e representantes de cultura popular da região, como Bonfim Capoeira, mestre de capoeira, e Marilene, mestra de reisado, chegança, entre outros. O encontro teve o formato de roda de conversa e aconteceu durante um café da manhã, propiciando um diálogo horizontal entre todos os participantes. A estudante pôde, portanto, constatar que os relacionamentos estabelecidos entre a academia e as comunidades devem ser de troca de saberes, construindo projetos que favoreçam esses espaços.

 

“Política, educação, comunicação e arte têm que estar intrinsecamente ligadas. A universidade tem um papel importante para dar nome a esses mestres e mestras, honrar, fazer pesquisas e formalizar, institucionalizando políticas públicas.”

Jéssica Turbiani, estudante de Educomunicação.

 

Em mais de uma oportunidade, os estudantes de Educom interagiram com professores e alunos da UFS. Eles participaram da semana acadêmica da instituição, conheceram os integrantes do INCT Combate à Fome da universidade e apresentaram o curso de Educomunicação da USP para estudantes de Publicidade e Propaganda da instituição.

Os estudantes da UFS também apresentaram projetos desenvolvidos lá, como e o Café com Case, um evento semestral com oficinas e palestras voltadas para questões sociais e com uma visão decolonial.

 

Trilha Nordeste: viagem amplia vivências em Educomunicação

Foto de 17 pessoas diversas posando e sorrindo em duas fileiras em uma sala de aula. Parte das pessoas está de pé e parte está abaixada à frente. Uma das pessoas exibe um livro em cuja capa há a ilustração de um punho negro em riste.

Logo de início, os membros da trilha se encontraram com os integrantes do INCT da UFS e participaram da semana acadêmica da instituição. Foto: Labidecom.

Montagem com duas fotos de uma sala com grupo de pessoas, tendo ao centro alimentos e folhas sobre tecidos floridos. À esquerda, uma mulher, vestindo camiseta e saia laranja, fala ao microfone entre duas mulheres de camisa amarela. Atrás dela na parede está escrito: auditório sindical José Felix Neto. À esquerda, na mesma cena, um homem negro de camiseta laranja  fala ao microfone. Ele está em pé e tem pessoas sentadas em carteiras à sua volta.

A Trilha Educom Nordeste participou do lançamento do aplicativo Do quintal à Cozinha. Fotos: Fernanda Morales Valverde/Labidecom.

Foto em ambiente aberto gramado e ensolarado de 20 pessoas diversas dispostas em duas fileiras, uma parte em pé e uma parte menor abaixada à frente. Uma pessoa ao centro usa um chapéu  cangaceiro e outra usa chapéu e blusa com fitas de cetim coloridas. Ao fundo, árvores e flores.

Visita à fazenda da Dona Lurdinha em Japaratuba. A anfitriã também convidou representantes da cultura local. Foto: Fernanda Morales Valverde/Labidecom.

Foto de três pessoas em ambiente aberto com grama e vegetação. Nas pontas, dois homens negros que olham um para o outro: o da esquerda é careca e veste camisa com listras verticais azuis e brancas; o da direita veste uma camiseta branca, chapéu de cangaceiro e óculos de sol.  No centro, há uma mulher negra de pele clara com cabelo crespo preso para cima, ela veste uma regata verde e calça branca com listras e olha para o celular em suas mãos.

Em um ambiente descontraído, os estudantes da USP conversaram com mestres e mestras de cultura popular da região. Foto: Fernanda Morales Valverde/Labidecom.

Foto de 12 pessoas diversas posando, sendo uma fileira em pé e três pessoas abaixadas, em ambiente externo com chão de terra. À  frente do grupo há recipientes com grãos e sementes, atrás há árvores e vegetação.

Os estudantes de Educom conheceram a comunidade quilombola do Sítio Alto. Foto: Fernanda Morales Valverde/Labidecom.

Foto com duas pessoas sentadas sorrindo em ambiente aberto com plantas ao fundo. Uma mulher negra, com cabelo longo, liso e grisalho preso com uma faixa branca, veste camisa branca com rendas e gesticula, e um homem com cabelos curtos lisos e castanhos, usando óculos e vestindo camiseta preta, segura um pote com grãos em uma mão e um punhado de grãos soltos na outra. À esquerda, no recorte da imagem, as mãos de outra pessoa seguram um copo pequeno.

No quilombo, a comitiva da USP conheceu o banco de sementes mantido por uma das integrantes da comunidade. Foto: Fernanda Morales Valverde/Labidecom.

Foto de cerca de 30 pessoas diversas sentadas em cadeiras estofadas azuis em um auditório. Elas estão sorrindo e têm os punhos levantados. Duas pessoas ao fundo exibem uma sacola de pano na qual está escrito Raízes.

Membros da Trilha participam de aula com alunos de Publicidade e Propaganda da UFS. Foto: Labidecom.

Foto de mulher branca com cabelos lisos, compridos e escuros falando e gesticulando à frente de uma sala de aula.  Ela veste regata preta e calça jeans. Em primeiro plano, mesas com materiais e equipamentos e atrás uma tela com projeção de imagens e o escrito: INCT BIODIVERSIDADE DA AMAZÔNIA AZUL.

Cada ecano falou sobre as atividades desenvolvidas dentro e fora da universidade. Foto: Patrícia Zimermann.

 

Patrícia Zimermann, pesquisadora do Instituto de Estudos Avançados (IEA) da USP, entrou na Trilha por integrar o grupo de pesquisa Respiro, do Departamento de Comunicação Social da UFS, e projetos de Educomunicação no Labidecom e NCE, da ECA, desde 2016.

A pesquisadora explica que a UFS mantém ações e atividades regulares com as comunidades. Por isso, o roteiro da Trilha considerou os contatos já existentes com as populações. Para ela, há um grande contraste entre as regiões visitadas, mas ela observa um elemento em comum entre os vários locais: o protagonismo feminino em movimentos sociais.

A pesquisadora defende “colocar a sala de aula dentro da realidade”, destacando  a importância de ações com contato direto nos territórios, para que a prática dos estudantes seja mais humanizada. Para ela, essa também é a função da academia.

Renata Siqueira, coordenadora do Centro Colaborador em Alimentação Escolar (Cecane /UFS), explica que as ações nos territórios são imersivas. Eles analisam os espaços e, aos poucos, constroem uma relação de confiança com as comunidades. As visitas são periódicas e promovem ações de combate à fome inspiradas em modos de produção sustentáveis.

 

“A inclusão de professores e estudantes da USP foi uma experiência muito enriquecedora, que possibilitou a troca de saberes interdisciplinares, assim como, a expectativa de ações conjuntas futuras que poderão fortalecer e tornar ainda mais resolutivos os projetos de combate à fome desenvolvidos na USP e UFS.”

Renata Siqueira, pesquisadora da UFS

 

 

Repercussões da prática

A Trilha ocorreu entre os dias 27 de novembro e 3 de dezembro de 2025 e foi financiada pelo programa Viagem Didática, da Pró-Reitoria de Graduação (PRG) da USP, além de contar com o apoio da ECA. O projeto também gerou um artigo em que Claudemir Edson Viana e o estudante Leonardo Araujo Cardeal da Costa dialogam sobre a relação entre a comida e a educomunicação.

 

“A questão sempre presente na trilha é: visitar e interagir com comunidades, para que ocorram trocas e parcerias em temas relevantes para elas.”

Claudemir Edson Viana, professor da ECA

 

A Trilha Educom Nordeste foi a segunda viagem realizada com recursos da Viagem Didática dentro do curso. Entre os dias 1 e 6 de outubro de 2017, o professor Claudemir mais duas estudantes visitaram a Universidade Federal de Campina Grande (UFCG) para conhecer um dos primeiros cursos de Educomunicação no Brasil. O professor busca promover a viagem todos os anos, priorizando o contato com as populações locais, enquanto explora diferentes perspectivas da Educomunicação.

A viagem de 2025 também resultou em uma transmissão ao vivo, no dia 4 dezembro do mesmo ano, produzida por outros estudantes da licenciatura. Nela, Patrícia Zimermann conta que “uma das mensagens que a comunidade trouxe para nós enquanto academia é:  nos devolva o que vocês vieram buscar aqui”. Dessa forma, a pesquisadora salienta a importância das ações desenvolvidas junto às populações não cessarem com a publicação de uma pesquisa ou de um trabalho.

Para o segundo semestre de 2026, Claudemir já tem um local em mente: Santarém, no Pará, onde ocorrerá o 11º Encontro Brasileiro de Educomunicação na Universidade Federal do Oeste do Pará (Ufopa). O professor pontuou a relevância da região na educomunicação socioambiental, movimento que surgiu em conjunto com militâncias em defesa da natureza. O Encontro de Educomunicação está em fase de planejamento e mais informações sobre ele estarão disponíveis em maio.

 

 

 

Foto de capa: Fernanda Morales Valverde/Labidecom.
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