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Digitalização e economia de dados estão transformando o mundo do trabalho

Saiba mais na reflexão de docentes que integram o Centro de Pesquisa em Comunicação e Trabalho da ECA

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A forma como trabalhamos mudou profundamente nas últimas décadas — e a comunicação está no centro dessa transformação. Em um mundo marcado pela digitalização, pelo uso intensivo de plataformas e pela circulação permanente de informações, comunicar deixou de ser uma atividade complementar e passou a estruturar o próprio trabalho. 

Captura de tela de cabeçalho de site com banner roxo. No topo, à esquerda, há um logotipo composto por números binários e uma engrenagem, seguido por menu com os itens: "O Projeto", "Quem Somos", "Produções", "Base de Dados" e "Publicações na Mídia". Abaixo, o banner principal tem fundo em tons de roxo e dourado. Sobre ele, lê-se o texto: "Datificação da atividade de comunicação e trabalho de arranjos de comunicadores". No centro inferior, um botão com o texto "SAIBA MAIS".
Página do Projeto de Pesquisa do Centro de Pesquisa em Comunicação e Trabalho (CPCT). Imagem: reprodução/CPCT.

 

As novas tecnologias de informação e de comunicação são peças-chave e ocupam lugar de destaque na lógica da estrutura socioeconômica do sistema capitalista. Os meios digitais atuam na compressão tempo-espaço das relações sociais, reconfigurando nossa cultura. A atividade de comunicação e de trabalho é apropriada por agentes mercadológicos, entre eles as empresas-plataformas, cujo poder reorganiza o mundo do trabalho, as profissões e os discursos que circulam na sociedade. Essa é uma das principais reflexões desenvolvidas pelo Centro de Pesquisa em Comunicação e Trabalho (CPCT), criado em 2003, e cadastrado no Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq).

Entender essa relação é fundamental para compreender o cotidiano de milhões de trabalhadores e trabalhadoras. Em diferentes áreas — como jornalismo, cultura, educação, publicidade, direito, psicologia, serviços em plataformas digitais — a comunicação organiza rotinas, define hierarquias, mede desempenhos e estabelece critérios de reconhecimento profissional. Não se trata apenas de usar tecnologias, mas de produzir sentidos, tomar decisões, negociar informações e lidar com pessoas em contextos muitas vezes marcados por pressão e instabilidade.

Foto de grupo em frente a prédio com cobertura semitransparente sobre a entrada. Cerca de vinte pessoas, homens e mulheres de diversas idades e etnias, posam sorridentes para a foto em uma área externa pavimentada. Acima da porta de entrada, lê-se "ESCOLA DE COMUNICAÇÕES E ARTES" e "Prédio Central 1". O grupo veste roupas casuais e variadas, como camisetas, blusas coloridas, calças jeans e casacos. Ao fundo, portas de vidro e vasos com plantas.
Pesquisadores do Centro de Pesquisa em Comunicação e Trabalho (CPCT) da ECA. Foto: Banco de imagens do CPCT.

 

Um dos conceitos centrais discutidos pelo CPCT é o de datificação do trabalho. Embora o termo pareça muito técnico, ele descreve uma experiência bastante comum: atividades humanas passam a ser transformadas em dados. Cliques, curtidas, comentários, tempo de resposta, número de acessos e avaliações automáticas tornam-se indicadores de produtividade e qualidade. Esses dados são coletados, organizados e analisados por sistemas digitais que influenciam diretamente as condições de trabalho.

Esse processo altera as relações entre trabalhadores e organizações. Ao invés de critérios claros e negociados coletivamente, surgem métricas opacas, definidas por plataformas e algoritmos. Muitas vezes, o trabalhador não sabe exatamente como é avaliado, nem como melhorar seu desempenho segundo essas lógicas. Como resultado, temos a ampliação das formas de controle, intensificação do ritmo de trabalho e transferência de responsabilidades para o indivíduo, enfraquecendo a proteção coletiva.

O Centro de Pesquisa em Comunicação e Trabalho (CPCT) foi criado em 2003 e, em 2004, foi credenciado no Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq). O CPCT conta com a participação de professores, pós-doutorandos, doutorandos, mestrandos e bolsistas de iniciação científica. A partir do binômio comunicação–trabalho, busca compreender como a comunicação organiza, constrói e transforma redes de sentido em um mundo do trabalho em permanente mudança. Tem um vasto programa de pesquisas já realizadas, publicações e anualmente realiza o Fórum Comunicação e Trabalho, já em sua XI edição e o Workshop Datificação da atividade de trabalho em sua IV edição. O site é um rico repositório dos eventos organizados, das publicações e dos resultados de pesquisa. O CPCT também desenvolve produtos educomunicativos para educação midiática. 

E-mail: cpct@usp.br

Ilustração da caixa do jogo didático Perfilando. A caixa é branca, de formato retangular, vista em perspectiva. Na tampa e na lateral, lê-se o nome "Perfilando" em letras pretas com efeito de sombra colorida. Abaixo do título, há três formas geométricas arredondadas que lembram montanhas, nas cores preta, rosa e azul-claro. No topo, constam os logotipos do Centro de Pesquisa Comunicação e Trabalho, da ECA-USP e da Fapesp.
Conheça Perfilando, o jogo didático que ensina como funciona o algoritmo das redes sociais. Imagem: reprodução/CPCT. 

 

No jornalismo, esses impactos são particularmente visíveis. Profissionais da área enfrentam a pressão constante por visibilidade e engajamento, em um ambiente dominado por redes sociais e plataformas digitais. Métricas como alcance e número de visualizações influenciam pautas, formatos e tempos de produção. Ao mesmo tempo, cresce a precarização dos vínculos de trabalho, com aumento do trabalho freelance, contratos instáveis e jornadas que se estendem para além do horário formal, misturando tempo profissional e vida pessoal.

As pesquisas desenvolvidas pelo CPCT ampliam essa análise sobre o impacto no mundo do trabalho, ao mostrar que essas transformações não são apenas tecnológicas, mas também sociais, políticas e simbólicas. Elas fazem parte de um modelo econômico que valoriza a extração de dados, a redução de custos e a intensificação do trabalho. Nesse cenário, a comunicação torna-se um espaço de disputa entre autonomia e controle, visibilidade e invisibilidade, reconhecimento e silenciamento.

Um ponto central dessas pesquisas é a escuta das experiências concretas dos trabalhadores. Sem partir apenas de discursos empresariais ou promessas de inovação, os estudos dão centralidade ao cotidiano de quem vive o trabalho. Essa abordagem permite compreender não só as condições materiais, mas também os efeitos subjetivos do trabalho comunicacional, como o cansaço, o sofrimento, a insegurança e o sentimento de não reconhecimento.

Ao trazer essas questões para o debate público, a universidade cumpre um papel essencial. Produzir conhecimento crítico, acessível e socialmente comprometido é uma forma de contribuir para a reflexão sobre direitos, democracia e justiça social. Discutir comunicação e trabalho é, portanto, discutir o presente e o futuro das profissões em uma sociedade cada vez mais mediada por dados, algoritmos e plataformas digitais.

 

Sobre as autoras

Roseli Figaro é professora titular no Departamento de Comunicações e Artes (CCA) da ECA e coordenadora do Centro de Pesquisa em Comunicação e Trabalho (CPCT). Cláudia Nonato é professora doutora do Programa de Pós-graduação em Comunicação da Universidade Paulista (Unip) e vice-coordenadora do Centro de Pesquisa em Comunicação e Trabalho.

 

 

Fontes: 
COMUNICAÇÃO E TRABALHO. Site do Centro de Pesquisa em Comunicação e Trabalho na Universidade de São Paulo (CPCT/ECA-USP). Disponível em https://comunicacaoetrabalho.eca.usp.br/
DE PAULA, Leony; SOARES, Samuel. A dataficação do trabalho comunicacional: entrevista com Roseli Figaro. Assimetrias - Núcleo de Estudos das Mediações Simbólicas e Materiais das Tecnologias Digitais (Assimetrias/UFJF), 2025. Disponível em https://assimetrias.com/noticias/a-dataficacao-do-trabalho-comunicacional-entrevista-com-roseli-figaro/
FIGARO, Roseli. Comunicação e Trabalho: uma trajetória de estudos nas Ciências da Comunicação. In PEREZ, Clotilde et. al. (organizadores). PPGCOM USP 50 anos: entre o passado e o 1.ed. futuro, nosso percurso. 1.ed. – São Paulo: Estação das Letras e Cores, 2023.

 

 


Imagem de capa: Steve A. Johnson/Unsplash.
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