Influências: consolidando os estudos sobre influenciadores digitais na ECA
A partir de perspectiva multidisciplinar, o evento mostra a diversidade de estudos na área
A ECA realizou, entre os dias 4 e 6 de maio, o primeiro encontro acadêmico do Brasil dedicado exclusivamente a estudos sobre as dinâmicas da influência e dos influenciadores digitais. O esforço simboliza uma consolidação dessa área de pesquisa, marcada por uma ampla diversidade de abordagens.
Batizado de Influências - Encontro de Pesquisadores em Influências Digitais, o evento, coordenado pela professora Issaaf Karhawi, do Departamento de Comunicações e Artes (CCA), recebeu mais de 170 trabalhos, com 130 sendo apresentados em diferentes sessões. A USP também recebeu pesquisadores de todo o Brasil, do Norte ao Sul, mostrando como a área conta com uma abrangência nacional.
Os estudos sobre influenciadores digitais são relativamente recentes, remontando aos anos de 2015 e 2016 no Brasil. Naquela época, os influenciadores ainda eram um objeto de estudo nascente, e os pesquisadores que primeiro se debruçaram sobre o tema precisavam lidar com resistências no campo científico da Comunicação e com a falta de um espaço qualificado especificamente voltado à discussão de metodologias e teorias para a área.
Desde então, os influenciadores digitais explodiram como um fenômeno marcante da contemporaneidade digitalizada. Hoje, o chamado “mercado de influência” já movimenta cerca de R$ 20 bilhões anualmente no Brasil. Os influenciadores também contam com um poder crescente na sociedade, pautando debates e fazendo jus ao nome ao influenciar em decisões de compra, estudo, hábitos diários e, até, votos.
Concomitantemente, os estudos sobre esse fenômeno também tiveram uma expansão acelerada no Brasil. Faltava, porém, um encontro específico para congregar todos os pesquisadores dedicados à área e às suas interfaces. Foi dessa necessidade que nasceu o Influências.
Os números do evento superaram as expectativas, e materializaram uma sensação crescente no meio acadêmico: há cada vez mais pesquisadores, em graus variados de carreira, interessados no tema, exatamente pela sua alta capilaridade e impacto socioeconômico.
Não é ousadia dizer que a ECA foi pioneira nesse movimento. E o Influências também concretizou essa posição: foram 22 trabalhos apresentados por pesquisadores da Escola, entre graduandos, pós-graduandos e docentes.
Um levantamento inicial a partir dos resumos enviados por esses pesquisadores permitiu identificar temáticas comuns entre as pesquisas conduzidas na ECA. Destacam-se, por exemplo, os debates em torno das plataformas digitais e as relações entre lógicas algorítmicas e a atuação dos influenciadores; da plataformização do trabalho e reflexões críticas acerca do mercado de influência; do jornalismo e da política com foco nas mudanças nessas esferas com a consolidação dos influenciadores digitais; dos ativismos e das reconfigurações da representatividade de grupos minoritários nas redes; das narrativas audiovisuais a partir da análise das experimentações estéticas em linguagens digitais; das visibilidades midiáticas em debates acerca do papel dos influenciadores em estratégias de comunicação, temática que dialoga diretamente com outro debate presente em torno do papel dos influenciadores digitais nas dinâmicas de consumo material e simbólico.
Esse mesmo levantamento permitiu a criação de uma nuvem de palavras que sintetiza os temas, correntes e caminhos de pesquisa adotados por esse grupo:

Como seria de se esperar, há uma hegemonia dos termos próprios da área: Influenciador (84 menções) e Digitais (64 menções). Mas a distribuição revela ainda alguns aspectos característicos da área atualmente.
Os estudos de influenciadores digitais nascem como um braço de uma área mais ampla, os chamados Estudos de Plataformas Digitais, aproveitando e contribuindo para os referenciais da área. Não à toa, o termo “Plataforma” teve 63 menções. Entretanto, os caminhos de pesquisa sobre a área que têm sido adotados na ECA e pelos seus docentes também se manifestaram, seja os próprios de estudos de influência ou áreas mais amplas que se atualizam ao tomar os influenciadores enquanto objeto.
O termo “Trabalho”, por exemplo, teve 56 menções, indicando um caminho profícuo de estudos. Já “Visibilidade” e “Conteúdo” tiveram, respectivamente, 46 e 41 menções. O próprio campo da Comunicação, e todos os seus referenciais, ainda se fazem presentes, com 37 menções. Outros conceitos, como “Rede”, “Sociais”, “Cultura” e “Consumo” também estão entre os mais citados, reforçando a diversidade de abordagens possíveis.
A análise do microcosmo de trabalhos apresentados por pesquisadores da ECA dialoga com uma diversidade semelhante na totalidade dos trabalhos apresentados ao longo dos três dias do evento. E o encontro também mostrou como o tema está cada vez mais presente na USP: além da ECA, também apresentaram trabalhos pesquisadores da Escola de Artes, Ciências e Humanidades (EACH), da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH), da Faculdade de Direito e do Instituto de Ciências Matemáticas e de Computação (ICMC).
Assim, o Influências deixa como saldo a confirmação de que os estudos de influenciadores digitais estão cada vez mais consolidados enquanto área particular de estudos. Consolidada exatamente pela sua diversidade de teorias, métodos, abordagens e ideias. Uma diversidade necessária para um fenômeno que é, em essência, diverso e complexo.
Sobre o Influências
O Influências ocorreu no Prédio Central da ECA, entre os dias 4 e 6 de maio de 2026, e no Anfiteatro Camargo Guarnieri. O evento contou com o apoio da Pró-Reitoria de Pesquisa e Inovação (PRPI-USP) e da Pró-Reitoria de Cultura e Extensão Universitária (PRCEU-USP) e integrou o calendário de festividades dos 60 anos da Escola de Comunicações e Artes da USP.
A cobertura do evento foi realizada pelas alunas Agnes Moreira e Anita Ayres, com parceria da Viu.Globo, e pode ser acessada pelo Instagram do evento. Os anais do evento serão publicados no segundo semestre de 2026, no site do Influências.
Sobre os autores
Issaaf Karhawi é professora do Departamento de Comunicações e Artes (CCA) e do Programa de Pós-Graduação em Ciências da Comunicação (PPGCOM), ambos da ECA. Coordenadora do Influências e reconhecida como a principal referência nacional nos estudos sobre influenciadores digitais e criadores de conteúdo.
João Pedro Malar é jornalista, mestre e doutorando em Ciências da Comunicação pela ECA. No Influências, apresentou o trabalho Newsfluencers: reflexões e tensões em torno do conceito a partir das dinâmicas entre jornalismo e plataformas digitais e compôs o Comitê Organizador do evento.