Olivier Toni, o centenário de um artesão da música
O maestro foi instrumentista, regente, compositor e criador do Departamento de Música da ECA
“O melhor paradigma para a obra de arte é o tapete persa”. A afirmação era dita por Olivier Toni (1926-2017), que completaria 100 anos, aos seus alunos. Um deles foi Rubens Ricciardi, atual maestro da USP Filarmônica e professor da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Ribeirão Preto (FFCLRP-USP). Em 1999, Ricciardi programou, pela Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo (Osesp), a composição Estudo para Orquestra, de Toni. Para ele, a composição, com solo de berimbau, exemplifica bem a comparação com o tapete persa: “A perfeição e a beleza de um verdadeiro tapete persa sempre contemplariam um fio solto, dizia ele, como se fosse a quebra da lógica de um sistema”, afirma Ricciardi. “Aquela sonoridade do berimbau em meio ao aparato sinfônico só poderia ser obra de um compositor que, além de dominar o artesanato no tratamento do material musical, era um mestre educador de ofício, dotado de pensamento crítico e consciente de que, acima de tudo, na obra de arte se encontra o ser humano. Assim, o berimbau e o fio solto do tapete persa não são apenas componentes inventivos da arte, mas representam a configuração de uma linguagem emancipadora”.
Aliás, a perspectiva humanista, emancipadora e crítica está presente na imagem que cultiva quem conviveu com Olivier Toni. Como uma de suas filhas, a especialista em políticas públicas para cultura e assessora da presidência da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), Claudia Toni. “Ele era um homem à esquerda, que brigava com quem quer que fosse pelos princípios que ele acreditava que deviam nortear a vida de um país como o nosso, imensamente desigual. Ele nunca deixou de ter uma posição francamente a favor de um país menos desigual, de um país que olhasse mais para o socialismo, de um país que estivesse mais preocupado com a questão da riqueza”, analisa Claudia.
“Não lembro de meu pai ficar cinco minutos sem ter uma ideia nova, como se, para ele, não houvesse limites para diminuir as desigualdades, oferecendo mais oportunidades para jovens e adultos poderem se desenvolver na música”, diz outro filho de Olivier Toni, o fagotista da Orquestra Sinfônica Municipal, Marcelo Toni.
Essa preocupação se expressava nas iniciativas para organizar o campo da música em São Paulo. “Ele foi, acima de tudo, um exemplo de cidadania: um inovador imbuído de espírito público, sempre voltado ao bem comum”, enfatiza Ricciardi.
Olivier Toni foi próximo ao Partido Comunista quando jovem. Mas sua atuação tomou uma forma particular: “A militância dele foi absorvida pela prática da vida profissional, na medida em que ele não parou de criar organismos musicais, de entender que era necessário uma participação dos músicos mais visível e mais importante na vida cultural paulista, na medida em que ele entendeu que era preciso formar escolas para que, sobretudo, os jovens que tivessem menos condições financeiras pudessem estudar”, explica Claudia.
Idealizou corpos estáveis sinfônicos e outras instituições públicas e gratuitas no ensino da música: Escola Municipal de Música de São Paulo, Orquestra Sinfônica Jovem Municipal de São Paulo – depois intitulada Orquestra Experimental de Repertório –, a Orquestra de Câmara de São Paulo, a Orquestra de Câmara da ECA, entre outras iniciativas. Toni também apoiou o projeto de fundação do curso de Música na USP em Ribeirão Preto. Como explica Rubens Ricciardi, entre 2001 e 2010, o curso esteve vinculado à ECA-USP e, desde 2011, foi promovido à condição autônoma de Departamento de Música da FFCLRP-USP. “Ele [Toni] regeu diversas vezes a Orquestra Sinfônica de Ribeirão Preto (OSRP) nos anos anteriores à fundação da USP Filarmônica”, completa Ricciardi.
Músico fundador
Sua obstinação em articular orquestra e ensino pode ser observada na fundação da Escola Municipal de Música de São Paulo, em 1969. Na época, o prefeito Faria Lima tinha assistido a uma apresentação da Orquestra Jovem de Israel e queria uma equivalente em São Paulo. Olivier Toni foi designado para iniciá-la. Com dificuldade, juntou alguns músicos e começaram a se preparar. Convidado a assistir a um dos ensaios, Faria Lima perguntou a Toni por que a Orquestra Jovem de Israel era tão grande e a de São Paulo tão pequena.
“Eu estava esperando essa pergunta e respondi:
— Porque ninguém quer estudar música, prefeito.
— Por quê?
— Porque não temos escolas de música.”
Olivier Toni fez o prefeito entender que havia escolas particulares, mas faltava escola pública.
“Mas o que eu posso fazer?”, perguntou o prefeito. “Nós não temos escolas de música oficiais? Pois a partir de agora está criada a Escola Municipal de Música! Você me prepare tudo para que comecemos o mais rápido possível. Amanhã eu assino a portaria.”
Essa história, contada por Toni, pode ser lida na entrevista publicada na Revista da Tulha em 2017.
Já comprometido com a USP, ele indicou Paulo Ramos Machado como diretor da Escola Municipal de Música de São Paulo e ficou na coordenação.
Aliás, boa hora de falar sobre a ECA, fundada em 1966, ainda sob o nome de Escola de Comunicações Culturais. Inicialmente, abrigou os cursos de Jornalismo, Rádio e Televisão, Arte Dramática, Cinema, Biblioteconomia, Documentação e Relações Públicas. Em 1969, foi publicado o decreto que instituiu o nome atual da escola. Para que a música pudesse ganhar seu espaço, Olivier Toni foi decisivo.
Em conversa com o biólogo Erasmo Mendes – irmão do músico e professor da ECA-USP, Gilberto Mendes (1922-2016) – e alguns outros professores da USP, na famosa choperia Pinguim, em Ribeirão Preto, Toni perguntou aos docentes o porquê de a USP não abrigar as artes em sua grade de cursos. A partir dali, e incentivado por Erasmo Mendes, Toni passou a colher assinaturas. Primeiro, aproveitou a vinda do maestro Karl Böhm, com a Filarmônica de Viena. O maestro não apenas assinou em favor da inserção do curso de música na USP como pediu para toda a orquestra assinar junto.
“Depois peguei vários artistas, também o velho Júlio de Mesquita, que era diretor do Estadão e uma espécie de guru no cenário político brasileiro. Eu sempre fui muito amigo do Ruy [Mesquita], que era uma pessoa excelente, e passava lá para tomar café com ele:
“— Maravilha! Será que sai isso?
— Sai, mas teu pai pode ajudar muito. Será que ele assina?
— Sem dúvida! Pera aí que vou falar com ele.”
Chegou o Júlio:
“— Como vai, tudo bem?” – ele já tinha me dado uma passagem para participar de um concurso na Itália. “Vai contando tudo, enquanto eu assino.” Aí, o negócio foi crescendo, e o Erasmo me disse:
“— Toni, e agora, o que eu vou fazer com isso?
— Vamos entregar para o reitor” – que era o Gama e Silva.
“— Toni, eu brigo com ele o dia inteiro por causa da revolução; eu não sei como eles não me cassaram ainda!”
Como conta Toni na entrevista, Erasmo marcou com o reitor Gama e Silva. E entregou o projeto do curso de Música na USP, com as assinaturas a respaldá-lo. “O Gama e Silva achou o projeto admirável. Quando ele viu que o doutor Júlio Mesquita assinou, ficou impressionado, porque ele dependia muito dessa gente toda”, completa Toni.
Inícios - com um fagote
Olivier Toni vinha de uma família que era parte francesa e parte italiana. Sua mãe, Madeleine Virgine Maillet Toni, estudou violino no Conservatório Dramático Musical e foi aluna de Mário de Andrade, conta Marcelo Toni. Seu pai tinha como instrumento o fagote. Quando perguntei a Marcelo porque Olivier escolheu o fagote, ele disse: “Escolher um instrumento é uma das coisas mais bizarras que existem. Geralmente, as histórias que se ouve são acasos na vida das pessoas”, conta Marcelo Toni. “Muitos nutrem admiração por determinados instrumentos por frequentar concertos desde criança, ou porque na orquestra da igreja o maestro diz que já tem muito trompete e manda o jovem pegar um instrumento mais raro e, geralmente, sobra para o fagote, o que não foi o caso do meu pai. Com ele, foi um insight ao passar em frente a uma loja de música. Ele viu um fagote decorando a vitrine, foi assim que começou”.
Para comprar o fagote, o próprio Olivier conta, saborosamente, a circunstância em que isso foi possível:
“Chegou um tio meu dos Estados Unidos, irmão do meu pai, que trazia presentes – aquela coisa italiana. Ele veio dos EUA, se hospedou na minha casa e só falava em inglês. Eu fui assistir a um concerto no Theatro Municipal. Desci a Rua do Seminário, que estava cheia de sebos, entrei para dar uma olhada, e tinha lá um fagote. Eu contei o que tinha visto, e ele falou:
— Quanto custa?
Eu disse: — Acho que custa tanto.
E ele me deu o dinheiro para comprar o fagote”.
Passou a fazer aulas de fagote com o professor José Carbone. Estudava composição com Hans-Joachim Koellreutter e, depois, com Mozart Camargo Guarnieri. Fazia aulas de regência com professores que se dispunham. Enfim, um rio formado por muitos afluentes, o que o próprio Olivier tenta superar com a fundação de instituições de ensino que pudessem contemplar todos os aspectos da carreira de um artista músico. Mas na primeira metade do século 20, os músicos procuravam, individualmente, seus próprios orientadores. Como resume sua filha, a musicóloga e professora do Instituto de Estudos Brasileiros da USP (IEB-USP), Flávia Toni: “Naquela época, na falta de estabelecimentos de ensino, havia um sistema colaborativo”. Por isso, mesmo estudando com mestres renomados, a maioria das aulas era gratuita. Prática que o próprio Olivier levou consigo.
“Ele ensinou dezenas de pessoas como professor dentro das salas de aula da Escola Municipal e da USP. Claro, ele recebia do Estado para fazer isso, mas ele também ensinou muita gente na nossa casa. A nossa casa era uma segunda escola. Então, ele trabalhava de segunda a sexta na USP – ou, antes, no Theatro Municipal – e no sábado e no domingo, ele dava aula particular. E o curioso é que ele não cobrava pelas aulas. Acho que só de dois ou três rapazes um pouco mais abonados ele teve coragem de cobrar”, relembra Claudia Toni.
Então, voltando à sua formação inicial, Olivier Toni foi aprendendo gratuitamente com seus mestres e ingressou como fagotista na Orquestra Sinfônica do Theatro Municipal. Chegou a cursar Filosofia na USP, sem concluir, mas a ponto de formar um conjunto de música com alunos.
Mais que músico
Sua formação em filosofia renderia um amplo leque de inquietações que ele canalizou para o campo da música. Alexandre Ficarelli é professor e atual chefe do Departamento de Música da ECA. Para ele, “mais do que transmitir conhecimento técnico, Olivier Toni estimulava uma formação crítica, interdisciplinar e intelectualmente rigorosa. Ele defendia que a música deveria dialogar com a filosofia, a literatura, a história e as demais artes, ampliando a compreensão do fenômeno musical”, afirma Ficarelli.
Na mesma linha, Marcelo Toni resume: “Ele conseguiu conciliar sua formação filosófica e musical para um bem comum, ajudar pessoas. Foi um músico militante”. E Rubens Ricciardi: “Olivier Toni não foi propriamente um professor de composição, mas um professor de filosofia da composição. Seus ensinamentos de harmonia e contraponto eram, antes de tudo, pretextos para o desenvolvimento de um espírito revolucionário”.
Para Olivier Toni, pensar para além da música, estritamente, era uma necessidade, até mesmo uma questão de sobrevivência. “Ele sempre se lamentava com o fato de ter que conviver com músicos que às vezes eram excelentes instrumentistas, bons intérpretes, mas cuja formação intelectual era muito precária, o que fazia deles presas fáceis de discursos políticos que muitas vezes não favoreciam a classe musical”, comenta Claudia Toni.
Sua amplitude de interesses se dirigia às artes plásticas, poesia e às humanidades em geral, segundo Flávia Toni. E tudo isso o aproximava da preocupação com as pessoas, especialmente em relação às vicissitudes de sua condição social. “Era um humanista”, sintetiza Flávia. Deve ser por isso que o Festival de Música de Prados foi tão importante para ele.
Festival de Prados
Hoje em sua 47ª edição, esse festival tem uma história muito afetiva para a trajetória de Olivier Toni. Quando entrou na USP, ele começou a pesquisar acervos de música colonial em Minas Gerais.
“Um dia ele chega a São João Del Rey, onde conhece um músico da orquestra do arquivo Lira Sanjoanense. E esse músico dizia que as orquestras de São João eram muito antigas, do século 19, e de fato eram”, reconstitui Flávia Toni. Aluísio, o músico que recebera Olivier Toni, propôs conhecer ainda um outro lugar.
Nas palavras do próprio Toni: “Então o Aluísio me perguntou se eu não queria ver outros arquivos e me levou a Prados, a 40 minutos de São João Del Rey, por uma estrada de terra, dizendo que ali era a capital da música, de uns 5 mil habitantes, e que eu precisava conhecer o Adhemar [Campos Filho]”.
Adhemar Campos Filho, de quem Olivier Toni se tornaria amigo, também completaria 100 anos, e os dois serão homenageados na edição do Festival de Música de Prados de 2026.
Toni retoma suas lembranças de Prados:
“Eu perguntei para o Adhemar o que ele achava da ideia de nas férias, digamos em julho, fazer um curso para os alunos de lá. Naquela época ninguém tinha dinheiro para nada.
— Você arruma algum lugar para a gente dormir; o Departamento [de Música da USP] paga o almoço e o café da manhã para os alunos.
E assim montamos o primeiro festival, em 1977”.
“Era um fazer musical voltado para as pessoas. O que ele mais gostava era de estar em Prados. Por causa da música e da informalidade que havia, ao lado das pessoas. Um fazer junto”, explica Flávia.
“Nós tocamos lá coisas que o pessoal nunca tinha ouvido, e nunca ninguém tinha feito isso – reunir pessoas num lugar em que todos estavam tão à vontade, sem agressão, sem violência nenhuma. Quer dizer, foi uma coisa muito diferente daqueles festivais que você traz uma porção de gente, professores de fora, aquela coisa”, diz Olivier Toni na entrevista à Revista da Tulha.
Na intimidade
Todos os domingos, Maria Helena via um rapaz passar pela sua rua, na Vila Mariana. Chamava-lhe a atenção. Quando sua prima, Lali, veio para São Paulo, passou a namorar um jovem músico chamado Rogério, de sobrenome Duprat. Esse era aluno daquele outro, o que passava na rua de Maria Helena.
Fazer o papel de cupido foi mais fácil assim. O que trazia o rapaz por aquelas ruas aos domingos era um concerto que ele regia semanalmente e que ia ao ar, ao vivo, pela Rádio Gazeta. Rogério e Lali, já namorando, deram jeito de Maria Helena ir a um desses concertos. E ela, imaginando que o rapaz era um dos instrumentistas, procurou o nome dele no programa e não encontrou nenhum Antonio. Quando os músicos foram iniciar, ela viu que seu Toni, que não era “Antonio”, mas “Olivier”, era o regente.
Anos depois, contando sobre a ocasião, Olivier Toni perguntava à esposa: “Mas você foi lá para assistir ao concerto ou…?”, sem completar a frase. E assim se diverte a filha, Flávia Toni, ao relembrar. “Como era metido!”, ri ela.
“A minha mãe nunca tinha ouvido uma peça de música, digamos, de concerto, até conhecê-lo”, conta sua outra filha, Claudia Toni. Sendo professora primária, “ela não tinha nenhuma formação musical, mas se apaixonou perdidamente por ele e pela música”, continua Claudia.
A família, com os três filhos, vivia pobremente. “Os salários dele eram mínimos como músico no teatro e, por um bom tempo, na USP, o salário dele também era muito pequeno. Mas minha mãe nunca se importou com isso. Ela lidou muito bem com essa vida bem contida financeiramente. Ela era a cabeça econômica da família e tinha a maior alegria, a maior paixão pelo fato de ele ser músico. Ela ia a todos os concertos. Foi ela que quis que nós estudássemos música, ele próprio não queria”, relembra Claudia.
Sua dedicação à família é enfatizada pelos três filhos: Claudia, Flávia e Marcelo. “Ele era extremamente amigo e um pai que partilhava com a gente aquilo que estava ocorrendo na cabeça dele em termos da profissão”, diz Flávia. “Eu me lembro, por exemplo, que uma vez eu tinha uns 12 anos, mais ou menos, e era um sábado à tarde. Ele tinha aprendido a dirigir há pouquíssimo tempo, porque durante muitos anos a gente não teve nem carro, nem nada. Aí, ele colocou todo mundo dentro do Fusca, veio aqui para a Cidade Universitária e falou assim: ‘Agora papai vai mostrar para vocês onde vai ser o Departamento de Música’. E a gente entrou no prédio da ECA, que ainda estava em construção. E tínhamos que ficar imaginando aqueles blocos de cimento, que ele falava: ‘Aqui vai ser a minha sala, aqui vai ser a sala de aula de outro professor’. E ele mostrando aquilo”, completa Flávia.
Olivier Toni compartilhava com toda a família as suas atividades. Marcelo Toni comenta: “Ele nunca fez segredo, e nos contava com tanto entusiasmo que nos fazia viajar junto com ele. E minhas irmãs também sempre participaram com sugestões e críticas. Tanto é que lembro muito bem de como tudo começou na criação das escolas, orquestras, dos festivais, dos alunos e amigos frequentando nossa casa com sugestões e discussões bem acaloradas”.
O pai de Alexandre Ficarelli foi o músico e também professor do Departamento de Música da ECA, Mario Ficarelli. Por isso, Alexandre também guarda memórias mais íntimas de Olivier Toni: “Minha primeira visita à USP se deu na minha adolescência, quando o Departamento de Música se localizava em antigos barracões, onde atualmente está o restaurante da FEA (Faculdade de Economia, Administração, Contabilidade e Atuária da Universidade de São Paulo). Toni tinha um humor muito sagaz e era bastante irônico”. E, sobre a relação entre seu pai e Olivier, diz: “Meu pai foi aluno de Toni e, posteriormente, ingressou na USP a convite dele. A convivência entre os dois ocorreu especialmente no ambiente da Universidade de São Paulo, onde compartilharam ideais ligados ao rigor artístico e ao desenvolvimento de uma linguagem musical brasileira conectada às transformações estéticas do século 20”.
Os bastidores das iniciativas de Olivier Toni também se estendem a Ribeirão Preto. “Finalmente, com a USP Filarmônica, Olivier Toni concretizou seu projeto de dotar a USP de uma orquestra formada por estudantes de graduação. Lembro-me como se fosse hoje: logo após a 937ª Sessão do Conselho Universitário da USP – reunião ordinária de 14 de dezembro de 2010 –, quando foi fundado o Departamento de Música da FFCLRP-USP, Olivier Toni me telefonou diversas vezes e dizia: ‘Rubens, agora vocês têm um departamento autônomo; você precisa fundar uma orquestra. Um curso superior de música não pode existir sem uma orquestra de estudantes de graduação. E lembre-se: nunca perca o foco da graduação; a graduação é o que há de mais importante na USP’”, recorda Rubens Ricciardi.
Olivier compositor
“Meu pai criou pouco, nunca foi um criador que cria pra si, pensando na posteridade ou pretendendo bajulação em vida ou na eternidade, nunca foi disso; mas ele desenvolveu seu próprio método, sua própria linguagem usando poucas notas para escrever”, analisa Marcelo Toni. “Meu pai, sendo um grande admirador de Puccini, mergulhou a fundo nos temas com influência da música oriental, tal como Debussy também, estudou a técnica dodecafônica e percebeu que música com 12 notas já havia muita coisa escrita e, como ele costumava brincar, escrever com 12 notas ele já tinha seus alunos pra fazer isso.”
Sobre a postura do compositor, Ricciardi relembra as palavras de Olivier Toni: “Como professor de Composição, Olivier Toni sempre encorajava o experimentalismo. Dizia: ‘Às vezes, quando escrevemos uma nova obra, sempre há aquele perfil de músico que diz: isso não é possível ou mesmo isso não dá para tocar. Mas não desanime: é possível que outro músico, mais bem preparado ou mais disposto a ampliar sua capacidade de interpretação e execução, venha, leia a obra e tire de letra na hora de tocar. Portanto, confie mais na sua invenção do que no primeiro juízo apressado de um colega’”.
Olivier Toni também recomendava que o compositor indicasse minuciosamente cada detalhe da interpretação. “Ele dizia que ‘a música é a arte em que mais predomina a condição da escrita’ – no caso, a solfa (papel de música) –; ‘por isso, ponha no papel todas as ideias, já prevendo a sua interpretação e execução. A indicação do que e de como deve ser tocado é uma obrigação do ofício do compositor: ao escrever a composição, já devem estar resolvidos, o máximo possível, todos os parâmetros para o músico que executará a obra depois’. Por fim, arrematou: ‘Nada há de mais patético do que quem escreve só notas (alturas) e figuras (durações): ao escrever a composição, ponha tudo, tal como você imagina, já com todos os detalhes da execução’”, recorda Ricciardi.
Ouça composições de Olivier Toni a seguir:
Improviso (para violoncelo solo), com interpretação de Alberto Kanji:
Recitativo I (para violino e orquestra de cordas), com interpretação de Claudio Cruz e orquestra de cordas:
In memoriam para aqueles que nos deixaram: molto lento (para violino solo), com interpretação de Fabio Brucoli:
Chico Rei (para canto e flauta), com texto de Renata Pallottini e interpretação de Caroline De Comi e André Cortesi:
Estudo (para piano), com interpretação de Paulo Álvares:
Omaggio (para piano), com interpretação de Paulo Álvares:
Publicado originalmente no Jornal da USP.