Por que as bandas de K-pop têm tantos fãs?
Pesquisa explica como o gênero musical tem transformado identidades de pessoas jovens brasileiras
Bangtan Sonyeondan, mais conhecida como BTS, a banda de Korean Popular Music (K-pop) mais famosa do mundo, lotou por duas noites o Allianz Parque em sua última passagem pelo Brasil, em 2019, com cerca de 90 mil fãs. Em outubro de 2026, após um hiato de quatro anos, a boyband está com três dias de show marcados no estádio do Morumbis com 180 mil ingressos vendidos em menos de duas horas. Mas o que há por trás desse engajamento, capaz de capturar a atenção de tantas pessoas?
O artigo Significados de consumo de K-pop no Brasil, das pesquisadoras Raquel Gomes Pregioni Ribeiro e Renata Céli Moreira da Silva Paula, ambas da Universidade Federal Fluminense (UFF), foi atrás da resposta para esse sucesso. O texto, publicado na 18ª edição da revista Signos do Consumo, traz percepções sobre o consumo do K-pop no Brasil a partir de entrevistas com um grupo de 10 mulheres de diferentes estados do país e fãs do gênero musical.
Experiência artística
De acordo com a pesquisa, a música em si é o principal atrativo inicial para o público. As entrevistadas afirmam que o K-pop se destaca pela "qualidade e pela diferenciação em relação a outros estilos musicais." No entanto, elas também apontam que a experiência se torna completa graças a outros atrativos fundamentais, como a dança, as performances, a estética visual e o fascínio pela cultura coreana.
“Eu sempre fui uma pessoa que gostava de música e dança separadamente, então quando eu vi que eles juntavam os dois, eu me apaixonei. Me apaixonei também em como eles são diferentes, com cabelos coloridos, roupas diferentes, um estilo de música diferente.”
Fã de k-pop identificada no artigo como “entrevistada 2”.
Outro aspecto de conexão analisado na pesquisa foi a interação entre os artistas e os fãs. As entrevistadas relataram que, diferentemente da dinâmica observada em outros gêneros musicais, os idols (celebridades do K-pop) estabelecem uma relação de proximidade e acolhimento com o público, promovendo um sentimento de acessibilidade. Segundo o estudo, é justamente essa intimidade que estimula a criação e o fortalecimento dos fandoms (comunidades de fãs).
O engajamento com o gênero também se reflete nas práticas de consumo. As fãs vão além do consumo das músicas e clipes, acompanhando as lives nas redes sociais dos artistas e os programas de variedades dos quais eles participam. Os videoclipes chamam atenção por sua superprodução visual e por contarem histórias ligadas às músicas, enquanto os shows presenciais são descritos como espaços emocionantes de socialização e profundo acolhimento afetivo.
“Uma [experiência] que me marca muito foi o show do The Rose. Foi a primeira vez que eu saí de casa depois da morte do meu pai e a música Time me lembra muito ele. Lembro de chorar a música inteira e, mesmo assim, me sentir em um lugar de conforto.”
Fã de k-pop identificada no artigo como “entrevistada 3”.
Comunidade e identidade
Para além do entretenimento, o K-pop atua como um catalisador de relações sociais. Ao participarem de atividades em grupos, as entrevistadas afirmaram que “podem conversar e interagir com pessoas com as quais se identificam, que possuem os mesmos interesses, e se sentem livres para ser quem são, podendo se expressar sem medo de julgamentos.” Uma das entrevistadas destacou que mantém vínculos duradouros com colegas de faculdade das quais se aproximou através do K-pop, e até mesmo com o próprio pai, que também é fã do estilo.
Esse senso de comunidade também fomenta o empreendedorismo e a criatividade. A pesquisa cita a criação de produtos fanmade (feitos por fãs) como uma prática relevante, exemplificada por uma participante que possui sua própria loja para desenvolver e comercializar itens personalizados inspirados nos artistas.
Em um nível pessoal, o estudo destacou que o consumo de K-pop impulsiona transformações na forma como as fãs se veem, auxiliando no fortalecimento da autoestima, na autoaceitação e no desenvolvimento do amor-próprio. Influenciadas pela estética dos idols, as participantes relataram maior interesse na forma de se vestir e de se expressar visualmente, além da adoção de hábitos de vida mais saudáveis.
“Depois que comecei a acompanhar o k-pop, eu passei a ter menos crises de ansiedade, me inspirei nos idols e passei a fazer atividade física, então contribuiu muito com meu crescimento pessoal.”
Fã de k-pop identificada no artigo como “entrevistada 4”.
A pesquisa aponta também que a imersão na cultura sul-coreana expandiu a visão das consumidoras sobre a pluralidade e a diversidade existente no mundo. Esse contato despertou o interesse pelo aprendizado de novos idiomas e o desejo de explorar outros países, especialmente no continente asiático. Como resultado, essas mulheres passaram a respeitar mais os gostos alheios, reconhecendo que não existe um padrão único de vida e tornando-se mais abertas para viver novas experiências.
Signos do Consumo
A revista Signos do Consumo, sediada no Departamento de Relações Públicas, Propaganda e Turismo (CRP), surgiu como iniciativa do corpo docente especializado nos estudos de publicidade e propaganda, relações públicas e fenômenos do mercado e do consumo. Ela se dedica à publicação de artigos científicos e resenhas de livros em português, espanhol e inglês, na área de propaganda e consumo. O periódico é publicado anualmente em fluxo contínuo e tem apoio da Associação de Apoio à Arte e Comunicação (ARCO).
Imagem de capa: banda sul-coreana BTS, a maior do mundo. Foto: reprodução/Rolling Stone Brasil