Na prática: o papel das viagens didáticas no curso de Turismo
Ao longo da graduação, estudantes realizam diversos trabalhos de campo para desenvolver competências téoricas e práticas da profissão
Um grupo de quase 30 pessoas, a maioria jovens, entra no bondinho funicular do Monte Serrat, um dos pontos turísticos mais conhecidos de Santos, no litoral paulista. Ao fim da rápida subida, eles passam pelo antigo cassino e atingem o mirante, que dá para uma vista panorâmica da cidade. O tempo nublado e o vento parecem não ter afetado os visitantes, que acompanham atentos as explicações sobre as transformações sofridas pelo centro histórico e pela zona portuária ao longo do tempo. Uma pessoa desavisada poderia pensar que se trata de um grupo de turistas como tantos outros que visitam o local anualmente, não fosse o fato de que, em meio aos celulares e câmeras fotográficas em intensa atividade, muitos fazem anotações em cadernos.
“O caso de Santos é objeto de estudo dessa disciplina há algum tempo, porque a cidade de Santos vem tentando se inserir em circuitos de turismo cultural, quer dizer, para além do sol e praia, utilizando todo aquele patrimônio arquitetônico, principalmente da região ali do centro e da antiga zona portuária”, explica a professora Clarissa Gagliardi, que ministra a disciplina Trabalho de Campo em Atrativos Histórico-Culturais para os estudantes do terceiro semestre do curso de Turismo da ECA. A viagem didática para Santos, vinculada a essa matéria, dura apenas um dia, mas começa meses antes, na disciplina teórica Turismo, Cidade e Patrimônio, também oferecida por Clarissa. “A gente discute o uso do patrimônio cultural na, vamos dizer assim, renovação de cidades para o turismo (...). A gente estuda esse tema, os conceitos relacionados a esses processos de conversão e reconversão do patrimônio cultural para o turismo”. A viagem a Santos, no semestre seguinte, permite que os estudantes vejam in loco o que foi apresentado na sala de aula.
Depois da apresentação no mirante, os estudantes conhecem a Igreja de Monte Serrat e descem para continuar o roteiro pela cidade, que inclui o recém-inaugurado Parque Valongo — projeto da prefeitura que está convertendo os antigos armazéns portuários em áreas de lazer —, o tradicional passeio de bonde e uma visita ao Museu do Café, entre outras atrações pontuadas por caminhadas contemplativas da arquitetura do centro histórico. Se a chuva ao entardecer impede o passeio pela orla da praia, não há problema. De dentro do ônibus, Clarissa destaca as características dessa área mais verticalizada da cidade, convidando os estudantes a fazerem comparações com as regiões de menor interesse imobiliário visitadas antes. Também prejudicada pela chuva, a plenária final — momento de discussão coletiva, integração entre prática e teoria e avaliação da disciplina — fica para depois do retorno a São Paulo. Por fim, os estudantes devem entregar um relatório para “demonstrar o que eles observaram e como analisam esse processo de renovação do centro de Santos a partir do que eles visitaram, do que eles viram, do que eles vivenciaram no dia do trabalho de campo”, conta a docente.
Sentir a cidade “com o próprio corpo”
“Considero essa vivência extremamente importante e enriquecedora para minha formação”, diz a estudante Viviane Barbozano, que participou da viagem em maio de 2025. Para ela, a aula no mirante permitiu à turma “observar, de forma integrada, elementos da história colonial e aspectos da modernização da cidade“. Já para Giulia Sallai, foi possível “analisar o território em sua totalidade antes de percorrê-lo” e mais tarde, no passeio de bonde, “observar tanto as construções históricas quanto o movimento das pessoas, aprofundando a compreensão sobre a dinâmica urbana de Santos”.
Essa integração entre conhecimentos teóricos e práticos é um dos principais fatores que a professora Clarissa destaca quando questionada sobre a importância desse tipo de atividade na formação em Turismo. “O conceito teórico só tem validade se ele for útil para você interpretar uma certa realidade”, afirma. Ela exemplifica com uma das ideias trabalhadas na disciplina, a de requalificação de áreas para turismo: “o porto que deixa de ser porto e agora vai ser uma área convertida para uso urbano, uso turístico. Como é que isso acontece na prática? Quais são as dificuldades, por exemplo, de integração dessas áreas com a cidade?”
“É eles olharem, vivenciarem isso, conversarem com as pessoas, sentirem isso andando na cidade com o próprio corpo, olhando e sentindo como que é a vida naquele lugar. É completamente diferente do que só ler sobre aquilo. Então é bastante importante [para] que eles complementem, até para pensar na solução dos problemas colocados — que são problemas reais, que estão sendo vividos ali pela cidade –, pensar em soluções factíveis”.
Clarissa Gagliardi, professora do Departamento de Relações Públicas, Propaganda e Turismo
As viagens didáticas também têm o papel, segundo a docente, de colocar o estudante diante de situações que ele vivenciará em seu cotidiano profissional, munindo-o de ferramentas para intervir na realidade de forma inovadora, sem perder o senso crítico. As alunas concordam. Giulia avalia: “visitar esses lugares e compreender suas histórias, assim como a forma como a dinâmica urbana impacta a vida das pessoas, é fundamental para aprimorar meu olhar crítico e me tornar uma profissional mais preparada.” Viviane completa: “a experiência em campo é primordial para o futuro turismólogo pois desenvolve um olhar crítico ao analisar fluxos turísticos, gestão de espaços, receptividade local, infraestrutura e sustentabilidade. A vivência direta do patrimônio histórico, cultural e natural aprofunda a compreensão sobre a importância dos atrativos e seus impactos nos visitantes.”
Por que importa pensar como o patrimônio se insere no turismo?
Antes de falar da relação entre patrimônio e turismo, a professora Clarissa faz uma ressalva: “em primeiro lugar, o patrimônio não deve servir ao turismo. O patrimônio cultural é um conceito de outra natureza, ele tem uma dimensão política, ele tem uma dimensão social muito antes de ter interesse para o mercado de turismo.” Segundo a docente, o turismo conta histórias e reconstrói interpretações sobre lugares e fatos através de seus roteiros, e, dessa forma, transmite conhecimentos sobre a história de um lugar, de uma pessoa, de um monumento. A consequência disso é que a atividade turística tem uma dimensão pedagógica e ética que deve ser levada em conta quando se reflete sobre as narrativas que o turismo apresenta. “Sempre que a gente olha o patrimônio, a gente pode interpretar aquele patrimônio cultural de diferentes perspectivas: o que aquele patrimônio representa, quem construiu aquele patrimônio, qual era o contexto histórico, quando aquele elemento, aquele bem cultural foi concebido. Então, tudo isso são perspectivas com as quais a gente pode olhar o patrimônio cultural ao construir uma narrativa para um visitante.” Para ela, é fundamental que um profissional da área de turismo, mesmo que não atue especificamente com patrimônio, tenha uma visão crítica em relação aos bens culturais que integram os atrativos e roteiros com os quais trabalha.
Clarissa também destaca aspectos sócio-econômicos que perpassam a questão do patrimônio no turismo: “a possibilidade de um bem cultural ser requalificado para uso turístico, muitas vezes é também uma possibilidade de manter vivo esse bem cultural, gerar recursos para você poder — se a gente está falando de um patrimônio material —, restaurar esse patrimônio.” Essa requalificação também pode, de acordo com a professora, reintroduzir na atividade econômica da cidade um espaço que se tornou ocioso, possibilitando a geração de emprego e de renda. E quando um patrimônio antes desvalorizado ou invisibilizado sai da sombra, outro fenômeno importante pode acontecer: “quando a gente ilumina determinados bens culturais, a gente pode iluminar também a história de grupos sociais, de pessoas que também ficaram invisibilizadas. Então, o turismo é uma possibilidade muito interessante, né? Tanto do ponto de vista econômico, naturalmente, mas também e principalmente do ponto de vista social e político.”
Um curso, muitos caminhos
Viagens e visitas didáticas são parte importante da grade curricular da graduação em Turismo. “Faz parte da formação desde o ponto de vista técnico-operacional, que envolve as instituições de turismo tradicionais, os serviços tradicionais de turismo que ele [o estudante] precisa conhecer, quanto do ponto de vista de aguçar o olhar para os destinos turísticos”, diz Clarissa. No curso da ECA, esse tipo de atividade acontece todo semestre e sempre está vinculado a uma disciplina teórica. “Cada trabalho de campo tem um objetivo diferente, porque tem a ver com as competências que o aluno precisa adquirir em cada semestre do curso”.
Assim, se no terceiro semestre a proposta é trabalhar a questão do patrimônio, em um momento posterior os estudantes terão a oportunidade de vivenciar a prática de uma agência de viagem em um destino importante do mercado brasileiro, organizando e operando toda a logística de um roteiro turístico. Nos últimos anos, esse trabalho de campo tem sido feito no Rio de Janeiro. Já no final do curso, outros trabalhos de campo têm como finalidade a elaboração de um plano de desenvolvimento turístico para um município, integrando, dessa forma, a totalidade de conhecimentos adquiridos ao longo da graduação.
Como a ideia é desenvolver as diversas qualificações exigidas para um profissional do turismo, as viagens e visitas didáticas e as disciplinas vinculadas a elas têm diferentes docentes responsáveis, de acordo com sua área de atuação. A escolha das cidades, explica a professora Clarissa, “depende do objetivo de cada disciplina e das tratativas que o professor consegue estabelecer com o destino que ele quer trabalhar e também dos recursos disponíveis para viabilizar a viagem.” No caso do plano de desenvolvimento turístico, muitos municípios procuram a universidade para estabelecer um convênio. Diante dessa demanda, “olhamos aqueles municípios que são mais interessantes do ponto de vista pedagógico”, ressalta.
A docente reconhece o desafio que é trabalhar a diversidade de disciplinas que compõem a formação de um turismólogo. “Eu posso olhar o turismo a partir da geografia, eu posso olhar o turismo a partir da sociologia, eu posso olhar o turismo a partir da economia, e cada uma dessas perspectivas vai mobilizar um conjunto de conhecimentos diferentes. Então, é uma característica dos cursos de turismo a gente ter, muitas vezes, uma formação que é mais generalista.” É claro, ressalta Clarissa, que aqueles que se identificam mais com determinada área podem investir em formações complementares, como especializações e pós-graduação, mas esse arcabouço multidisciplinar é necessário para garantir a formação tanto de pesquisadores capazes de “olhar o turismo como objeto de estudo dessas diversas perspectivas” quanto do profissional que atuará no mercado. “Quando ele vai atuar, ele tem que entender que ele está lidando com pessoas, mas que ele também está lidando com uma atividade econômica, uma atividade que impacta o meio ambiente, que reorganiza o espaço geográfico, o espaço das cidades, dos litorais.”









