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Pela primeira vez na USP, artistas recebem título de professor emérito

Honraria celebra as trajetórias de quatro docentes do Departamento de Artes Plásticas

 

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No dia 18 de junho, professores, funcionários e estudantes da ECA se reuniram para participar da cerimônia de outorga do título de professor emérito para os artistas: Carlos Alberto Fajardo, Carmela Gross, Evandro Carlos Jardim e Regina Silveira, todos do Departamento de Artes Plásticas (CAP) da ECA. A homenagem é destinada a docentes aposentados da USP que têm relevância na profissão, se tornando uma referência para gerações presentes e futuras.

Algumas obras dos professores podem ser apreciadas na exposição 4 Eméritos, que fica em cartaz no Espaço das Artes até o dia 26 de junho. A mostra, organizada em quatro seções com obras de cada um dos artistas, faz parte da homenagem aos docentes e das celebrações pelos 60 anos da Escola.

Foi a primeira vez na história da USP que artistas receberam esse título. A cerimônia foi gravada e o vídeo está disponível no canal do YouTube da ECA. Participaram da mesa a diretora da ECA, professora Maria Clotilde Perez Rodrigues, e os professores Mario Ramiro e Liliane Benetti, chefe e vice-chefe do CAP, respectivamente.

Foto de cerimônia em auditório. À esquerda, uma mulher de óculos e blazer preto fala em um púlpito de acrílico. Seis pessoas de roupas formais em preto e vermelho estão sentadas à mesa. Atrás, bandeiras e uma grande projeção na parede branca exibe retratos e nomes de professores eméritos: Carmela Gross, Carlos Alberto Fajardo e Evandro Carlos Jardim e Regina Silveira.
A vice-chefe do Departamento de Artes Plásticas (CAP), Liliane Benetti, fala durante a cerimônia. Na mesa, da esquerda para a direita: Mario Ramiro, chefe do CAP, Carlos Fajardo, Regina Silveira, Clotilde Perez, diretora da ECA, Carmela Gross e Evandro Carlos Jardim. Foto: Amanda Ferreira/LAC-ECA.

Carlos Alberto Fajardo

Foto de um homem branco, parcialmente calvo, com cabelos castanhos e cavanhaque grisalho. Usa óculos redondos, de armação de metal e veste uma camiseta preta. Ao fundo, um painel com formas retangulares em vermelho, verde, amarelo e cinza.
Carlos Fajardo. Foto: Denise Circolare.

O professor Carlos Alberto Fajardo construiu uma carreira ligada à história da arte contemporânea e à consolidação do ensino acadêmico e livre de artes no Brasil. Com uma atuação que remonta à década de 1960, ele participou ativamente de movimentos que desafiaram o ensino tradicional, sendo um dos fundadores do histórico Grupo Rex (coletivo brasileiro de arte conceitual, ativo em São Paulo entre junho de 1966 e maio de 1967) e do Centro de Experimentação Artística Escola Brasil (1970-1974), apostando em uma troca horizontal e na livre experimentação no fazer artístico.

Sua trajetória na ECA teve início em 1996, lecionando disciplinas de desenho e pintura, além de se dedicar à orientação de pesquisas. No ambiente universitário, consolidou uma prática de ensino que prioriza o estímulo à autonomia visual do estudante, postura que se traduz na forma como ele enxerga seu próprio papel na universidade. 

Destacando que divide sua vida entre a profissão de artista e a de professor, ressaltou em seu discurso que nunca chamou suas aulas de ensino, mas sim de “encontros e trocas, afinal de contas, eu devo confessar e nós todos aqui na mesa sabemos, que quem aprende mesmo somos nós.”

 

“Isso [a presença] é importantíssimo para mim. Como aliás, aqui, estamos vivendo essa ordem de grandeza maravilhosa, a nossa presença, a nossa troca. É como se eu estivesse junto de uma grande orquestra em que cada um de vocês opera num tom diferente. E é isso mesmo que acontece na nossa relação visual e física com a obra de arte.”

Carlos Alberto Fajardo, professor emérito do Departamento de Artes Plásticas 

 

Como artista, sua produção é marcada por investigações sobre as relações entre luz, matéria, corpo, espaço e tempo, transitando entre quadros de fórmica, grandes telas e instalações que desafiam a percepção do espectador. Ao longo de sua carreira, representou o Brasil em mostras de grande prestígio internacional, incluindo múltiplas edições da Bienal de São Paulo, a Bienal de Veneza e a Bienal do Mercosul. O título de professor emérito destaca, assim, uma trajetória em que a criação artística e o ensino caminham lado a lado.

 

Carmela Gross

Foto de uma mulher branca posando para um retrato. Ela tem cabelos lisos, curtos e avermelhados, usa óculos em formato oval com haste escura e veste uma blusa preta. Ao fundo, uma escultura em forma de cubo com iluminação em led rosa.
Carmela Gross. Foto: Everton Ballardin.

Com uma carreira dedicada à arte contemporânea brasileira e ao desenvolvimento do espaço público como campo de experimentação crítica, Carmela Gross iniciou sua história na ECA em 1972, como auxiliar de ensino. Ao longo de sua trajetória ela rejeitou certezas absolutas, enxergando a sala de aula como um território de troca e mútua formação, onde “ensina para aprender”.  

Essa paixão pelo ambiente universitário fez com que sua atuação transcendesse sua aposentadoria em 1996. Atualmente, ministra disciplinas no Programa de Pós-graduação em Artes Visuais (PPGAV), continuando a impulsionar a formação de novas gerações de artistas e pesquisadores.

Como artista, sua produção explora as fronteiras entre o desenho, o objeto e a instalação. Carmela é amplamente reconhecida por realizar intervenções e obras públicas em escala arquitetônica que se inserem no cotidiano urbano buscando estabelecer uma relação dialética e provocativa com o transeunte.

Ao longo de sua trajetória, participou de diversas edições da Bienal de São Paulo e de marcos urbanos, como o grupo de intervenção urbana Arte/Cidade. Suas produções, hoje, integram os mais importantes acervos do mundo, como o Museu de Arte Moderna de Nova York (MoMA), o Museum of Fine Arts de Houston e instituições nacionais de referência como a Pinacoteca do Estado de São Paulo, o Museu de Arte Moderna de São Paulo (MAM-SP) e o Museu de Arte Contemporânea (MAC) da USP. O título de professora emérita homenageia o impacto de uma vida dedicada a pensar a arte de forma coletiva e combativa.

 

“Nós artistas quase sempre hesitamos diante de solenidades e honrarias institucionais, porque elas se parecem com o avesso daquilo que compreendemos como nossa atividade. Aquela que nos exige prontidão diante dos problemas do mundo, aposta na ousadia, no deslocamento e na incompletude e na errância, sem cerimônia e sem garantias.”

Carmela Gross, professora emérita do Departamento de Artes Plásticas

 

Evandro Carlos Jardim

Foto de um homem branco, posando para um retrato. Ele tem cabelos lisos e grisalhos, veste uma camisa branca e uma camisa de manga longa xadrez azul. Ao fundo, uma janela e uma parede de tijolos, com prateleiras com instrumentos e materiais de pintura e marcenaria.
Evandro Jardim. Foto: Reprodução/Art Soul.

Reconhecido por seu rigor técnico e por uma poética introspectiva, o professor, gravador, desenhista e pintor Evandro Carlos Jardim faz uma singular representação da cidade em sua arte, especialmente da metrópole São Paulo. Suas primeiras referências visuais, expressas em trabalhos como sua tese de doutorado Reflexões sobre a Prática da Gravura em Metal, nasceram de seus trajetos cotidianos de bonde e ônibus pela cidade.

Iniciando sua formação na Escola de Belas Artes na década de 50, tornou-se docente no CAP em 1972, onde ficou  até sua aposentadoria em 1993. Durante esse período, atuou formando e orientando gerações de artistas e pesquisadores. Paralelamente à sala de aula, manteve uma firme postura humanitária e cidadã durante o regime militar, promovendo leilões de suas próprias obras para apoiar familiares de presos políticos e colaborar ativamente com o movimento pela anistia.

Como artista, sua produção é pautada por um método de trabalho solitário e de economia de meios, onde predomina o preto e branco. Especialista em gravura em metal, ele possui uma assinatura metodológica que considera a prova de estado como uma obra acabada: o docente continua gravando sobre a mesma matriz ao longo de décadas, retendo as marcas do tempo e as transformações da imagem. Suas obras compõem acervos globais e nacionais de prestígio, como o MoMA, o Museu de Arte de São Paulo (Masp), o MAM-SP e a Pinacoteca do Estado.

Em entrevista ao LAC e em sua fala na cerimônia de outorga, o professor reforçou sua visão de que o processo criativo é um fluxo contínuo e aberto ao outro, incentivando o público a abordá-lo para conversar sobre suas obras.

 

“O trabalho de arte se manifesta de uma maneira particular para cada um que deseja se expressar.”

Evandro Carlos Jardim, professor emérito do Departamento de Artes Plásticas

 

Regina Silveira

Foto de uma mulher, de pé, posando para um retrato. Ela é branca, tem cabelos curtos, castanhos e lisos, e usa óculos. Veste um vestido preto, uma camisa longa azul com leve transparência e um colar com um pendente circular. Ao fundo, um painel em cor de madeira, com várias reproduções de solas de pés, na cor preta, apontando para diferentes direções.
Regina Silveira. Foto: Reprodução/Galeria Livia Doblas.

Reconhecida por questionar as formas tradicionais de representação visual, Regina Silveira explora o espaço arquitetônico em grandes instalações, utilizando estudos de sombras e distorções de perspectiva. Sua pesquisa envolve gravura, tapeçaria, projeções luminosas, videoinstalações e realidades virtuais. Para a exposição 4 Eméritos, ela aproveitou recursos como vinil, imagens e maquetes.

Regina Silveira começou a lecionar na ECA em 1974, quando o CAP ainda estava sendo estruturado. Ela parabenizou o compromisso atual do departamento em preservar uma tradição histórica: a singular dinâmica entre professor e estudante no ensino das artes. Regina ressaltou que, no fazer artístico, os docentes transmitem mais do que técnica, transferem visão e atitude e mais características como o rigor, a concentração e a liberdade. E essa relação entre mestre e discípulo propicia ao estudante diversas formas de aprendizado.

 

“Nas artes, a invenção poética não é o resultado de uma inspiração que cai do céu, como se pensa popularmente, mas de uma conexão nova que opera dentro da cabeça mesmo, onde já estão embutidos repertórios e experiências diversos, geralmente envolvendo uma multiplicidade de conhecimentos e sentidos.”

Regina Silveira, professora emérita do Departamento de Artes Plásticas

 

Na cerimônia, a docente comentou a importância da honraria e do fato de ser a primeira vez que a USP reconhece a relevância de artistas com esse título. Segundo ela, é necessário criticar a visão simplista, ainda presente na sociedade, de que as artes não exigem o mesmo nível de estudo e dedicação que os demais campos de conhecimento. Com obras nos maiores acervos do mundo, como o MoMA de Nova York, o Masp e o MAC-USP, a artista inaugurou em 2025 no aeroporto de Houston, nos EUA, Paradise, sua maior obra comissionada permanente.

 

 


Imagem de capa: Evandro Carlos Jardim, Regina Silveira, Carmela Gross e Carlos Fajardo. Foto: Amanda Ferreira/LAC-ECA.
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