Weslley Andrade, do LAC - Laboratório Agência de Comunicação
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Entre 4 e 8 de outubro, um grupo de seis estudantes e três docentes do Departamento de Cinema, Rádio e Televisão (CTR) participaram do workshop Escolas e Cinema. O evento, realizado no Campus Niterói da Universidade Federal Fluminense(UFF), foi organizado pelo Festival do Rio 2025, com o apoio do Instituto Francês. A participação da ECA foi possível graças a um convênio entre várias universidades de cinema brasileiras.
O Escolas e Cinema é realizado pela UFF em parceria com o Festival do Rio e participa da temporada França-Brasil 2025.
Da ECA, participaram os professores Antoine D’Artamare, João Paulo Schlittler e Silvia Hayashi. Ao todo, foram cerca de 40 participantes, entre docentes, discentes e convidados da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB), Universidade Federal de São Carlos (UFSCAR), Universidade Celso Lisboa, Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM RJ), além da UFF e da USP. Para esta edição, o workshop também contou com a participação da professora Cécile Sorin, da Universidade Paris VIII, e do cineasta Claude Mouriéras, do Ciné Fabrique.
A seleção para participar do workshop considerou a trajetória acadêmica e a motivação dos candidatos. Gabriel Almeida, estudante do curso de Audiovisual da ECA, conta que, após a aprovação, ele e os outros estudantes apresentaram cronogramas de atividades e propostas de contrapartida para obter apoio financeiro do CTR.
Um workshop para futuros cineastas
Durante o workshop, participantes foram divididos em grupos e produziram seus curtas-metragens. Todos usaram as mesmas locações, com um rodízio de gravações externas e em estúdio entre os grupos. Foto: Gabriel Almeida
Já no primeiro encontro, os participantes foram divididos em três grupos de cerca de 13 pessoas cada, responsáveis por produzir curta-metragens de até sete minutos com três temas indicados, todos adaptações cinematográficas de obras em outras linguagens:
O estrangeiro, canção de Caetano Veloso;
Por que você faz cinema?, canção de Adriana Calcanhoto;
Pan Cinema Permanente, poema de Waly Salomão.
Gabriel Almeida. Foto: Acervo pessoal.
A seleção dos temas foi feita por sorteio e os três grupos optaram por fazer documentários. Após uma conversa sobre como fariam as adaptações, as gravações do primeiro dia foram feitas com celulares.
Gabriel conta que, no segundo dia, percebeu que teriam que ser mais objetivos. O tempo era limitado, as propostas desafiadoras e boa parte do material gravado no primeiro dia eram vídeos “quase estáticos” de paisagens e pessoas passando pelas ruas. Assim, no segundo e no terceiro dia (o último de gravações), os estudantes já tinham uma ideia de qual caminho o filme deveria seguir e focaram em gravar apenas o que a equipe de montagem precisava.
O quarto dia foi dedicado à montagem dos curtas, que foram exibidos na universidade fluminense no quinto dia do workshop.
O incidente da Blackmagic
As câmeras Blackmagic são muito usadas no cinema profissional e foram oferecidas aos grupos pela UFF a partir do segundo dia de gravação. Vinícius e Gabriel contam que ninguém no grupo tinha usado esse tipo de câmera antes, mas iniciaram as gravações tendo testado apenas a qualidade da imagem. “A gente roda tudo naquele tempo corrido e vai. Não dá para fazer take dois”.
“E aí eu recebo o cartão de memória para mandar para a ilha de edição [e] quando eu vou passar as imagens pelo programa, elas estão todas em câmera lenta”, explica Vinícius, um dos montadores do grupo. “Mas, isso foi engraçadíssimo para a gente, sabe? A boca mexendo devagar, aquele movimento, assim, porque a galera não sabia que tinha que mexer na taxa de quadros da Blackmagic". A taxa de quadros determina a quantidade de imagens que é exibida por segundo, afetando a velocidade percebida da exibição.
As imagens poderiam ser sincronizadas, mas o grupo decidiu por manter o filme em câmera lenta: “causou um efeito estético na gente. Ficou bonito”. No curta, há uma sobreposição entre imagens da Baía de Guanabara e da entrevista (em câmera lenta), com o áudio na velocidade normal. “Ficou a cara do filme”, comenta Gabriel.
Um olhar sobre quem olha
Quando você tira uma uma selfie da Baía de Guanabara, você fica de costas para Baía, você não enxerga a Baía.
Vinícius Gonçalves, estudante de audiovisual
O francês Claude Mouriéras foi um dos professores convidados do evento. Ao fim das filmagens, os estudantes o viram por acaso de calça social na praia. As imagens foram utilizadas no curta. Foto: Reprodução/Onde Brota o Mar
Gabriel Almeida, Vinícius Gonçalves e Vitor Hugo dos Santos participam do curta De Onde Brota o Mar, um documentário sobre a Baía de Guanabara, inspirado na música O estrangeiro, de Caetano Veloso.
Vinícius Costa Gonçalves. Foto: Acervo pessoal
Por alguma ironia do destino, ou a vida é só um um poema muito bem escrito, a gente deu esse passeio de balsa pela Baía de Guanabara e quando a gente voltou para o workshop, o nosso tema era a Baía de Guanabara.
Vinícius Gonçalves, estudante de audiovisual
A obra traduz os diferentes “olhares” estrangeiros da canção com opiniões também contrastantes dos personagens: “o quanto ela é linda, ela é suja”, diz um dos entrevistados para o curta-metragem. Gabriel e Vinícius contam que elementos formais, como instrumentos entrando e saindo ou se sobrepondo na música, foram adaptados como sobreposições entre planos e inconsistências entre o que era dito e o que aparecia na tela. Esses diferentes olhares, no entanto, buscam refletir mais sobre os observadores do que sobre a Baía em si:
Se fulano achou isso e Beltrano achou aquilo, eu não sei o que que está certo, sabe? Eu não estou olhando para Baía, eu estou ouvindo você falar sobre a Baía.
Gabriel Almeida, estudante de audiovisual
Os estudantes do grupo filmaram e entrevistaram uns aos outros para explorar diferentes olhares sobre o cinema. Foto: Reprodução/Porque Sim
O curta Porque Sim é livremente inspirado na música Por Que Você Faz Cinema, de Adriana Calcanhotto, e se ocupa de dar a resposta dos estudantes para a questão do título. Denner Costa e Pedro Cunha participam do documentário, que acompanha a estadia dos estudantes no Rio de Janeiro e suas diferentes visões sobre o porquê da escolha pelo curso.
“Fazer arte”, diz um dos estudantes no curta, “é importante para quem faz e para quem observa porque é uma questão de sentir e absorver independente do seu ponto de vista, independente de onde você está”.
O curta abusa de sobreposições e inversões para retratar o cotidiano do Rio de forma única. Legenda: Reprodução/Máxima Latina.
O documentário Máxima Latina traz diferentes retratos da vida cotidiana no Rio de Janeiro, embalados pela declamação do poema de Waly Salomão.
Carolina Caetano é a ecana que participou do curta que acompanha locais e situações cariocas em diferentes ângulos, muitas vezes se dividindo ou se mesclando com outras imagens, cores e sons. Não há falas no curta, como se o filme não quisesse se fazer entender por palavras (exatamente o que estamos tentando fazer agora).
Não suba o sapateiro além da sandália
- legisla a máxima latina.
Então que o sapateiro desça até a sola
quando a sola se torna uma tela
Onde se exibe e se cola
a vida do asfalto embaixo
e em volta.
Pan Cinema-Permanente, de Waly Salomão
Dá para fazer cinema sem gastar um milhão?
João Paulo Amaral Schlittler Silva. Foto: Preston Rescigno
Para o professor João Paulo Schlittler o evento foi uma experiência gratificante, por diferentes motivos. Ele destaca o convívio com estudantes de todo o Brasil, além do contato com professores brasileiros e franceses, “incentivando a troca de ideias, processos, didáticas e experiências culturais e regionais”.
A realização de um projeto prático e artístico com parâmetros técnicos e um espaço de exibição inserido no Festival do Rio permitiu uma experimentação inédita de linguagens e modos de fazer e ensinar com resultados excepcionais no final do workshop.
João Paulo Schlittler, docente do CTR
Para o docente, a ECA ganhou muito com o workshop, tanto “com os aspectos extensionistas do intercâmbio de discentes e docentes”, quanto pela possibilidade de participar do Festival do Rio.
Os estudantes apontam que, além da experiência de produção em si, levam para casa a noção de que “existe outra forma de fazer cinema”, menos organizada e mais “orgânica”. “Você começa a entrar numa pira que cinema é muito caro, longa metragem custa um milhão, só dá para fazer curta com cem mil” comenta Gabriel. O workshop foi uma chance de “só ir lá e fazer”, e “também te faz lembrar que eu escolhi fazer isso e não me arrependo”, diz.
Os alunos contam que fugiram dos clichês durante a produção dos filmes: “se estava no cartão postal, não ia para o filme”. Foto: Gabriel Almeida