Você sabe quem são as mulheres que compõem as trilhas de filmes brasileiros?

Artigo publicado na Revista Música mapeia a participação de mulheres na área e levanta questões sobre a disparidade de gênero na autoria de trilhas musicais

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As trilhas sonoras de filmes fazem toda a diferença na hora de dar o tom de uma cena: seja em um musical, onde tudo é… musicado, em um filme de terror ou em uma série coreana sobre uma estudante apaixonada pelo professor. A maioria das pessoas não faz nem ideia de quem é o responsável por esse trabalho em seus filmes favoritos, mas isso não muda a importância desses profissionais e nem muda o fato de que, assim como em outras profissões, existe uma imensa disparidade entre homens e mulheres na área. 

Visando dar visibilidade para as compositoras de trilhas e dimensionar a desigualdade de gênero presente no campo, as pesquisadoras Suzana Reck Miranda, da Universidade Federal de São Carlos (Ufscar), Debora Regina Taño, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e Geórgia Cynara Coelho de Souza, da Universidade Estadual de Goiás (UEG), desenvolveram a pesquisa que resultou no artigo Autoria feminina nas trilhas musicais do cinema brasileiro: um panorama entre os anos 1995 e 2019, publicado na última edição da Revista Música. A pesquisa faz um levantamento de filmes que contaram com a participação de mulheres na composição de suas trilhas, classifica os tipos de participação e levanta questões sobre as dificuldades que as mulheres enfrentam para entrar nesse mercado.

 

Qual é o tamanho da desigualdade entre homens e mulheres na composição de trilhas  sonoras?

Com base nos dados do Observatório Brasileiro do Cinema e do Audiovisual (OCA), foram produzidos 1907 filmes no período estudado e os autores das trilhas foram identificados pelos créditos. Mais de 400 obras foram descartadas por não fornecerem informações sobre a autoria de suas trilhas ou por terem “trilhas de compilação”, ou seja, sem nenhuma música original. Foram considerados, portanto, os 1463 filmes restantes, e, dentre esses, apenas 79, cerca de 5,4%, contaram com a participação de ao menos uma mulher em sua trilha. “E mesmo nesses casos”, explicam as autoras,a presença feminina costuma ser limitada e muitas vezes periférica — seja em coautorias assimétricas, na criação de músicas adicionais ou de canções pontuais”.

A partir dos filmes levantados, o protagonismo das compositoras mulheres foi dividido nas seguintes categorias: 

  1. Autoras integrais de trilhas: 16 compositoras assinam a trilha de 19 filmes, sendo que Vivian Aguiar-Buff é a compositora mais mencionada, com a autoria integral da trilha sonora de três filmes. 
  2. Coautoria simétrica entre compositoras e compositores: Nessa categoria, 12 filmes são assinados  por compositoras em conjunto com compositores em termos de igualdade na quantidade de músicas. Flávia Ventura assina a trilha de três produções ao lado de David Tygel. Em outras duas produções, Vivian Aguiar-Buff está como coautora, dividindo a criação com André Moraes. 
  3. Coautoria assimétrica: ficou entendida como “assimétrica” a situação em que uma compositora figura ao lado de mais de um compositor, ou que a autora tenha contribuído com um menor número de músicas originais. 22 produções contam com ao menos uma mulher em coautoria assimétrica com um ou mais compositores. O único nome que se repete neste quadro é o de Tami Belfer, com o crédito por duas trilhas em parceria com uma empresa e um compositor. 
  4. Compositoras de música adicional: sete compositoras criaram uma música adicional para as trilhas de 10 dos 79 filmes. A compositora Fernanda Porto é creditada por canções em dois filmes e várias outras autoras mencionadas em outros quadros aparecem como compositoras de música adicional. 
  5. Compositoras de música autoral: 18 compositoras foram creditadas por ao menos uma música autoral em 16 filmes. As músicas não necessariamente foram compostas para o filme, mas integram, junto com canções compostas para o filme, a trilha sonora da obra. Nessa categoria, figuram mulheres conhecidas da música brasileira, como Daniela Mercury, Adriana Calcanhotto e Elza Soares.

 

Entre as compositoras que mais aparecem nos cinco quadros apresentados, três nomes se destacam: Flávia Ventura Tygel (oito participações), Vivian Aguiar-Buff (cinco participações, sendo três como compositora integral) e Tami Belfer (três participações). As pesquisadoras comentam que, não por coincidência, as três se apresentam profissionalmente como compositoras de trilhas, ou seja, têm a composição para obras audiovisuais como sua atividade principal, o que não é comum entre as demais profissionais listadas.

 

Gráfico com três linhas coloridas indicando quantidade de compositores por filme, no eixo vertical, ao longo dos anos, eixo horizontal. A linha inferior indica os nomes femininos e está quase rente ao eixo horizontal, variando entre 0 e 11 ao longo dos anos 1995 e 2019, a linha verde indica a quantidade de filmes produzidos, indo de 13 a 150, e uma linha amarela indica os nomes masculinos, que variam de 13 a 130.
Participação de homens e mulheres na composição de trilhas sonoras de 1995 a 2019. Em vista da impossibilidade de checar o gênero com que as pessoas efetivamente se identificam, o gênero foi inferido a partir dos nomes. Foto: Reprodução/Revista Música. 

 

 

Trajetórias distintas em uma mesma profissão 

As pesquisadoras apontam que, embora a baixa representatividade de mulheres já fosse previsível, a análise dos dados evidenciou ainda mais a disparidade, além de trazer mais informações sobre a inserção de mulheres no mercado, que é diferente da dos homens.

Foto de mulher negra sentada com a mão sobre o peito. Ela olha para o lado, tem uma expressão séria e cabelos longos e volumosos, castanhos avermelhados e enrolados. Ela veste uma roupa cor-de-rosa e dourada, com adereços nas mãos e batom e maquiagem escura nos olhos. O fundo é preto.
Embora as músicas de artistas como Elza Soares figurem em muitas trilhas de filmes, são poucos os nomes femininos na composição de trilhas completas. Foto: Reprodução/Wikimedia Commons

Com base nos números levantados, elas afirmam que “a coautoria, muitas vezes, [pode] funcionar como porta de entrada para quem consegue atuar em mais de um projeto”. Vivian Aguiar-Buff e Flávia Ventura Tygel, por exemplo, “começaram compondo em parceria com homens e/ou criando músicas adicionais". Entretanto, são poucas as que conseguem permanecer compondo para cinema e consolidar suas carreiras. Além disso, “a baixa circulação de seus trabalhos”, explicam as autoras, “reforça a invisibilidade de seus nomes e de suas criações”. 

Outro fato levantado pelas autoras é que a maioria das mulheres listadas exerce outras atividades artísticas como ocupação principal. Nomes como Maria Gadú, Olivia Byington e Daniela Mercury são conhecidas, principalmente, no cenário da música popular brasileira. A cineasta Helena Ignez, as técnicas de som Daniela Pastore e Tunica Teixeira, e as atrizes Flora Dias, Morena Cattoni e Lorena Lobato também assinam trilhas nos filmes levantados. 

Suzana, Débora e Geórgia complementam que na próxima etapa do estudo, entrevistarão as 63 compositoras encontradas, dando voz às suas trajetórias de uma forma mais plural: 

 

"Acreditamos que é urgente reconhecer e valorizar o trabalho dessas profissionais e esperamos que nossa pesquisa possa inspirar ações para combater a histórica desigualdade de gênero na criação musical."

Suzana Reck, Debora Regina e Geórgia Cynara, pesquisadoras

 

Revista Música

Fundada em 1990, a Revista Música é uma publicação semestral do Programa de Pós-Graduação em Música (PPGMUS) da ECA. A revista publica sobretudo artigos, mas também resenhas de livros recentes e entrevistas com pessoas ligadas ao universo musical, contanto que façam parte de uma investigação científica. 

Neste primeiro número de sua vigésima quinta edição, a revista apresenta um dossiê temático sobre a música nas outras artes. A maioria dos artigos da edição aborda a interseção entre música e cinema: o artigo Seetha, a serpente, a tumba, tiki pop and surf rock: o “Orientalismo” na trilha musical, por exemplo, investiga como a trilha sonora de filmes como Sepulcro Indiano e Pulp Fiction colabora com as imagens na produção de sentido do filme.

 

 


Foto de capa: Marcos Santos/ USP Imagens.
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