Como a MTV Brasil influenciou a formação musical da juventude pré-streaming
Em documentário, aluna de jornalismo resgata ruptura do canal com a televisão tradicional e seu legado na cultura jovem
Você já sentiu cansaço de ouvir sempre as mesmas músicas? Antes do modo aleatório inteligente e das playlists “Feito para você” do Spotify, para milhares de jovens brasileiros, essa sede por novidade musical só podia ser saciada ao sintonizar o canal da antiga MTV Brasil. O impacto cultural e a transformação na indústria fonográfica promovidos pela emissora são temas do Trabalho de Conclusão de Curso (TCC) de Ana Paula Sousa Medeiros, recém-graduada em Jornalismo pela ECA.
Intitulado Quando a MTV tocava música: a influência da MTV Brasil na formação musical da juventude brasileira pré-streaming, o trabalho foi desenvolvido sob orientação do professor Renato Levi Pahim. O projeto foi realizado no formato de documentário acompanhado de um memorial metodológico, uma das opções oferecidas pelo Departamento de Jornalismo e Editoração (CJE), que permite aos estudantes escolherem entre a monografia tradicional ou a criação de produtos jornalísticos ou editoriais, como podcasts, livros-reportagem, sites ou vídeos.
Segundo Ana Paula, a escolha pelo formato de documentário em vídeo se deu não apenas pela natureza audiovisual do objeto de pesquisa, mas também pelo potencial da linguagem cinematográfica em manter a história viva. O resultado é uma obra que, dividida em quatro eixos temáticos nomeados Disruptivo, Livre, Revolução e Comunidade, é constituída por clipes de música, trechos de programas e depoimentos de quem ajudou a construir a emissora.
O rompimento com a TV tradicional
Em seu memorial metodológico, Ana Paula resgata a fundação da MTV Brasil - versão brasileira da MTV (Music Television) estadunidense - em 20 de outubro de 1990, fruto de uma parceria entre o Grupo Abril e a Viacom (Paramount). Segundo a autora, a emissora consolidou-se como uma das principais plataformas de difusão musical voltadas ao público jovem no país. Com uma proposta inovadora, ela rompeu com os formatos tradicionais da televisão ao adotar uma linguagem livre e alinhada aos interesses e ao comportamento de parte da juventude das décadas de 90 e início dos anos 2000.
O documentário detalha como essa ruptura aconteceu na prática. Diferente das redes de televisão tradicionais, que seguiam grades rígidas, formatos engessados e linguagens formais, a MTV Brasil operava como uma TV experimental. De acordo com Zico Goes, ex-diretor de programação da emissora, em entrevista para o documentário, não havia um modelo a ser seguido: "A grande maioria das pessoas que trabalharam na emissora aprenderam com a prática, pois não havia um manual ou um predecessor".
André Vaisman, que ocupou a direção geral por seis anos durante a década de 1990, destaca no documentário que a gestão era pautada por uma liberdade criativa, sem a existência de vetos sobre o conteúdo que ia ao ar. Essa estrutura permitia que a MTV mantivesse um diálogo autêntico e sem filtros, estabelecendo uma comunicação feita por jovens e para jovens.
"A MTV teve um papel muito importante em fazer as pessoas verem a música de um jeito diferente. Basicamente, o que a pessoa entende como música, como arte, foi moldado ali, a partir do que eles passavam na TV. Não importa a idade da pessoa, ela conseguiu influenciar gerações, e é uma coisa que a gente tem que falar até hoje."
Ana Paula Sousa Medeiros, jornalista
O TCC aponta que a popularização dos clipes mudou o foco das gravadoras do álbum para o "single visual", impulsionando a produção nacional de videoclipes e, consequentemente, a criação de programas que estabeleceram novos padrões de qualidade no mercado, como o Acústico MTV e a premiação VMB (Video Music Brasil). Segundo o ex-diretor do VMB, Cacá Marcondes, também entrevistado no documentário, a emissora revolucionou o acesso à música em uma época em que as novidades chegavam atrasadas, através de poucas rádios e revistas específicas.
A identidade de uma geração
Para além da música, o TCC explora o papel social da emissora. Surgida logo após o fim da ditadura militar, a MTV serviu como um "alento para a molecada", nas palavras de André Vaisman. Era um espaço de formação de identidade onde mensagens como "Desliga a televisão e vá ler um livro!" tinham espaço na tela, desafiando o próprio meio.
"Eu acho que eu peguei um pouco também da atitude da emissora, em querer ser jovem, rebelde, contra as amarras sociais e não ligar muito para o que seria considerado comum", explica Ana Paula. Ela recorda que artistas e bandas como Avril Lavigne, Blink-182 e Charlie Brown Jr. trouxeram para a tela a cultura urbana e do skate, elementos que incorporou em sua vida.
Por fim, o documentário também registra o declínio da emissora. Com a popularização do YouTube a partir de 2005, o espectador passou a poder acessar os clipes à vontade, o que desencadeou um processo que resultou no encerramento da MTV Brasil em 2013, com uma grande festa de despedida transmitida ao vivo. No filme, esse ciclo é simbolizado pelo depoimento da então VJ Cuca Lazzarotto, que teve a honra de apresentar tanto o primeiro clipe da emissora, Garota de Ipanema, de Marina Lima, quanto o último, Maracatu Atômico, de Chico Science.
"Se a MTV ainda existisse, eu bateria na porta deles todos os dias para pedir emprego", confessa Ana Paula sobre a paixão pela música que agora guia sua carreira. Com passagens pelos setores de jornal impresso, esporte e marketing na TV Bandeirantes (Band), Ana Paula atua hoje no Itaú Cultural e produz conteúdo sobre música para redes sociais como o TikTok e o Instagram. Após solucionar questões técnicas e de direitos autorais, ela pretende levar seu documentário a festivais e iniciar um mestrado ainda este ano. Para o futuro, ela projeta uma carreira dedicada ao jornalismo musical e ao audiovisual, áreas que o TCC ajudou a consolidar como seu propósito profissional.
Imagem de capa: reprodução/Billboard Brasil