Biblioteca da ECA, passado e futuro

No mês em que a biblioteca completa oficialmente 56 anos, veja o que conta uma bibliotecária que tem dedicado toda sua carreira a esse espaço

 

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Entrei na ECA em 1979 para cursar Biblioteconomia ou outro curso qualquer, na verdade. Na época, o curso específico era escolhido no segundo semestre. Optei por Biblioteconomia porque nenhum dos outros cursos da ECA parecia ser a minha praia. Na verdade, nem a Biblioteconomia era minha praia, mas tinha uma vantagem enorme sobre os demais: era fácil conseguir estágio durante o curso e emprego depois.

Em 1981, fui avisada de que a Biblioteca da ECA estava em busca de um estudante para trabalhar na Filmoteca. Curiosamente, eu sempre passava em frente à porta da Filmoteca e pensava que seria legal trabalhar lá. Apresentei-me à então chefe da Biblioteca, fiz uma prova, uma entrevista e, candidata única, consegui o emprego.

O acervo de livros e revistas, além das salas de serviços internos, ocupava um espaço equivalente ao que hoje vai da entrada até as salas de estudo em grupo. O Prédio Central da ECA tinha uma segunda portaria, e a parte térrea era dividida em três blocos. No primeiro, o Bloco A, ficava a gráfica. No segundo, a Biblioteca. No terceiro, um depósito de livros da Edusp. Como a Biblioteca precisava de mais espaço, os estudantes se mobilizaram para que esse bloco fosse liberado. Participei desse movimento bem sucedido enquanto estudante, bem antes de ser contratada. Não sabia, mas um dia iria trabalhar no espaço que ajudei a conquistar.

A Fonoteca e a Filmoteca estavam localizadas no primeiro andar do Prédio Central. A primeira guardava o acervo de discos, fitas e partituras da Biblioteca, a segunda o acervo de filmes, que eu estava encarregada de tratar de acordo com métodos e procedimentos da Biblioteconomia. Fui a primeira profissional da área a trabalhar na Filmoteca. Sofri bastante, mas também me diverti muito.

Alguns anos depois, Filmoteca e Fonoteca tiveram que descer para o térreo, porque o prédio não estava suportando seu peso. Foi a primeira grande reforma da Biblioteca da qual participei e que aconteceu, pelo que me lembro, em 1983. Foi aí que fui trabalhar no espaço pelo qual briguei nos tempos de estudante. Justiça poética, sem dúvida.

Nessa época, a Filmoteca já contava com um acervo de slides, material importante para as aulas dos cursos de artes. Em épocas pré-internet, os professores que precisavam projetar reproduções de obras de arte em suas aulas recorriam ao nosso acervo. Eventualmente, a própria Biblioteca produzia o material necessário, fotografando livros e catálogos de exposições.

Hoje, ninguém usa mais slides, a não ser aqueles do Power Point. A Biblioteca criou duas bases de dados para organização e compartilhamento de imagens: a Memória da ECA, para imagens de caráter histórico e documental ligado à Escola, e a Biblioteca Digital da Produção Artística, que registra imagens de trabalhos de artistas visuais ligados à Escola e estará disponível ao público em breve. 

Por volta de 1986, começamos a formar nosso acervo de vídeos. Conseguimos verba e pedimos a formação de uma comissão de professores para colaborar na seleção dos primeiros títulos. Conseguimos comprar cerca de 80 títulos. Hoje, temos uma coleção de 8277 títulos em DVD, vídeo e película cinematográfica, que contém filmes importantes para o estudo do cinema, documentários de assuntos de interesse para as áreas da Escola, óperas e concertos, produções de alunos e docentes, etc.

Nos primeiros anos da década de 1990, demos início à informatização dos nossos catálogos, um processo complexo e ainda não totalmente concluído.

Em meados dessa década, o espaço estava novamente esgotado e cheio de problemas. Fomos salvos por um edital da Fapesp, que possibilitou realizarmos a segunda grande reforma, que remodelou totalmente o espaço, instalações elétricas, equipamentos e mobiliário, o que deu uma cara completamente nova para nossa Biblioteca. Alargando o térreo e incorporando a portaria 2, conseguimos garantir mais alguns anos de crescimento para o acervo. Mas como, por sorte, os livros não param de chegar, essa folga acabou há muito tempo. A solução é guardar o acervo em estantes deslizantes.

Montagem de duas fotos: Esquerda: corredor de biblioteca, com um mostruário de publicações à esquerda e estantes à direita. Foto antiga, em tons esverdeados. Direita: mostruário de publicações em primeiro plano. O móvel é de vidro, sustentado por armação pintada de vermelho. À esquerda, em segundo plano, pilar pintado de azul. Luzes brancas no teto, ambiente luminoso.
Fotos: Eduardo Peñuela e Marina Macambyra.

 

Uma biblioteca que atende cursos das áreas de Artes e Comunicações precisa de um acervo diversificado, não apenas em relação aos assuntos, mas aos suportes e tipos de documentos. Além dos acervos audiovisuais, que sempre foram um diferencial importante da Biblioteca da ECA, foram formadas, ao longo dos anos, coleções importantes de partituras, catálogos de exposições, peças teatrais, quadrinhos, trabalhos artísticos apresentados como teses e TCCs etc.  Em 2014, começou a identificação e a organização dos livros de artista que se encontravam no acervo normal de livros e teses. Hoje, temos uma bela coleção de quase 200 títulos, catalogados e bem conservados, que vem recebendo doações de artistas de forma regular.

Foto de livro com páginas sanfonadas, aberto, com desenhos em azul sobre fundo branco
Flávia Ocaranza: Desenhos para um universo de bolso (tese / livro de artista). Foto: Mariana Chama.

 

Foto de duas prateleiras contendo livros de formatos e tamanhos variados. Na prateleira superior, livros na vertical; na inferior, livros na horizontal.
Parte do acervo de livros de artista. Foto: Marina Macambyra.

 

Comecei a trabalhar numa biblioteca com acervo disperso e espaço estrangulado. Os catálogos eram fichas datilografadas, o empréstimo também era registrado em fichinhas.

Montagem de fotos> Esquerda: gaveta de fichário de biblioteca, fotografada de cima. O conjunto de fichas está aberto numa ficha do livro No reino da desigualdade. Direita: uma ficha de empréstimo de livro, na qual se lê um cabeçalho com o autor e o título. Abaixo, 3 colunas com assinatura, número e data de devolução.
Fotos: Marina Macambyra.

 

Hoje, temos um espaço em transformação, digno e agradável.  Temos salas multimídia para uso de estudantes e docentes, cabines para estudo individual, scanner para autoatendimento, mobiliário para exposições, oficina de encadernação e conservação que ajuda a manter o acervo bem preservado, catálogos online, empréstimo automatizado, desburocratizado e unificado para toda a USP, acesso a bases de dados acadêmicas, plataformas de e-books e publicações eletrônicas, blog e perfis em mídias sociais, programa de treinamentos para acesso a fontes de informação e outros assuntos. O empréstimo de material físico caiu, mas a oferta de fontes de informação se ampliou e diversificou muito, assim como os serviços oferecidos. O futuro chega todos os dias e a luta continua.

 

Foto de mulher branca de cabelos curtos e grisalhos. Ela olha para a câmera e usa brincos pequenos, um lenço florido no pescoço, colar com pingente rosa e blusa regata preta. Ao fundo, diversos cubos e contornos de quadrados em um espaço amplo de concreto.
Foto: José Estorniolo Filho.

Sobre a autora

Marina Macambyra é bibliotecária formada pela ECA em 1982, funcionária da USP desde 1981 e aprendiz de escritora.

 

 


Foto de capa: Marina Macambyra.
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