CJE | Departamento de Jornalismo e Editoração



Projeto Redigir: escrever nossa história, do papel às ruas, pela sala de aula

Ivan Paganotti lembra passagem por projeto de extensão que desde o fim dos anos 90 engaja estudantes da USP na promoção da comunicação e cidadania

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Depois de um semestre inicial nas cadeiras da USP (ainda de madeira, em 2001), acabei de pé, em uma sala do Departamento de Jornalismo e Editoração (CJE) da ECA, na frente de duas dúzias de jovens com os mesmos 18 anos que eu acabava de completar, e que aguardavam minha lição.

Com cinco professores e dois gestores escolares na família, sempre considerei que empunhar o giz seria destino tão inevitável quanto honroso. E agora enfrentava minha herança, mais cedo do que imaginava.

Veteranos do curso de Jornalismo tinham criado, um par de anos antes, o Projeto Redigir, um curso comunitário de redação para ajudar alunos da rede pública de ensino a enfrentar as propostas dos vestibulares. Os próprios alunos da USP ministravam as aulas e gerenciavam o curso, incluindo financiamento, divulgação, inscrição e produção de material didático. Junto aos jornais laboratórios, o Redigir era o coração do curso de Jornalismo, nossa principal atividade extracurricular na época: comigo, metade da minha turma voluntariou-se a trabalhar no curso já no primeiro ano.

As aulas exigiam não só um intenso preparo prévio, mas também atenção a todos os detalhes em classe: desde o tempo e o ritmo de fala até o olhar questionador, confuso ou empolgado dos alunos. Não era tão simples captar e prender a atenção de jovens que já tinham encarado uma jornada múltipla entre cuidar da casa e da família, navegar pelo transporte público paulistano, que dificultava o acesso à USP, trabalhos desgastantes e aulas noturnas. Mas essa atenção conquistada era sublime: não só por todo o esforço desprendido por docentes e discentes para estar em sala e debater os temas, ou pelo conhecimento acumulado, nos textos citados e discutidos em classe, mas porque essa era, afinal, a atenção que esses jovens estudantes sempre deveriam ter recebido durante sua formação e que, por dificuldades sistêmicas bastante conhecidas, nem sempre conseguiam nas suas escolas.

Foto de pequeno grupo de pessoas jovens e uma criança atravessando a rua e sorrindo. À direita, um rapaz branco de óculos escuros, calça jeans e camisa vermelha dedilha um violão. No centro, dois rapazes negros carregam papeis e erguem os braços ao lado de uma jovem branca de mãos dadas com uma criança. À esquerda, uma jovem negra carrega papeis e um tecido branco. Ao fundo, um outdoor, um corredor entre dois prédios baixos e árvores.
Ivan Paganotti (à direita) e estudantes do Projeto Redigir com seus certificados em 2001. Foto: Paula Scarpin.

Naquela primeira aula, aprendi uma importante lição com meus alunos: tínhamos uma grande responsabilidade ao ocupar as salas da ECA, para discutir e escrever com quem ainda olhava a USP como uma realidade paralela, mostrando que todos merecem seu espaço aqui.

Desde o começo, o Redigir aproximava quem só via a universidade de longe, atraindo quem queria um espaço para trocar ideias e histórias. O curso é uma iniciativa de extensão, uma das missões da universidade, junto ao ensino e à pesquisa; procura abrir um canal de diálogo e colaboração dos universitários com a sociedade, para troca de saberes que possam melhorar nossa realidade.

Os alunos de Jornalismo que criaram esse cursinho popular no final dos anos 1990 empregavam suas experiências com redação e gramática, ensinando aos alunos de escolas públicas algumas técnicas de redação para o vestibular e para práticas cotidianas — como produção de cartas e abaixo-assinados para exigir seus direitos. Não bastava preparar nossos alunos para a aprovação no vestibular; seus textos podem ser ferramentas poderosas para melhorar as condições de suas vidas, expressando suas demandas.

Nas aulas, exploramos gêneros textuais tradicionais, como a narração, a crônica, a carta e a dissertação, com base em leitura e discussão de temas atuais e produtos midiáticos — como notícias, editoriais, colunas, reportagens de televisão ou rádio, curtas de ficção, novelas, músicas, histórias em quadrinhos e fotografias. Com essa educação midiática, os alunos refletem de forma mais criteriosa sobre o que consomem na mídia, ao mesmo tempo em que aprendem técnicas para se tornarem produtores de veículos de comunicação compartilhados em suas comunidades — afinal, com a ascensão das plataformas digitais, todos precisamos entender melhor como esses meios funcionam para poder nos expressar de forma mais crítica.

Foto de um grupo de pessoas de diferentes gêneros, a maioria jovens e brancos, abraçados e sorrindo. Alguns estão agachados à frente dos demais, em pé. No canto direito, um homem calvo e de barba branca. Ao fundo, um painel com os dizeres Jornal do Campus e Departamento de Jornalismo e Editoração da ECA USP.
Turma de Jornalismo de 2001. Foto: acervo pessoal/Ivan Paganotti.

Nas últimas décadas, além de atender milhares de alunos, o Redigir também formou dezenas de docentes. Cativados pela experiência, muitos ex-professores do curso se desviaram da formação original em jornalismo e seguiram a trilha do ensino: estão na educação básica, em universidades dentro e fora do Brasil, ou levam a educação para dentro dos meios de comunicação, como no caso de Iberê Thenório, criador do Manual do Mundo, e professor do Redigir na turma de 2002.

Não fui o único, nem o primeiro, a voltar para a ECA como docente, depois do Redigir: Rodrigo Ratier, um dos fundadores do curso, já estava aqui de volta, também como professor de jornalismo. Minhas primeiras aulas no curso, inclusive, foram ao lado dele.

Foi no Redigir, com nossos alunos e colegas, que aprendi a ser professor e descobri a importância de adotar uma linguagem aberta, que evite a tendência tristemente exclusiva da tradição acadêmica. A grande lição de nosso curso é que, se queremos redigir juntos nossas histórias, do papel até as ruas, precisamos de portas abertas nas nossas salas de aula.

 

Sobre o autor

Foto de um homem branco, de semi-perfil, sorrindo. Ele tem cabelos curtos, escuros e lisos e barba curta e levemente grisalha. Ele usa uma camisa clara e estampada e seus óculos são retangulares e pretos. No fundo da imagem, há vegetação desfocada.
Foto: Amanda Ganzarolli. 

Ivan Paganotti é professor de Jornalismo da ECA USP, jornalista e doutor em Ciências da Comunicação pela mesma instituição, com doutorado-sanduíche na Universidade do Minho (Portugal) e pós-doutorado na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP). Autor do livro Censura, justiça e regulação da mídia na redemocratização e co-criador do curso online gratuito de combate à desinformação Vaza, Falsiane!, é pesquisador do CNPq, do MidiAto/ECA-USP e coordenador da região sudeste da Rede Nacional de Combate à Desinformação (RNCD). Jornalista freelancer em revistas da editora Abril, como Superinteressante, colaborou com colunas do UOL (Entendendo Bolsonaro) e Jota (Democracia em Transe). Produtor e diretor de séries e documentários, entre eles o filme Correntes, menção honrosa no Prêmio Vladimir Herzog de Direitos Humanos e Anistia de 2006.


 

 

 

 

Foto de capa: Paula Scarpin. 
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