Guilhermina Rocha: uma dramaturga do teatro de horror brasileiro

Artigo da revista Sala Preta traz análise de Dominó Negro, peça da autora que marca influência de gênero francês no teatro brasileiro do início do século XX 

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Do fim do século XIX ao começo do século XX, a cultura francesa teve forte influência no teatro produzido e consumido pela elite intelectual no Brasil. A chamada belle époque tropical foi lembrada pela historiografia tanto por peças no estilo romântico ou naturalista, quanto pelas altas comédias que agradavam as elites, deixando de lado gêneros mais populares ou subversivos. Dentre esses estilos subversivos estava o Grand-Guignol, também vindo da França como uma mescla de hipernaturalismo, fatos reais, crimes e cenas chocantes, que não agradavam o gosto pela “sobriedade” da elite carioca. Mesmo assim, o Grand-Guignol inspirou obras brasileiras que viam no estilo chocante um caminho para modernizar o teatro nacional.

Com a intenção de investigar a composição do gênero Grand-Guignol na França e a sua influência no Brasil, as pesquisadoras Sofia Fransolin Pires de Almeida, doutoranda do Programa de Pós-Graduação em Artes da Cena do Instituto de Artes da Unicamp, e Larissa de Oliveira Neves, professora associada do Departamento de Artes Cênicas da Unicamp, realizaram uma pesquisa que resultou no artigo A emergência do Grand-Guignol no Brasil: um estudo sobre Dominó Negro (1916), publicado na última edição da Revista Sala Preta. Para esse trabalho, elas analisaram a peça Dominó Negro (1916), de Guilhermina Rocha, atriz e dramaturga do início do século XX, que foi uma das pioneiras do gênero no Brasil.

 

O Grand-Guignol da França ao Brasil

 

"Diferente da cena teatral tradicional, o Grand-Guignol  deslocava sua atenção para longe da sala de estar burguesa, e encarava as ruas, as noites e as pessoas à margem da belle époque."

Sofia Fransolin Pires de Almeida e Larissa de Oliveira Neves, pesquisadoras

 

Foto em preto e branco de homem branco de cabelos curtos sentado à frente de um caixão com os olhos fechados. O homem usa maquiagem que se assemelha a ferimentos, além de uma roupa com diversos pontos de líquido escuro. Entre ele e o caixão há um tecido branco com pequenas manchas escuras. O fundo é escuro e há uma parede listrada com uma porta.
Série Sur le Grand-Guignol (1937), do teatro francês. Foto: Reprodução/Wikimedia Commons.  

 

O Théâtre du Grand-Guignol foi um espaço teatral ativo na cidade de Paris entre 1897 e 1962. Seu fundador e primeiro diretor, Oscar Méténier (1859-1913), concentrou-se em tramas naturalistas sobre a vida de prostitutas, criminosos, moradores de rua e outros personagens que não eram vistos como apropriados para serem representados em peças de teatro. Ao longo dos anos, diversos diretores que passaram pelo teatro consolidaram o Grand-Guignol como um espaço para espetáculos de terror, tanto nas dramaturgias, quanto nos efeitos especiais, que traziam o horror à cena com o máximo de realismo. No Brasil, a incursão do Grand-Guignol se deu a partir das décadas de 1910 e 1920, por meio das turnês de companhias estrangeiras. 

Embora as pesquisadoras expliquem que a mescla entre diversas referências e o uso de recursos tradicionais do teatro impeçam que o Grand-Guignol seja considerado um gênero próprio, “o movimento preconizado pelo Théâtre du Grand-Guignol”, dizem elas,  “teve força e impacto para firmar uma estética e uma poética próprias que permitem a identificação do termo com uma linguagem teatral específica”. Com o tempo, os textos densos e carregados de violência que eram apresentados no Teatro de Grand Guignol  fizeram o termo passar a ser utilizado para  designar uma linguagem teatral com as seguintes características: 

  • Textos curtos, em geral de um só ato;
  • Dramaturgia baseada em “fatos diversos” (notícias inusitadas ou pitorescas) para encenar histórias de violência e horror;
  • Temas principais: a traição, a vingança e o mal-entendido;
  • Uso de diálogos e “adiamento” da ação prenunciada para construção de suspense crescente;
  • Muitas peças envolviam a objetificação do corpo feminino ou violência contra mulheres. A atriz francesa Paula Maxa, do Teatro de Grand-Guignol, ficou conhecida como “a mulher mais assassinada do mundo”.

As autoras contam que, no Brasil, o termo foi usado pela primeira vez em uma notícia de um jornal carioca sobre o teatro francês, mas logo passou a adjetivar crimes violentos que aconteciam na cidade e, finalmente, peças de teatro com características semelhantes às do Grand-Guignol francês. 

 

Guilhermina Rocha e o Grand-Guignol nacional

 

"A audácia das composições a colocavam em um patamar subversivo para a época, com textos que ainda hoje causam espanto pela maestria com que Guilhermina Rocha transforma a forma em brasilidade ao mesmo tempo que mantém as configurações do Grand-Guignol francês."

Sofia Fransolin Pires de Almeida e Larissa de Oliveira Neves, pesquisadoras

 

Foto em preto e branco de mulher branca com cabelos e olhos escuros. Ela veste um chapéu preto, uma camisa branca com uma peça escura por cima. O fundo é um quadrado branco com detalhes cinza e do lado direito no canto superior da foto está escrito Guilhermina Rocha, a direita no centro está a data 4 de março de 1884 e no canto inferior direito há os logos da casa de leitura e da biblioteca nacional.
Apesar da carreira promissora como atriz e dramaturga, Guilhermina abandonou os palcos para se tornar médica. Foto: Reprodução/Bibliotecanacional.br

Guilhermina Rocha (1884-1938) foi uma atriz e dramaturga nascida no Rio Grande do Sul que atuou entre os anos de 1902 e 1915 nos palcos cariocas. Como atriz, compôs o elenco das principais companhias luso-brasileiras em atividade na capital, além do Teatro Municipal carioca (1910). Guilhermina escreveu cinco peças, dentre as quais Dominó Negro (1916), que foi classificada como um Grand-Guignol pela imprensa por conta de sua inspiração em fatos reais, estilo rápido e desfecho violento.

As pesquisadoras explicam que na peça, que retrata um crime passional, “podemos identificar uma estrutura bastante atrelada à noção de drama clássico, seguindo as unidades de tempo, espaço e ação”. Porém, “essa mesma estrutura se esgarça pela própria temática da peça que, ao trazer fatos reais para a cena, com uma exposição gráfica de violência e morte, acaba por romper com a ideia de sobriedade do drama”. Esse rompimento com a sobriedade do drama traz um novo olhar para a encenação e pode ser entendido como uma tentativa de modernizar o teatro nacional.

Larissa e Sofia também definem o Grand-Guignol como um teatro “fortemente ligado à palavra”, em que certos efeitos (medo ou terror) são gerados por meio de reviravoltas e diálogos. No Grand-Guignol, os diálogos são usados para aumentar a tensão de uma tragédia que já está anunciada. “A tônica do Grand-Guignol não reside na surpresa de um ato final trágico e sanguinolento, mas justamente em sua inevitabilidade”. 

 

Dominó Negro: Um Grand-Guignol brasileiro

A peça Dominó Negro reúne características que definem Grand-Guignol: traição, mal entendido, crime passional, cenas chocantes e fatos reais. Elvira e seu amante, Otávio, combinam de festejar o carnaval na casa do homem, pois o marido de Elvira, Ernesto, havia viajado. A fantasia escolhida pela mulher é a de dominó negro. Contudo, antes que Elvira chegue ao local, uma ex-namorada de Otávio chega em sua casa de surpresa, também vestida de dominó negro.

O marido de Elvira, que havia simulado a viagem para flagrar a infidelidade da mulher, aparece no local e, sabendo que a mulher estaria vestida de dominó negro por conta de uma denúncia da empregada da família, mata a mulher inocente. O amante chega na cena do crime e logo entra em conflito com Ernesto, que tenta matá-lo. Gritos são ouvidos ao longe, parecendo ser a voz de Elvira, mas a empregada de Otávio assume os gritos, acobertando a mulher, que consegue fugir. O marido percebe que matou a pessoa errada, mas já é tarde. As cortinas se fecham.

Para escrever esse texto, Guilhermina conta ter se inspirado em crimes passionais reais e, especificamente, em um caso da época em que um homem matou sua esposa adúltera, também no carnaval. As pesquisadoras acreditam que o desfecho da peça, com a mulher sendo salva, ecoa a necessidade de mostrar que esse tipo de violência não é justificável.

 

 

O apagamento de Guilhermina e outros autores entre os séculos XIX e XX

 

"O francesismo foi um dos aspectos, entre tantos outros de nossa complexa formação cultural, que propiciou à história teatral brasileira relegar ao silenciamento diversos artistas que fugiam a certos padrões estéticos valorizados naquele meio letrado."

Sofia Fransolin Pires de Almeida e Larissa de Oliveira Neves, pesquisadoras

 

Embora Guilhermina tenha abandonado a carreira teatral para se tornar médica, as pesquisadoras apontam que “é espantoso que praticamente nada sobre ela tenha permanecido nos anais historiográficos”. Essa ausência, explicam Sofia e Larissa, “é paradigmática do problema histórico do nosso teatro, que deixava de lado as pessoas e as artes mais conflituosas e subversivas de seu tempo”. Assim, uma mulher escrevendo sobre feminicídio e sobre a posição domesticada na qual a sociedade a inseria, dificilmente seria lembrada. 

Além de Guilhermina, as autoras comentam o trabalho de outras dramaturgas mulheres ou dramaturgos negros reconhecidos em sua época que não foram lembrados posteriormente. É o caso de  Josefina Álvares de Azevedo (1851-1913), Arthur Rocha (1859-1888) e Xisto Bahia (1841-1894), que “mesmo tendo feito sucesso no século XIX, quase desapareceram dos estudos teatrais durante o século XX”. As autoras mencionam o Índice de dramaturgas brasileiras do século XIX como uma evidência de que muitas mulheres produziram obras teatrais na época e sofreram esse apagamento.

 

"Em uma investigação atenta sobre a vida e a obra dessa artista, tem-se encontrado uma produção intensa e de importante relevância tanto em cena quanto na pena, sendo ela mais um exemplo que contraria os pressupostos machistas de que a dramaturgia foi um ofício historicamente ligado ao gênero masculino."

Sofia Fransolin Pires de Almeida e Larissa de Oliveira Neves, pesquisadoras

 

Revista Sala Preta

A Revista Sala Preta é uma publicação quadrimestral do Programa de Pós-Graduação em Artes Cênicas (PPGAC), vinculado à ECA-USP. Iniciada em 2001 e com 24 edições publicadas, sua missão é divulgar conhecimentos recentes na área de Artes Cênicas. 

Em sua edição atual, o periódico traz um dossiê dedicado à história do teatro brasileiro com artigos sobre o teatro brasileiro no contexto da modernidade e sobre tradições interpretativas do teatro brasileiro moderno, entre outros. 

 

 


Imagem de capa: cena de um Grand-Guignol em 1937. Reprodução/Wikimedia Commons.

 

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