A representação das mulheres na mídia permanece estagnada
‘Metade da população, um quarto das notícias’, afirma docente da ECA que atuou como co-coordenadora nacional em pesquisa global
A presença feminina nas notícias pouco mudou desde 2020. É o que aponta o estudo conduzido pelo Projeto de Monitoramento Global da Mídia (GMMP, na sigla em inglês), lançado no último ano. Apesar das mulheres integrarem metade da população mundial, o relatório identifica que elas têm 26% de representação na mídia.
O relatório é divulgado a cada cinco anos desde 1995 em mais de 100 países e o Brasil fez parte das duas últimas edições. No país, duas coordenadoras nacionais se encarregaram da pesquisa: Elizângela Carvalho Noronha, jornalista e pesquisadora da Universidade Católica Portuguesa, e Cláudia Lago, professora do Departamento de Comunicações e Artes (CCA) e líder do AlterGen - grupo de pesquisa sobre gênero da ECA. A professora Dayana Melo, também docente do CCA, e orientandas e orientandos do Programa de Pós-graduação em Ciências da Comunicação (PPGCOM) também integraram a equipe de trabalho.
No mundo todo, os veículos ainda falham em combater estereótipos de gênero. O estudo identifica que notícias que questionam esses estereótipos se mantêm na média entre 3 e 4%. Os melhores resultados são na América do Norte (19%) e os piores no Oriente Médio (1%).
Cláudia Lago destaca que o Brasil segue a tendência global de estagnação em relação à presença das mulheres nas notícias, sem mudanças significativas nos últimos cinco anos.
“Os nossos dados são muito parecidos com os dados regionais e os dados globais e indicam uma invisibilização das mulheres na mídia. Tanto que a chamada do GMMP é: metade do mundo, um quarto das notícias, porque, na prática, as mulheres aparecem em 26% das notícias veiculadas.”
Cláudia Lago, professora do CCA e uma das coordenadoras do estudo no Brasil
A presença das mulheres na mídia brasileira
O relatório identifica quem produz as reportagens, quais são as funções exercidas por cada mulher nelas e quem são as fontes, ou seja, as pessoas que são consultadas para a construção de uma notícia.
Em relação às repórteres, há maior presença feminina na internet, com 48%, enquanto a menor presença é na televisão, com 36%. Como fontes, as mulheres são mais presentes no jornal impresso (24%) e menos frequentes na internet (19%). Elas falam majoritariamente sobre violência de gênero, saúde e ciência (jornal, rádio e TV) e celebridades, artes e mídia (internet).
Mesmo quando as notícias são produzidas por mulheres, a busca por fontes femininas não aumenta de forma expressiva. Na prática, isso significa que essas jornalistas acabam reproduzindo o padrão de entrevistar, principalmente, homens.
A professora Cláudia também observa que “mulheres não estão nas hard news”, ou seja, nas notícias do dia a dia. Temas como política, economia, esportes e criminalidade, que têm destaque nos noticiários diários, são áreas com predominância masculina. A maior discrepância é no jornalismo esportivo, em que homens aparecem entre 73 a 92% das matérias analisadas.
Sobre os assuntos abordados com as fontes, o relatório aponta que as mulheres são majoritariamente entrevistadas para dar depoimentos pessoais enquanto os homens são entrevistados como especialistas. Por exemplo, em uma matéria sobre aborto, mulheres seriam entrevistadas para relatar as suas experiências, enquanto médicos homens seriam ouvidos para dar opiniões técnicas, explica a docente do CCA.
O relatório também menciona o elevado percentual de mulheres identificadas pelo contexto familiar - como mães, donas de casa, entre outros (73%) - outra conduta que reforça os estereótipos de gênero. Também é baixa a presença de mulheres racializadas (apenas 5%), predominando mulheres brancas e de classe média.
“Em suma, o GMMP 2025 demonstra que o jornalismo brasileiro reproduz padrões patriarcais e estereotipados que limitam o acesso, a voz e a visibilidade das mulheres, especialmente aquelas que sofrem violências interseccionais de gênero, raça e classe.”
GMMP +30, Relatório Nacional Brasil
E quando as mulheres protagonizam as notícias?
De acordo com o relatório nacional do GMMP, as mulheres não protagonizam as reportagens, com uma exceção: quando são retratadas como vítimas, principalmente, nos casos de violência de gênero. Conteúdos sobre esses temas representam entre 1% e 2% das notícias nos diferentes formatos de veiculação. Para a docente, esses dados “indicam uma baixa cobertura da mídia sobre violência de gênero”, apesar do aumento dos casos de violência contra as mulheres.
Em 2024 e 2025 o Brasil registrou recordes de feminicídio. Enquanto o primeiro bimestre de 2026 registrou o aumento de 31% nesses crimes em comparação ao mesmo período do último ano, segundo reportagem do G1.
O estudo também informa que falta aprofundamento nas notícias que abordam questões de gênero. Temas como equidade, legislação e políticas de direitos humanos são abordadas em apenas 8% das matérias analisadas pelo GMMP.
Possibilidades presentes e futuras
Para a professora Cláudia, além de falar abertamente sobre questões de gênero, é preciso combater estereótipos de forma geral. Para mudar esse cenário, as ações necessárias “são inúmeras e passam desde a escolha dos temas e fontes de matérias, até a forma como as mulheres são enquadradas e apresentadas”, avalia a docente. Ela acredita que os resultados deste trabalho contribuem para incentivar e orientar os debates na sociedade e, com isso, gerar uma mudança cultural efetiva.
A origem do GMMP
O GMMP tem como premissa o artigo J da Declaração e Plataforma de Ação de Pequim, que estabelece diretrizes e recomendações em busca de equidade de gênero. A metodologia da pesquisa é influenciada pelos problemas apontados no artigo, além de resoluções gerais próprias para enfrentamentos deles em diversas áreas da comunicação, como: mulheres em cargos de autoridade; aumentar reportagens que desafiam estereótipos de gênero; inclusão de grupos minorizados; e questões de gênero relacionadas ao ambiente digital.
A declaração é um documento aprovado na convenção de Pequim (Beijing) em 1995, um compromisso histórico firmado por 189 países para a busca de igualdade entre homens e mulheres. Ele foi idealizado durante a quarta Conferência Mundial sobre a Mulher, promovida pela Organização das Nações Unidas (ONU), e indica objetivos e ações estratégicas, distribuídas em 12 áreas diferentes. Dentre elas o artigo J, intitulado Mulheres e a Mídia, aborda estratégias voltadas para a área de comunicação midiática.
Como esse trabalho é realizado?
O Relatório Nacional (Brasil) do Projeto de Monitoramento Global da Mídia de 2025 amplia o alcance da pesquisa no Brasil em relação às outras edições. Participam 23 estados e o Distrito Federal, contabilizando 38 veículos, entre jornais, rádios, televisão e internet. O trabalho de pesquisa foi dividido em coordenações* nas cinco regiões do país e uma equipe de 195 monitoras e monitores.
Segundo o Guia de Amostragem (em tradução livre) do GMMP, a metodologia contém vários critérios. São selecionados veículos de mídia com audiência ampla e diversa, que já estejam consolidados e possuam credibilidade. Também são selecionados veículos de diferentes linhas editoriais e com diferentes estruturas de gestão: privado, independente, governamental, entre outros.
Para identificar os papéis de gênero, a pesquisa considera a presença feminina nas notícias, contabilizando quantos indivíduos homens e mulheres aparecem para cada tema. Além disso, a pesquisa verifica a função da pessoa na matéria (se ela é, por exemplo, testemunha ou especialista) e a sua ocupação.
A versão brasileira do relatório também explora três temáticas específicas: a presença de pessoas racializadas (cerca de 5%), de pessoas LGBTQIAPN+ (3%) e de mulheres economicamente vulneráveis (3%).
Nos dias 30 e 31 de março, o canal do projeto Diversidade na ECA transmitiu o evento de apresentação dos resultados brasileiros. Além de explicar a pesquisa, o encontro abriu discussões sobre os resultados do GMMP Brasil 2025, políticas públicas, representatividade de gênero no ensino e na pesquisa em jornalismo e boas práticas em jornalismo.
*Coordenações regionais: Priscila Freire e Cynthia Miranda (Norte); Paulo Fernando Lopes e Kenia Maia (Nordeste); Tamires Coelho (Centro-Oeste); Patrícia D’Abreu (Sudeste); Cátia Rodrigues e Daiane Bertasso (Sul). Além dos coordenadores, 195 monitoras e monitores distribuídos por todo o Brasil contribuíram para a produção do relatório - o nome de cada um pode ser verificado na publicação do relatório GMMP Brasil.