25 anos de Rosa dos Ventos: projeto de extensão oferece lazer e educação a crianças
Criada em 2001 por estudantes de Turismo, a entidade usa viagens e passeios como ferramentas de transformação social
O projeto de extensão Rosa dos Ventos, conduzido por estudantes do curso de Turismo da ECA, está celebrando 25 anos de história. Procurando viabilizar o acesso democrático à cidade e ao lazer, o grupo de turismo social organiza passeios e viagens com crianças em vulnerabilidade social apoiadas por ONGs da cidade de São Paulo. Estudantes de todos os cursos da USP podem participar e aproveitar a oportunidade de desenvolver suas habilidades pessoais e profissionais.
Após um período de inatividade decorrente da pandemia de Covid-19, o grupo retomou forças em 2024, com incentivo da professora Débora Cordeiro Braga, do Departamento de Relações Públicas, Propaganda e Turismo (CRP). Para as crianças atendidas, as atividades educativas desenvolvidas nos passeios são uma importante via de acesso ao exercício da cidadania.
Surgimento da Rosa dos Ventos
Oficialmente, o projeto estreou no inverno de 2001, levando os jovens do Programa Avizinhar ao Núcleo Picinguaba do Parque Estadual da Serra do Mar, em Ubatuba - SP. Naquela ocasião, estudantes guiaram um grupo de adolescentes das comunidades São Remo e Jaguaré em um passeio que rendeu para alguns a primeira visita ao mar e ao manguezal, além do contato com a natureza e a cultura local.
Erika Sayuri Koga, uma das membras fundadoras e hoje professora do curso de Gestão de Turismo do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia de São Paulo (IFSP), conta que o turismo ser algo comumente limitado a uma parcela da população que pode pagar por isso inquietou seu grupo de amigos. Daí surgiu a iniciativa.
“Ao entendermos que a viagem é uma ferramenta poderosa de transformação do ser humano, seja pela educação, por conhecer pessoas e lugares que nos apresentem de forma diferente a riqueza do mundo, [...] surgiu a ideia de organizarmos excursões pela cidade de São Paulo para levar jovens que participavam de projetos sociais para ‘fazer turismo’ pela própria cidade.”
Erika Sayuri Koga, professora do curso de Gestão de Turismo do IFSP
Segundo Thiago Allis, outro fundador do projeto e, atualmente, professor no curso de Lazer e Turismo da Escola de Artes, Ciências e Humanidades da USP (EACH), a consciência política e social daquele grupo pioneiro foi o motor da Rosa dos Ventos, uma vez que todos sentiam falta de “imaginar o turismo a partir de outras dimensões, especialmente aquelas ligadas a questões comunitárias”. Para ele, uma das intenções era ir na contramão de um ensino voltado a objetos comerciais.
A Rosa na prática
O projeto mantém o mesmo princípio desde seu início: usar o turismo para democratizar os espaços da cidade. Desde a reestruturação pós pandemia, a entidade já alcançou por volta de 140 crianças, promovendo idas ao cinema, ao Zoológico de São Paulo, ao Centro de Práticas Esportivas da USP (Cepeusp) e, mais recentemente, ao estádio do Morumbis. Essa última, pode ser conferida na matéria do Jornal da Tarde da TV Cultura:
Segundo a estudante de Turismo e vice-diretora da Rosa dos Ventos, Juliana Torres, é necessária a mobilização de um “ecossistema” de pessoas nos bastidores para que os passeios gratuitos ocorram. Hoje, o grupo possui cerca de 25 pessoas, divididas em diferentes núcleos: marketing, operacional, recursos humanos (RH), eventos e campanhas, comunicação e diretoria, que inclui o financeiro.
Além disso, para atrair novos colaboradores, anualmente, é realizado o evento Oriente-se. Nele, a gestão vigente apresenta o projeto para os estudantes interessados de toda a USP, desenvolve atividades em grupo e oferece um coffee break.
O financiamento das viagens não é fixo e isso é um desafio contínuo para as pessoas à frente do projeto. Para a arrecadação de recursos, a equipe promove a venda de brownies e bottons, campanhas de divulgação, a organização de eventos universitários e a busca constante por doações e parcerias. No entanto, segundo Marcela Ferreira, diretora de Eventos e Campanhas da Rosa, apesar das frustrações e das dificuldades burocráticas, o resultado final compensa o esforço.
“Eu acho que ver o sorriso e a alegria das crianças cura lugares que ninguém imagina. Ver a alegria delas no espaço é o que mais me deixa feliz e querendo avançar ainda mais nesse projeto.”
Marcela Ferreira, estudante de Turismo e diretora de Eventos e Campanhas do Rosa dos Ventos
Um legado
Além do forte impacto comunitário, a Rosa dos Ventos tem um importante papel na formação cidadã e acadêmica dos próprios alunos. Os estudantes avaliam que a participação no projeto oferece uma oportunidade real de retribuição à sociedade.
“Eu já fui uma daquelas crianças. Eu vim de uma realidade muito difícil e eu não tive acesso ao lazer tão fácil também. E eu vejo a Rosa como uma forma de devolver para a sociedade tudo de bom que eu tive aqui dentro da USP. Eu acho que me torna uma pessoa muito mais empática, que olha para o mundo de uma forma muito mais cuidadosa.”
Juliana Torres, estudante de Turismo e vice-diretora da Rosa dos Ventos
Essa sensação de esperança perpassa as gerações. Erika Koga destaca que a vivência prática a ensinou muito: "Ao me formar, levei um grande orgulho de ter iniciado e participado de um projeto de extensão, entendendo a relevância da universidade pública".
De gestão em gestão, a Rosa dos Ventos tem se mostrado como um importante ciclo de aprendizado para os estudantes e de transformação social para as crianças. Para Juliana, a intenção principal é semear novas gerações com acesso à universidade pública que possam dar continuidade a esse legado de transformação.






