Escola de Arte Dramática: diálogos com o tempo presente
No ano em que a ECA comemora 60 anos, visitamos memórias do que antecede sua fundação: a EAD e seu curso técnico de formação de atores
A Escola de Arte Dramática (EAD) se constituiu, nesses seus atuais 78 anos de existência, como um espaço referencial para a formação técnica de atores de todo o Brasil. Isso ocorre desde sua criação em 2 de maio de 1948 pelas mãos do artista de teatro Alfredo Mesquita (1907-1986) – que, por muito tempo, apoiando-se economicamente em sua mais do que conhecida herança familiar, deu sustentação a um programa pedagógico que foi, simultânea e ambiguamente, um anseio pessoal e uma necessidade histórica para o teatro brasileiro.
As perspectivas contextuais de meados do século XX, ligadas a projetos, então vigentes, de modernização do país, exigiram que as antigas companhias teatrais amadoras encontrassem caminhos de profissionalização e maneiras próprias de responder a esta outra sensibilidade nascente, crucial para dar lustre cultural à elite urbana paulista, que ainda se recompunha, logo após os anos do Estado Novo getulista, que interrompeu o mando oligárquico cafeeiro da Primeira República.
O próprio surgimento do moderno Teatro Brasileiro de Comédia (TBC), na mítica rua Major Diogo, nesse mesmo ano, pelas mãos de Franco Zampari e Francisco Matarazzo Sobrinho, é um processo revelador desta outra conjunção histórica emergente. A EAD, em seus primeiros tempos, logo após ter ocupado temporariamente o porão do Externato Elvira Brandão, foi acomodada no último andar do próprio prédio do TBC (hoje em vias de restauração pelo SESC-SP), com o nítido intuito de formar jovens atores para a nova lavra profissional que então se fazia necessária.
Mas é notável como a questão não era exclusivamente local, envolvia um Brasil em construção, cuja concretude se vislumbraria alguns anos mais tarde com a arquitetura modernista de Brasília como nova capital. Outros projetos modernizadores estavam ativos, em operação profunda no imaginário de todo o país, não só no teatro, com a EAD e o TBC, mas no cinema (com a Vera Cruz), na música (com a Bossa Nova ou as proposições de Villa-Lobos), na criação dos grandes Museus (MASP, MAM-SP, MAM-Rio) e da Bienal de São Paulo etc.
No Rio de Janeiro, à década de 1940 ainda capital do país, essa experiência foi vivenciada no teatro de modo semelhante, mas com alguma antecipação, através de acontecimentos também marcantes para a moderna compreensão estética das contradições de um Brasil recém-saído das garras da colonialidade e, depois, da dominação exclusiva de mãos oligárquicas das elites agrárias e conservadoramente monocultoras.
De um lado, a radical montagem urbana e modernista, em planos sobrepostos de realidade, memória e alucinação, de Vestido de Noiva, de Nelson Rodrigues, em fins de 1943, sob direção de Ziembinski e com o agrupamento amador Os Comediantes; e, de outro, a trajetória (de magnitude ainda pouco reconhecida pela história do teatro brasileiro) do Teatro Experimental do Negro (TEN), em 1944, por artistas ativistas como Abdias do Nascimento, Ruth de Souza, Aguinaldo Camargo, Léa Garcia, Wilson Tibério, dentre outros, são algumas experiências que respondem a essas primeiras mudanças estruturais.
Na EAD, a experimentação de novos repertórios, no âmbito da dramaturgia, e a exigência de sofisticação técnica para a presença cênica, assim como o apuro na construção de personagens que dialogassem com as novas perspectivas da sociedade, fizeram com que a abordagem pedagógica dos primeiros tempos estivesse apoiada no estudo dos clássicos da ocidentalidade, assim como em textos contemporâneos, alguns da autoria do próprio Alfredo Mesquita, como Um Abrigo (1952). Não se pode desprezar também a importância das traduções realizadas pelo primeiro diretor da EAD, de obras de Jean Genet, Tennessee Williams, Anton Tchekhov (algumas em parceria com sua irmã, Esther Mesquita, também filha de Júlio de Mesquita, representante central da nova burguesia paulistana e fundador do jornal O Estado de S. Paulo).
É amplamente legível, nas fotografias legadas pelo arquivo da EAD desse período inicial, o recorte racial exclusivamente marcado pela branquitude de uma elite que se espelhava, incomodamente, nesse novo fazer teatral em um país estruturalmente racista. Entretanto, é curioso notar como jovens atores vindos da classe trabalhadora, ainda que em sua maioria brancos, expuseram logo de partida a necessidade de amplificação do olhar e impuseram transformações para o modelo elitista que então se pudesse conceber.
A tradição da sopa do Dr. Alfredo, que foi ritual e cotidianamente servida à chegada do turno noturno de estudos para todos os atores, fazia com que a comensalidade se articulasse como um centro de encontros, fricção social, reflexão criativa e trocas de ideias. Para muitos atores e atrizes, a sopa foi uma forma estratégica de inclusão e permanência na Escola, diante dos estigmas sociais vivenciados pela profissão até os dias de hoje. Não por acaso, a EAD mantém viva a tradição de servir a sopa, agora promovida por jovens atores, calouros, na ocasião das festas de comemoração de seu aniversário anual.
E as muitas contradições sociais, econômicas e políticas do país não demorariam a se manifestar, poeticamente, na dissonância de múltiplas vozes: não por acaso, um grupo de atuação politicamente engajada nasceu de seus primeiros formandos. O Teatro de Arena de São Paulo, capitaneado por José Renato junto a jovens atores egressos da EAD, nasceu em 1953 e foi uma das forças responsáveis pela formulação de projetos cênicos esteticamente críticos às visões então vigentes sobre a realidade social das classes trabalhadoras.
Posteriormente, e com frequência inconstante, outros grupos teatrais relevantes foram criados a partir dos encontros vivenciados na Escola de Arte Dramática: apenas como alguns exemplos, e sendo certamente injusto com outros inúmeros grupos, citamos aqui o Pessoal do Victor, sob direção de Celso Nunes, que foi o ensemble responsável pela instauração do que viria a ser o curso de Artes Cênicas da Unicamp, na virada da década de 1970 para 1980; ou o agrupamento da Cia. São Jorge de Variedades, que se realizou nos tempos estudantis da maior parte de seus integrantes, ainda no antigo prédio, que tinha a Sala Preta como espaço precário de apresentações; também a formação do coletivo negro Os Crespos, já no início do século XXI, assim como a longevidade profissional do Grupo 59, nascido da turma de mesma numeração da EAD, são alguns pontos de inflexão nesta jornada histórica de formação de coletivos teatrais.
A incorporação do projeto da EAD pela Universidade de São Paulo, a partir de 1966, no âmbito da formação da Escola de Comunicações Culturais (depois transformada em Escola de Comunicações e Artes), foi oficializada em 1968 e concluída em 1969. Em julho de 1970, as instalações físicas da EAD foram finalmente transferidas para a Cidade Universitária. Em contexto politicamente tão ambivalente, para dizermos o mínimo, a luta pela preservação do projeto da Escola de Arte Dramática e de sua autonomia deu um passo importante, com sua institucionalização, ainda que marginal, no organograma da USP.
É historicamente reconhecível a importância que a EAD teve para a fundação da própria ECA e, sobretudo, a partir do seu antigo curso de Dramaturgia e Crítica, para a criação do Departamento de Artes Cênicas (CAC) como um desdobramento acadêmico. Esse curso era ministrado por Décio de Almeida Prado, Sábato Magaldi, Jacó Guinsburg, Anatol Rosenfeld, Augusto Boal, dentre outros, e gerou frutos seminais, como os livros Mito e Herói no Moderno Teatro Brasileiro, de Rosenfeld, ou O Teatro do Oprimido, de Boal, para a criação do Departamento de Artes Cênicas (CAC) como um desdobramento acadêmico.
Novos professores, outras vinculações trabalhistas, estabilidade institucional foram condições de base para o fortalecimento de um projeto profícuo, que formou ao longo de décadas uma constelação incontável daqueles que, certamente, figuram entre os maiores nomes do teatro brasileiro moderno e contemporâneo – assim como do cinema, da televisão e, hoje em dia, dos formatos digitais. Todas essas mudanças implicaram revisões pedagógicas importantes em relação ao projeto inicial.
Formaram-se na EAD, dentre muitos outros, artistas de diversas gerações, tais como Monah Delacy, Glória Menezes, Juca de Oliveira, Francisco Cuoco, Sérgio Mamberti, Antônio Petrin, Aracy Balabanian, Ney Latorraca, Esther Góes, Paulo Betti, Eliane Giardini, Edson Celulari, Lilia Cabral, Marisa Orth, Bete Dorgam, Zezeh Barboza, Ângelo Antônio, Matheus Nachtergaele, Luiz Miranda, Dan Stulbach, Georgette Fadel, Gero Camilo, Rogério Tarifa, Isabel Teixeira, Maeve Jinkings, Carol Duarte, Luciana Paes, Belize Pombal, Camila Cohen, Sidney Santiago Kuanza etc.
Outra grande revisão pedagógica foi realizada em início dos anos 1980, quando da elaboração da Carta Aquárius, que além da formulação e consolidação de novos modelos para a base curricular de formação nacional para atores, celebrou a multiplicidade de experiências como um mote para o redimensionamento dos modelos até então vigentes de ensino de teatro. O acordo entre muitas vozes, por vezes dissonantes, passou a caracterizar o mote formativo pautado pela diversidade, com a previsão do estabelecimento de um contínuo contato com diretores teatrais que estejam realizando trabalhos contundentes para o teatro brasileiro, em cada período letivo. É da máxima relevância para o Plano de Curso da EAD a passagem de muitos diretores teatrais pelas aulas de Oficina de Montagem Teatral, nos últimos períodos dos quatro anos de formação. Nesses contatos, os atores em formação têm a oportunidade de viverem, desde dentro, projetos concebidos em diálogo com a prática cênica objetiva, profissional.
Nos últimos tempos, e ainda em implementação, mudanças pedagógicas, éticas e artísticas têm ocorrido como reverberação direta da instauração, ainda que tardia, do sistema de cotas raciais, para pessoas autodeclaradas pretas, pardas ou indígenas (PPIs); foi quando, a partir de 2017 na USP, ações afirmativas se tornaram orientação para ações institucionais, o que trouxe reflexos vigorosos para a percepção do que seja um artista em formação e sua relação com os diferentes territórios de origem experimentados por cada singularidade.
Atualmente, algumas turmas da EAD são formadas por pessoas majoritariamente PPIs, que dialogam interseccionalmente com outras pautas políticas contundentes, relativas a questões de gênero, transgeneridade, equidade social, sexualidade, acessibilidade, isonomia, território, ancestralidade e muitas outras. Programas de letramento vão sendo articulados, seja sob a forma de palestras, seja sob a presença de projetos racializados, em suas pulsões poéticas.
Nessa caminhada, é possível que a Escola de Arte Dramática, em breve, possa contemplar de forma mais realista e proporcional a variedade de experiências que conflagram coexistência na realidade brasileira contemporânea. Esse é, hoje, um bom projeto para o nosso futuro, como escola pública.
Sobre o autor
O dramaturgo Antônio Rogério Toscano ocupa atualmente o cargo de Diretor da Escola de Arte Dramática. Sua trajetória como criador de espetáculos, como autor e como diretor, aproximou-o de trabalhos pedagógicos, que foram desenvolvidos na EAD, desde 2005, mas também no curso de Comunicação das Artes do Corpo da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC/SP), onde atua como professor desde 2006, e na Escola Livre de Teatro de Santo André (ELT), onde atuou de 1997 a 2015 (e ocupou o cargo de Coordenador Pedagógico em duas gestões não consecutivas), dentre outras. É formado em Artes Cênicas pela Unicamp, onde também cumpriu seu mestrado em Artes. Seu doutorado realizou-se junto ao Programa de Pós-Graduação em Comunicação e Semiótica. Em 2025, graduou-se novamente no Bacharelado e na Licenciatura em História, na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH). Atualmente, desenvolve pesquisas sobre dimensões performativas e rituais de populações da América antiga, particularmente nos Andes Centrais.