TV 3.0 amplia possibilidades para o jornalismo imersivo
Pesquisadores da USP exploram a nova tecnologia com o objetivo de criar formas mais expressivas de interação com o público
A TV 3.0, também batizada comercialmente de DTV+, é a próxima geração da televisão aberta e gratuita no Brasil. A tecnologia combina o sinal tradicional de antena (broadcast) com os recursos da internet (broadband), transformando os canais de TV em aplicativos interativos. Paralelamente à implantação experimental da TV 3.0 no País — que teve início em junho passado, com as primeiras transmissões —, o Laboratório de Arte, Mídia e Tecnologias Digitais (LabArteMídia), grupo de pesquisa e inovação em artes audiovisuais ligado à ECA, desenvolve pesquisas relacionadas à introdução da nova tecnologia no Brasil.
Coordenador do grupo, o professor Almir Almas, do Departamento de Cinema Rádio e Televisão (CTR) explica que os projetos foram desenvolvidos por meio de uma parceria com a Oxford Brookes University, do Reino Unido, chamada COIL (Collaborative Online International Learning). O convênio prevê o uso conjunto da plataforma Virtual Storytelling Application and Toolkit (VSAT), criada para desenvolver experiências imersivas e interativas em fotosferas 360/VR, que combina duas tecnologias de imagem e imersão digital: 360 graus (visão panorâmica ou esférica) e VR (virtual reality ou realidade virtual). O convênio prevê ainda parceria com o Laboratório MidiaCom do Instituto de Computação (IC,) da Universidade Federal Fluminense (UFF), coordenado pela professora Debora Muchaluat Saade, e com o Centro Federal de Educação Tecnológica (Cefet) Celso Suckow da Fonseca, do Rio de Janeiro, coordenado pelo professor Joel dos Santos.
De acordo com Almas, para usufruir dessa tecnologia, o espectador precisa de um aparelho de TV 3.0 e óculos do tipo headset, de realidade virtual. Quem não dispõe desses óculos, contudo, pode assistir aos conteúdos normalmente — embora sem a experiência imersiva.
Para o professor, a tecnologia oferece à sociedade novas maneiras de assistir à televisão e uma nova linguagem televisiva. “Qualquer avanço que você tenha em relação à tecnologia ajuda a sociedade a se desenvolver. Então, um avanço da televisão digital, como esse da TV 3.0, com realidade virtual imersiva, vai gerar novas maneiras de o público interagir com a mídia televisão e, consequentemente, novas formas de aprendizado e de interação com o conhecimento”, completa.
Colocar o público no local do acontecimento
Com os avanços possibilitados pelo desenvolvimento e pela implantação da TV 3.0, o LabArteMídia, a partir da mesma parceria com a Oxford Brookes University, produziu projetos de jornalismo imersivo para a DTV+ com o Laboratório MidiaCom e com o Cefet do Rio de Janeiro. Esse modelo narrativo coloca o público diretamente no local de um acontecimento por meio de tecnologias sensoriais e interativas, como imagens esféricas e óculos de realidade virtual.
Um dos projetos produzidos pelo laboratório da ECA é o documentário Guerreira, que narra a história de Aryannis, imigrante venezuelana que veio ao Brasil em busca de melhores condições de vida, mas acabou vítima de tráfico humano e foi aprisionada para servir de “mula” para redes de tráfico de drogas. Após escapar, foi acolhida pelo Centro de Apoio Pastoral do Migrante (CAMI), ONG que apoia imigrantes e vítimas de violência. Anos depois, realizou o sonho de conhecer o Cristo Redentor, no Rio de Janeiro, experiência que deu origem à produção. A obra foi dirigida pelos jornalistas Eduardo Acquarone e Deisy Feitosa e pelo professor Almir Almas e está disponível em português e inglês no VSAT e no YouTube.
Foto: reprodução @eduacquarone/Youtube.
Além de Guerreira, a equipe de Almas também produziu os documentários Dona Maria, que conta a história de uma mulher que viveu por muitos anos em condições análogas à escravidão na cidade de São Paulo, e Cidade Afundada, sobre o desastre socioambiental provocado pela mineração de sal-gema em Maceió (AL), em 2018.
Outro projeto do LabArteMídia é A América Antes de Nós, que traz imagens e informações sobre escavações arqueológicas no Parque Nacional Serra da Capivara, no Piauí. Ele tem direção, roteiro e apresentação de Deisy Feitosa.
Para Deisy Feitosa, o jornalismo imersivo é capaz de gerar maior empatia e conexão com as histórias narradas. “Entendo que o maior benefício é causar um impacto maior do que normalmente tentamos causar. Muitas vezes, as pessoas já não se sentem impactadas por notícias que se repetem, que são pesadas. Às vezes, como forma de proteção, elas não se envolvem nem se deixam tocar pelo teor dessas mensagens. Tentamos utilizar a linguagem do vídeo em 360 graus para proporcionar essa sensação de imersão, como se a pessoa estivesse diante daquele personagem, do seu sofrimento e da sua história”, explica a jornalista.
No entanto, segundo Eduardo Acquarone, o jornalismo imersivo ainda enfrenta desafios para alcançar o grande público. “Um dos grandes problemas é que, geralmente, para ver esses vídeos, precisamos de aparelhos específicos, como óculos especiais. Você precisa estar no lugar certo, porque a forma de exibir tudo isso ainda é muito difícil e cara, o que dificulta o acesso.”
Para o professor Almir Almas, os documentários mostram para as redes de televisão que é possível fazer um novo tipo de jornalismo, mais imersivo e expressivo. “Nós não criamos a possibilidade da realidade virtual, que foi viabilizada pelas tecnologias desenvolvidas para isso”, diz Almas. “Mas nós usamos a realidade virtual para criar um conteúdo político, ético, poético, tecnológico, estético, bonito.”
Publicado originalmente no Jornal da USP.