Revista Sala Preta completa 25 anos
Fundado em 2001, periódico especializado em artes cênicas ganha edição especial para celebrar aniversário
Dedicada às artes cênicas, a revista Sala Preta completa 25 anos de existência em 2026. Para comemorar a data, o Departamento de Artes Cênicas (CAC) da ECA – responsável pela publicação – fez o lançamento, no dia 21 de setembro, de uma edição especial da revista. A nova edição, de número 25, traz cinco textos que abordam a produção de livros e revistas voltadas para o cenário teatral no Brasil. “Sala Preta permite um contato com a contemporaneidade, fala do momento atual da dramaturgia”, afirma ao Jornal da USP o professor Henrique Rochelle, docente colaborador do Programa de Pós-Graduação em Artes Cênicas (PPGAC) e um dos editores da revista. A nova edição está disponível na íntegra, gratuitamente, no Portal de Revistas da USP.
Um dos artigos publicados na nova edição é A Sala Preta & o Céu Azul, assinado pelo professor Luiz Fernando Ramos, um dos fundadores de Sala Preta, em 2001. Nele, Ramos narra em tom pessoal os principais fatos ligados à história da revista, que, segundo ele, contribuiu para a sua formação como docente e pesquisador. O professor cita a sala preta – espaço cênico mais intimista, todo revestido de preto – que servia como palco tanto do Departamento de Artes Cênicas da ECA como da Escola de Arte Dramática (EAD), a escola técnica de teatro também mantida pela ECA. “A sala preta é um ambiente comum a todas as escolas de teatro brasileiras. Não há curso técnico, faculdade ou departamento acadêmico onde se ensina e se pratica teatro que não possua a sua, sempre um espaço enegrecido para conter todas as cores e vozes que se encenam no País”, escreve Ramos, explicando a origem do nome da revista. “Ao rememorar os passos e as passagens necessárias a sustentar um periódico por 25 anos, ao generalizar aquela sala que, servindo à EAD e ao Departamento de Artes Cênicas da USP, inspirou o nome de nossa revista, alcançava todas as salas pretas do Brasil e do mundo e a universalizava como um bem comum. Daí a conclusão tácita de que uma sala preta é tão amplamente reconhecível como o céu azul.”
Outro texto presente na edição comemorativa dos 25 anos de Sala Preta é Dramaturgia da Página: Algumas Reflexões sobre a Publicação Teatral no Brasil, da escritora e editora Ligia Souza. Nele, a autora destaca o papel de editoras como a Cobogó, a Javali e a Patuá na consolidação da dramaturgia publicada a partir dos anos 2000. “A percepção sobre o texto teatral como um material potente para a fruição na leitura autônoma é cada vez mais investigada e defendida pelas editoras”, destaca Souza.
Já o artigo Revistas Acadêmicas em Artes Cênicas no Brasil: Configurações do Campo Editorial e Articulações Políticas, também publicado na nova edição de Sala Preta, é assinado pela professora Alba Pedreira Vieira, da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). “O campo editorial das artes cênicas no Brasil é marcado simultaneamente por heterogeneidade institucional, desigualdades estruturais e capacidade de articulação coletiva”, escreve Vieira. “Ao contrário do que pode se pensar, as revistas seguem re(existindo) pelo compromisso que excede a lógica produtivista. Apesar das adversidades, nossa responsabilidade ética é com a circulação democrática do pensamento, com a produção crítica e com a existência de espaços nos quais as artes possam formular problemas, desafios, caminhos e possibilidades em seus próprios termos.”
Um retrato da produção científica relacionada à dramaturgia é feito pelo professor Henrique Rochelle no artigo Publicar Sem Perecer: Mapeamento das Revistas Acadêmicas de Artes Cênicas no Brasil, também disponível na nova edição de Sala Preta. No artigo, Rochelle reúne dados sobre origem, trajetória e características editoriais de 21 publicações sobre teatro editadas por diferentes instituições de ensino superior brasileiras, entre elas Cena, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), Pitágoras 500, da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), Móin-Móin, da Universidade do Estado de Santa Catarina (Udesc), O Mosaico, da Universidade Estadual do Paraná (Unespar), e Repertório, da Universidade Federal da Bahia (UFBA). “O mapeamento é contextualizado pela discussão da constituição do campo acadêmico das artes cênicas e do papel das revistas nesse processo, compreendidas como instâncias de produção e disputa de critérios de validação, legitimidade e consolidação institucional do conhecimento na área.”
Sala Preta traz ainda uma entrevista com a professora Diana Taylor, do Departamento de Estudos em Performance da New York University, nos Estados Unidos, concedida ao professor Marcos Bulhões, do CAC. Na entrevista, Taylor fala sobre a importância da publicação acadêmica de vídeos sobre produções em artes cênicas, enfatizando a biblioteca audiovisual on-line do Instituto Hemisférico de Performance e Política da Universidade de Nova York, coordenada pela professora por mais de 20 anos.
Edição impressa para comemorar
Com o apoio da direção da ECA, a edição comemorativa dos 25 anos de Sala Preta teve uma tiragem impressa, além de estar disponível na internet. “Com essa edição, tentamos registrar a particularidade deste momento e, principalmente, nossa alegria de ter um número impresso, o que não se tem desde 2011”, disse ao Jornal da USP Verônica Veloso, docente do CAC e também editora de Sala Preta, durante o lançamento da revista, no dia 21 de setembro.
Nos seus dez primeiros anos, Sala Preta era uma revista impressa. Em 2011 ela se tornou uma publicação quadrimestral on-line. Em 2021 a revista foi encerrada, o que provocou manifestações de protesto de pesquisadores e professores de várias partes do Brasil. “Então nós reunimos alguns professores em um corpo editorial, criando uma outra forma de gerir a revista”, lembra o professor Henrique Rochelle.
Normalmente, a cada edição é escolhido um dossiê temático, entre a variedade de opções que surgem tanto por propostas dos editores quanto por textos recebidos. A revista publica artigos acadêmicos, entrevistas, resenhas de livros, críticas de espetáculos e traduções. Os autores são todos pesquisadores e pesquisadoras de universidades, majoritariamente do Brasil. Ela é um meio de levar as pesquisas feitas em restritos grupos acadêmicos para um público mais amplo, destaca a professora Verônica Veloso. “A ideia é que não seja só da USP, justamente para não ter uma perspectiva endógena, mas uma diversidade de olhares e vozes. Temos até uma limitação para a publicação de artigos do nosso corpo docente, inclusive dos nossos doutorandos e mestrandos.”
A próxima edição de Sala Preta terá como tema Saberes da Aula. Serão publicados artigos sobre vários aspectos ligados ao ensino no campo das artes cênicas. “Vai servir para nós refletirmos sobre ensino e aprendizagem em diferentes áreas, porque as artes cênicas também têm a contribuir para os processos educacionais em diferentes contextos, em diferentes componentes populares”, acrescenta Verônica Veloso.
A revista Sala Preta edição especial comemorativa de 25 anos está disponível gratuitamente no Portal de Revistas da USP.
Publicado originalmente no Jornal da USP.
Imagem de capa: montagem de Nina Nassar com capa da revista Sala Preta.