Meio ambiente além da COP30: turismo busca se adaptar à transição climática
Pesquisa de professor do Departamento de Relações Públicas, Propaganda e Turismo tem financiamento da Embratur e vai relacionar impactos ambientais à competitividade turística do Brasil
Foto: acervo pessoal/Paulo Henrique Assis Feitosa.
Desde 1995, as Conferências das Partes (COPs) anualmente reúnem governantes, organizações e membros da sociedade civil para discutir medidas de combate às mudanças climáticas. Neste ano, a COP30 acontece entre os dias 10 e 21 de novembro em Belém, no Pará. Como parte dos esforços globais, diferentes setores da economia têm se engajado na busca de modos de operação mais sustentáveis — inclusive o turismo que, segundo dados do Conselho Mundial para a Viagem e o Turismo (WTTC), emitiu 7.3% do total de Gases do Efeito Estufa (GEES) no mundo no ano passado, majoritariamente por meio do transporte aéreo.
Foi pensando nesse contexto que o professor Paulo Henrique Assis Feitosa, do Departamento de Publicidade, Relações Públicas e Turismo (CRP), idealizou a pesquisa Competitividade Internacional do Turismo no Brasil no Contexto de Transição Climática. O projeto será realizado em parceria com a professora Yákara Vasconcelos, da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), e com alunos da graduação e pós-graduação tanto da USP quanto da universidade pernambucana. A pesquisa contará com o financiamento da Agência Brasileira de Promoção Internacional do Turismo (Embratur) e tem sua finalização prevista para agosto do próximo ano.
As COPs
As Conferências das Partes foram criadas depois da edição de 1992 da Conferência das Nações Unidas sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento, evento que ficou mais conhecido como Rio-92, ECO-92 ou Cúpula da Terra. Naquele ano, na cidade do Rio de Janeiro, 179 países concordaram com a Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima (UNFCCC, na sigla em inglês), que definiu o objetivo de estabilizar as concentrações de gases de efeito estufa na atmosfera de uma maneira que não prejudique a vida no planeta Terra. Desse modo, as “partes” na sigla COP se referem às partes assinantes da UNFCCC. A primeira COP aconteceu em 1995, em Berlim. Na ocasião, foi selado o acordo de Berlim, que declarou que apenas os compromissos individuais e voluntários da UNFCCC não eram suficientes para frear as mudanças climáticas. Já a terceira edição, de 1997, teve como resultado o Protocolo de Kyoto, que estabeleceu metas mais claras e rígidas de redução das emissões de gases para todos os países desenvolvidos. Tendo se passado 33 anos desde a Rio-92, esta será a primeira edição de uma COP em território brasileiro.
“Toda a nossa vida é baseada em impacto [ambiental] e emissão de carbono. Existem as calculadoras [de pegada de carbono]. Então, hoje a gente consegue ter um balanço bom do que o turista emite quando ele faz escolhas de viagem e daí, desse impacto total, uma parcela importante é como ele se desloca.”
Paulo Henrique Assis Feitosa, docente do Departamento de Propaganda, Relações Públicas e Turismo (CRP)
Sustentabilidade e turismo
Paulo se formou em Economia na Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes), onde também realizou seus estudos de pós-graduação. Desde seu mestrado ele trabalha com o tema da economia de baixo carbono e, atualmente, é responsável por disciplinas relacionadas a aspectos econômicos e financeiros do turismo. Ele explica que a economia de baixo carbono “entende que o crescimento econômico é importante para gerar desenvolvimento”, mas deve trabalhar com formas de reduzir o impacto ambiental dos diferentes setores.
Sobre a pesquisa selecionada pela Embratur, Paulo conta que “a proposta foi estudar os impactos do turismo nisso que a gente chama de transição climática”. Ele explica que a maior parte das emissões do turismo vem do transporte, principalmente dos vôos, mas também no deslocamento interno no destino. Em contrapartida, o professor explica que o perfil do turista internacional tem se transformado e se tornado mais consciente e preocupado com questões como a sua pegada de carbono, conceito que se refere à emissão de GEEs por cada indivíduo. “É o que a gente chama de comportamento pró-ambiental.” Além disso, Paulo menciona a possibilidade de que países desenvolvidos criem tarifas para outros países sobre a emissão de carbono na atmosfera, o que poderia tornar o Brasil um destino menos competitivo — ou seja, menos atrativo a turistas internacionais.
Com o gráfico abaixo, é possível comparar as emissões de GEEs nos países que detém as 15 maiores economias mundiais. Enquanto o Brasil ocupa a 10ª posição entre as maiores economias do mundo, o país é o 6º que mais emite gases de efeito estufa.
O professor explica que “o Brasil quer se posicionar como um grande receptor internacional, um destino desejado, mas por outro lado existe uma ameaça, que é que as pessoas passem a observar o Brasil como um problema [ambiental]”.
Paulo também diz que não existe um só tipo de turista internacional. Ele cita o caso de pessoas de países vizinhos, como a Argentina e a Bolívia, que podem vir ao Brasil de carro, comumente para as praias ou para cidades como São Paulo por motivos profissionais.
A pesquisa
Iniciada em outubro deste ano, a pesquisa terá duração de nove meses, terminando em agosto do ano que vem. A metodologia do projeto envolve a análise quantitativa de dados diversos produzidos nacional e internacionalmente — como os da Agência Nacional de Aviação Civil (Anac), Organização Mundial do Turismo (OMT) e das estimativas de emissões de GEEs do Google Flights. Segundo a proposta, “o uso articulado desses dados permitirá tanto examinar a evolução histórica do turismo internacional no Brasil entre 2010 e 2024 quanto identificar mudanças de comportamento de turistas em função de maior disposição à mitigação de emissões de GEE”.
O objetivo geral do projeto é entender os determinantes e limites da competitividade do turismo internacional no Brasil, “considerando a transição para uma economia de baixo carbono”. Além disso, pretende-se analisar o papel das mudanças climáticas na configuração da demanda e da oferta turísticas brasileiras. O projeto também delimitou cinco objetivos específicos:
- Analisar comparativamente a evolução do Brasil no turismo internacional entre 2010 e 2024, identificando padrões de crescimento e estabilidade em relação a destinos concorrentes;
- Identificar emissores de GEEs estratégicos e traçar um perfil do turista internacional que vem ao Brasil;
- Avaliar as características das viagens realizadas com relação aos modais de transporte utilizados, duração e padrões de consumo e, a partir disso, estimar a emissão de carbono e quantificar os impactos ambientais;
- Analisar a competitividade internacional do Brasil, considerando variáveis econômicas, ambientais e institucionais, e projetar cenários futuros;
- Elaborar recomendações de políticas públicas, estratégias de promoção turística e prognósticos sobre a posição do Brasil no mercado.
Com relação ao terceiro objetivo, Paulo aponta a possibilidade de criar corredores de baixo carbono. Na prática, isso significa “trazer um volume importante de pessoas, mas elas percorreriam um só trajeto, pensando em escalas, que teriam um impacto reduzido”.
O projeto descreve que, como resultado dos esforços empreendidos na pesquisa, é esperada a produção de “diagnósticos sobre a posição internacional do Brasil, estimativas da pegada de carbono das viagens ao país e cenários de competitividade no contexto climático”. Esses resultados devem servir para embasar políticas públicas relacionadas ao turismo, como campanhas de promoção internacional direcionadas ao perfil dos turistas com preocupações ecológicas.
A Embratur
A Agência Brasileira de Promoção Internacional do Turismo (Embratur) é uma autarquia ligada ao Ministério do Turismo brasileiro. Enquanto o Ministério é responsável pela política nacional do turismo, a Embratur realiza a promoção internacional do turismo no Brasil. Paulo explica que “ela [a Embratur] faz esse papel de articular e decidir onde empenhar os recursos para promover o turismo internacional”.
A pesquisa do professor foi uma das quatro escolhidas pelo edital do projeto Em Tese, realizado em parceria entre a Embratur e a Associação Nacional de Pesquisa e Pós-Graduação em Turismo (Anptur). Foram selecionadas pesquisas que trabalham com a temática do turismo internacional e que estão atreladas a programas de pós-graduação.