Primeira revista da ECA foi digitalizada e está disponível online
Pioneirismo e pertinência do conteúdo dos textos desde a década de 60 justificam sua disponibilização
Criada nos anos 60, a primeira revista da ECA foi digitalizada e já está disponível online para consulta. Inicialmente, sob o título Revista da Escola de Comunicações Culturais, lançou dois volumes, em 1967 e 1968. No ano seguinte, a Escola adota o nome atual e a publicação passa a se chamar Comunicações e Artes, com 35 edições ao longo dos anos seguintes.
O projeto de digitalização das revistas foi motivado porque, de acordo com a bibliotecária da ECA Marina Macambyra, os textos presentes nessas revistas demonstram o pioneirismo dos pesquisadores e ainda são referências teóricas procuradas hoje em dia.
"As pessoas encontram os textos por citações e, com alguma frequência, elas vêm procurar as revistas devido à importância histórica e para entender o que estava sendo falado sobre o assunto naquela época".
Marina Macambyra, bibliotecária da ECA
Integrando as distintas áreas de estudos da Escola, as primeiras revistas permitiram que as pesquisas desenvolvidas na ECA fossem divulgadas. E, muitas vezes, elas possuem características interdisciplinares por essência, pois abordam temas da comunicação, cultura, educação e artes. A número 1, reúne textos do primeiro diretor da ECA, Julio García Morejón, e de outros docentes de destaque, como Lupe Cotrim e Freitas Nobre. A décima publicação após a mudança de nome, de 1981, foi uma edição especial dedicada às artes.
Confira, a seguir, um pouco sobre esses artigos atemporais presentes nas revistas, que falam sobre avanços na comunicação, no teatro e no ensino das artes plásticas no Brasil:
Fotos: Reprodução/Biblioteca da ECA
Os meios de comunicação na nova era
Seja pelas plataformas de streaming, pela Inteligência artificial (IA) ou pelo armazenamento de dados na nuvem, o acesso à informação ocorre, cada vez mais, por meio de plataformas desenvolvidas em países estrangeiros. Esse é um tema atual, mas a preocupação em relação a esse acesso e o intermédio de governos estrangeiros já eram alertados por Freitas Nobre, em 1967.
O professor de Jornalismo, embora seja um dos fundadores do curso, passou a integrar o corpo docente da ECA em 1968, mas já na primeira edição da revista colaborou com o artigo Os satélites e o direito de informação. Sua preocupação era assegurar os direitos fundamentais das pessoas através de leis que acompanhassem o desenvolvimento tecnológico da época, sem ignorar a complexidade da regulamentação estatal dos meios de comunicação, com a possibilidade de censura.
O jornalista apontava a capacidade destrutiva dessas novas tecnologias no contexto de Guerra Fria, além de alertar sobre os riscos do uso de imagens nesses acessos para a disseminação de informações.
“[...] a imagem é universal e ela pode exprimir mais intensamente que o som um estado de espírito e desenvolver um movimento de opinião ou de idéias, com a instantaneidade das transmissões diretas.”
Freitas Nobre, fundador do curso de Jornalismo na ECA
Na mesma edição, o professor da ECA e criador do curso de Relações Públicas (RP), Teobaldo de Andrade, traz outras perspectivas com o artigo Conceito psico-sociológico de público. Segundo ele, a quantidade de informações disponíveis não necessariamente aproxima as pessoas de questões de maior alcance - políticas e econômicas - devido a dificuldades cotidianas que elas vivenciam.
Ele aponta que a disseminação nos meios de comunicação contribui para que as pessoas selecionem individualmente as informações e opiniões, participando menos da discussão pública e coletiva. Mas também mostra que, devido à melhora na escolarização do público, as pessoas estão cada vez mais capazes de entender temas complexos desde que os comunicadores abordem as controvérsias de forma clara e acessível.
“Não se deve ser tão pessimista ao julgar que as pessoas, no mundo contemporâneo, dificilmente encontram-se aptas a pensar logicamente.”
Teobaldo de Andrade, fundador do curso de Relações Públicas na ECA
O teatro em São Paulo
Ainda na primeira edição da revista, Alfredo Mesquita conta as origens do teatro paulista, não apenas através da pesquisa, mas também com relatos de suas vivências. Ele participou de iniciativas de teatro amador e da fundação da Escola de Arte Dramática (EAD), sendo seu primeiro diretor.
O autor atribui a primeira produção do teatro paulistano amador a Afonso Arinos de Melo Franco, em 1916, argumentando que as apresentações anteriores eram de teatro itinerante. Afonso, inspirado em expressões artísticas nordestinas, organizou no Teatro Municipal um Reisado e foi patrocinado pela Sociedade de Cultura Artística. Falecendo logo após a investida, sua esposa Antonieta Prado deu continuidade aos seus projetos com o mesmo financiador, tendo também o apoio da Prefeitura de São Paulo.
Apesar dessas e outras tentativas, o teatro ainda não havia se consolidado no estado. Assim, Alfredo conta que criou suas próprias apresentações: em 1936, com Noite de São Paulo e, em 1938, com Casa Assombrada, peça que retrata um levante de pessoas escravizadas.
Outra passagem destacada no artigo é a fundação, por Alfredo e um amigo, da Livraria Jaraguá, frequentada por artistas e intelectuais de São Paulo, como Mário de Andrade. Nesse mesmo espaço, criaram o Grupo de Teatro Experimental (GTE) que existiu entre 1942 e 1948. Esse, e as iniciativas do Teatro Brasileiro de Comédia (TBC) e o Grupo Universitário de Teatro (GUT) constituíam o teatro amador de São Paulo. O cenário trouxe uma perspectiva otimista em relação ao futuro do teatro, mas ainda havia problemas recorrentes com os artistas entusiastas que o integravam:
“Ora era a esposa do artista reclamando a ausência do marido, ora a noiva do ‘galã’ ameaçando rompimento por não poder noivar à vontade, ora o cansaço e os nervos da estrela exausta ou os pais das filhas ou filhos artistas improvisados sem tempo para estudar, correndo o risco de ‘ir ao pau’ nos próximos exames... E assim por diante…”
Alfredo Mesquita, fundador e primeiro diretor da EAD
O autor também ressalta que, diferente do Rio de Janeiro, São Paulo não era uma capital federal, por isso tinha mais dificuldades para conseguir financiamentos e realizar grandes produções. Segundo o professor, o teatro brasileiro foi desenvolvido por pessoas sem experiência, que abriram o caminho para novos artistas. Ele registrou que o teatro “saiu todo ele do tremendo e desinteressado esforço dos amadores paulistas e cariocas [...]”.
O texto também menciona os encontros entre o teatro paulista e o fluminense para o avanço dessa arte, por exemplo, o que Alfredo chama a Temporada para os Intelectuais, uma grande produção com diversas peças, que reunia artistas locais e estrangeiros em São Paulo no ano de 1944. Essa iniciativa foi organizada pela atriz e diretora consagrada do Rio de Janeiro, Dulcina de Moraes.
Em maio de 1948, Alfredo Mesquita criou a Escola de Arte Dramática, em meio a proliferação de diferentes iniciativas paulistas que, eventualmente, também se conectavam com iniciativas fluminenses. Ele funda a EAD “procurando colaborar ainda na formação desse mesmo teatro nacional”. No artigo, o autor também comenta a anexação da Escola à USP, que ocorreu em 1969.
Desvalorização no ensino da Arte: quando e como surgiu isso?
Tanto o estudo quanto a prática das artes no ensino básico não foram introduzidas e se desenvolveram no Brasil com facilidade. Na sétima edição da revista Comunicações e Artes, publicada em 1977, a professora emérita da ECA e pioneira no ensino da arte, Ana Mae Barbosa, trata exatamente dessa temática com o artigo Dos preconceitos contra o ensino da arte: Suas origens no século.
A pesquisadora faz uma análise histórica que cobre 150 anos do ensino de artes plásticas na educação. Segundo ela, o preconceito para implementação do ensino tem fatores estéticos, políticos e sociais.
“[...] o ensino artístico no Brasil só agora e muito lentamente se vem libertando do acirrado preconceito com o qual a cultura brasileira o cercou durante quase 150 anos que sucederam à sua implantação.”
Ana Mae Barbosa, pioneira em ensino da arte e professora emérita da ECA
Ana Mae lembra que a chegada da corte portuguesa no Brasil também trouxe a Academia Imperial de Belas Artes, no século 19. Nesse contexto, o estudo da arte também era uma forma de manutenção do poder, pois era segregada à camada social mais rica e aos monarcas. Para a autora, isso reforçava a arte como uma atividade supérflua e que fortalecia a distinção entre diferentes classes sociais.
O artigo aponta que a introdução de vertentes trazidas pela influência estrangeira, principalmente a francesa, com o neoclassicismo, causou uma mudança abrupta na tradição brasileira. No país, havia uma identificação mais forte e mais estruturada com o barroco-rococó, estilo utilizado por artistas populares e mestiços, que não eram reconhecidos como artistas, mas como artesãos, pelas camadas mais ricas da sociedade. A autora explica que em um país marcado pela escravidão, há uma associação do trabalho manual e técnico com classes sociais inferiores.
Para Ana Mae, os preconceitos do Brasil Império foram carregados para o período Republicano e, muitas vezes, reforçados com outra roupagem para a nova época. Enquanto isso, o ensino da arte ficou segmentado, principalmente para implementação na indústria - como por exemplo o desenho técnico -, e não como um campo de estudo por si só.
Esse e outros artigos da primeira revista da Escola agora podem ser acessados no site da ECA.
Imagem de capa: Montagem por Ana Vitória Barbosa para com: Julio Garcia (Foto: Autoria desconhecida), Freitas Nobre (Foto: Reprodução/Ágora ECA), Teobaldo de Andrade (Foto: Autoria desconhecida), Alfredo Mesquita (Foto: Arquivo/EAD), Lupe Cotrim (Reprodução/Wikimedia Commons) e Ana Mae Barbosa (Reprodução/Ágora ECA).