Mas, você já parou para pensar em como essa comissão atua e como realmente afeta a vida dos estudantes, docentes e funcionários da Escola?
Nesta matéria, entrevistamos membros da CIP para entender a história da comissão, quais são suas principais ações e como elas podem ajudar a comunidade a usufruir plenamente da Escola. Confira!
Uma intermediária entre a ECA e a Prip
Daniela Osvald Ramos (CCA), presidente da CIP. Foto: acervo pessoal/ Daniela Osvald
A Comissão de Direitos Humanos (CDH) da ECA se tornou uma instância local da Prip e passou a se chamar Comissão de Inclusão e Pertencimento (CIP) em 2022. “A criação de uma pró-reitoria”, explicam Daniela Osvald e Marcelo dos Santos, presidente e vice-presidente da CIP, “implica num efeito cascata de criação de uma estrutura que vai se relacionar com essa pró-reitoria”. Assim, a comissão assume o papel de ser um braço da pró-reitoria dentro da unidade, fazendo um “meio de campo” entre as exigências da Prip e as necessidades da comunidade ecana.
As ações da comissão giram em torno de:
1) Implementar ou replicar as ações da Prip na unidade;
2) Criar eventos e materiais voltados para a inclusão e pertencimento;
3) Fazer atendimentos relacionados ao tema.
As ações da Pró-reitoria são replicadas pela Comissão de diferentes formas, a depender do tipo de portaria. “A Prip publica anualmente um edital de bem-estar e pertencimento voltado para os funcionários”, explica Daniela, mencionando uma das ações específicas da Pró-reitoria. Nesse edital, os funcionários submetem projetos vinculados ao tema e cabe à CIP, primeiro, divulgar que existe um edital e, segundo, decidir qual projeto será contemplado com a verba da Prip. A realização do projeto em si ainda fica a cargo dos funcionários, como aconteceu com o projetoRedes de Bem-Estar, realizado na ECA em 2024, ou o Pausa para Si, em realização este ano.
Marcelo dos Santos (CBD), vice-presidente da CIP. Foto: Susana Narimatsu/ LAC-ECA
“As portarias que não são projetos” explica Mayza Bendinskas, estudante do curso de Publicidade e Propaganda e estagiária da CIP, “são para ações contínuas, que tão rolando o tempo todo na ECA”. A portaria 59, por exemplo, estabelece a Política de Inclusão de Pessoas com Transtorno do Espectro Autista (TEA) e define que as unidades devem receber e acompanhar pedidos relacionados à acessibilidade. Mayza explica que, na prática, “a gente está no papel de receber os pedidos e de fazer uma análise também, dos laudos médicos e do plano de adaptações” que então é passado para instâncias como a coordenação do curso ou a administração da ECA.
Mayza conta que as demandas vão desde “abono de faltas” até a “construção de rampas”, e que boa parte delas é atendida.
Quem faz parte da Comissão?
Docentes, discentes e funcionários contam com representação na CIP. A presidência e vice-presidência são eleitas pela Congregação da ECA e têm mandato de dois anos. Também são eleitos dois representantes discentes e um representante de funcionários, todos com um ano de mandato.
Cada departamento pode indicar dois representantes docentes com mandatos de três anos. Além dessa representação de departamentos, o orientador de arte dramática Victor Walles de Sousa representa o conselho deliberativo da Escola de Arte Dramática na comissão.
Atualmente, a CIP da ECA também conta com o trabalho do secretário Roberto Elias Jugdar (funcionário da EAD) e da estagiária Mayza Bendinskas de Carvalho (CRP).
As reuniões da CIP ocorrem mensalmente (com exceção de janeiro e julho). Nelas são discutidas ações de inclusão e pertencimento, além de demandas surgidas a partir de atendimentos. Todos os membros participam dessas reuniões, a maioria com direito a voto.
Das portarias da Pró-reitoria às ações na unidade
Oficina e vivência de Cultura Ballroom. Foto: Reprodução/CIP-ECA.
Além de implementar ações e portarias da Pró-Reitoria, a Comissão realiza eventos e produz materiais voltados à inclusão e pertencimento. Esses eventos são planejados pela própria CIP durante suas reuniões e buscam atender, por um lado, as metas estabelecidas pela Prip e de outro, às demandas específicas da unidade relacionadas ao tema. “Esses eventos”, explica o professor Marcelo, “são também uma porta, é uma forma da gente coletar essas demandas e entender melhor como é que essas demandas se manifestam na unidade.”
Uma das ações destacadas pelos entrevistados foi a vivência de cultura Ballroom com oficinas de Voguing, um estilo de dança ligado à cultura negra e LGBTQIAPN+. Ao todo houve três encontros: um em junho e dois em agosto deste ano, que reuniram diversos estudantes, tendo o aluno de Artes Cênicas João Paulo Tourinho (CAC), como instrutor. “O Ballroom já acontecia entre os estudantes”, comenta Mayza, que deu a ideia para o evento. A estagiária explica que a CIP é “muito aberta a explorar essas ideias que, às vezes, podem ser um pouco arriscadas”, mas que geram valor e agregam na vida das pessoas:
Mayza Bendinskas, estagiária da CIP. Foto: Maria Luiza Negrão/LAC-ECA.
"Quando é que uma comissão estatutária da Universidade de São Paulo falaria para todo mundo: ‘Galera, vem aqui, vamos rebolar até o chão ouvindo, sei lá, Azealia Banks’. Ninguém ia fazer isso, sabe?"
Mayza Bendinskas, estudante de Publicidade e Propaganda e estagiária da CIP
Roberto Elias Jugdar. Foto: Weslley Andrade/LAC-ECA
Atualmente, há diversas opções de atendimento da CIP para membros da comunidade ecana que precisem tirar dúvidas ou resolver conflitos. Entretanto, essa variedade pode confundir alguns usuários: “eu vou para quem estiver mais perto?”, perguntaria um ecano desavisado. Essas “múltiplas portas”, explica o secretário Roberto Jugdar, servem para que o solicitante opte pela via na qual se sentir mais confortável, ou pela opção mais adequada às suas demandas.
O Sistema USP de Acolhimento (SUA), por exemplo, é uma porta de escuta que independe da CIP ou da ECA, ainda que possa ser acionada via Comissão. O SUA é voltado para registrar casos de violência e violações de direitos, no sentido de aplicar sanções aos responsáveis. Conforme Roberto explica, ela serve para quando a questão extrapola os limites da grave ameaça ou violência. O principal meio de acesso ao SUA é via formulário, mas é possível que solicitações que tenham partido de outros canais ou instâncias sejam levadas ao SUA.
Como a CIP herdou o serviço de escuta da antiga Comissão de Direitos Humanos (CDH) da ECA, ela também realiza o acolhimento e resolução de conflitos. Nesse caso, a comissão é responsável por fazer uma escuta inicial e a partir daí contatar as partes, escutar todos os lados, fazer reuniões e conciliar os litigantes, inclusive solicitando a intervenção de outros órgãos da Escola, quando é o caso. Demandas que não envolvam conflitos podem ser resolvidas já no contato inicial, ou encaminhadas para as instâncias adequadas dentro do Departamento ou da Escola. Via de regra, a CIP não aplica punições, mas resolve “ruídos de comunicação” e a principal forma de entrar em contato para solicitar esse tipo de auxílio é pelo e-mail cipeca@usp.br.
Membros da CIP em evento sobre os desafios da inclusão. Foto: Reprodução/CIP ECA
Para casos que envolvam saúde mental, Roberto recomenda o Programa Ecos, da Prip. O Programa conta com atendimento online e presencial, por meio dos quais o solicitante pode ser encaminhado às redes de cuidado internas ou externas à USP. Mayza comenta que além dessas portas há um canal de ouvidoria da ECA que pode ser usado para a resolução de conflitos, reclamações e dúvidas.
Qual é o resultado das ações da CIP na ECA?
"Qual é o resultado imediato que eu posso te falar? O mapeamento de um monte de problemas que sempre existiram e nunca foram falados."
Daniela Osvald, docente do CCA e presidente da CIP.
Daniela e Marcelo destacam a importância de trazer à tona problemas que não eram falados dentro da unidade, desde conflitos entre as pessoas até obstáculos estruturais à permanência e inclusão dos membros da comunidade. “É um ecossistema, não é?” explica a professora, “geralmente, esses problemas de inclusão e pertencimento que emergiram, estão ligados. É muito raro que isso seja algo próprio só dos indivíduos. Isso está ligado a uma estrutura maior.
“Ela [a CIP] tá com muitas ações que têm uma bandeira forte em direitos humanos, que eu acho que é um ponto fundamental a ser debatido e ampliado dentro da universidade” complementa o secretário Roberto Jugdar. Para Mayza, falar sobre esses temas amplia a noção sobre a sua importância na unidade, o que abre o caminho para ainda mais ações voltadas à inclusão na universidade.
"Antes de ter a Prip, até tinha algumas ações, mas ter uma Pró-reitoria que fizesse só o trabalho de inclusão e pertencimento fez com que isso fosse mais visto, fosse mais pensado e que fosse, consequentemente, gerar mais ações, né? E acho que isso acontece com a CIP também."
Mayza Bendinskas, estudante de Publicidade e Propaganda (CRP) e estagiária da CIP