Melodia Ancestral: curta de ex-aluna estreia na HBO Max e em canais a cabo
Filme de Beatriz Costa investiga história de seu avô, maestro de uma orquestra popular; produção foi contemplada em programa de incentivo a jovens cineastas negros
Melodia Ancestral, curta documental de Beatriz Costa, formada em Audiovisual pela ECA, acaba de estrear na plataforma HBO Max e no canal a cabo HBO. O filme é uma das três produções realizadas na segunda edição do programa de aceleração de talentos Black Brazil Unspoken - Narrativas Negras Não Contadas, da Warner Bros. Discovery Access (WBD Access). Os outros curtas contemplados pelo programa são Meu Nome é Tiana, de Dafny Bastet, e Camisa 9, de Guilherme Baptista. Todos terão uma sessão extra nos canais TNT, TLC e Cinemax ao longo dos próximos dias.
O documentário de Beatriz investiga a trajetória de seu avô, maestro negro de uma orquestra popular que animava bailes na periferia de São Paulo entre as décadas de 1950 e 1980. A produção resgata memórias familiares e materiais de arquivo, conectando passado e presente, e reflete sobre os desafios enfrentados por artistas negros e a importância de preservar a memória musical e cultural da comunidade. Além de Beatriz, outros ecanos integram a equipe de Melodia Ancestral: os graduados em Audiovisual Laís Vallina (turma 2018), técnica de som direto, e Marlon Carvalho (turma 2020), microfonista, e Natália Miotto, violoncelista e personagem do curta, que ingressou em 2020 na graduação em Música.
“A vontade de contar essa história sempre existiu. É uma narrativa que escuto desde criança, e que minha família tenta tornar pública há anos, muito antes de eu nascer”, conta Beatriz sobre o surgimento do curta. Foi ainda durante a faculdade que ela teve a ideia de fazer um filme, a princípio como uma obra de ficção. A mudança para o documentário só veio mais tarde. “Por algum motivo, eu ainda não acreditava que a história do meu avô, por si só, fosse suficiente. Tanto que só me inscrevi no programa da WBD no último dia possível, porque demorei a reconhecer que a trajetória dele era, de fato, potente, rara e necessária de ser contada.”
Os três curtas que estreiam agora foram selecionados entre os dez projetos desenvolvidos e apresentados pelos finalistas do programa, após a conclusão de um ciclo formativo remunerado oferecido aos participantes no decorrer deste ano. Para Beatriz, essa formação contribuiu muito para sua evolução como artista e realizadora audiovisual: “pensar o filme ao lado de roteiristas, produtores e diretores experientes, envolver o jurídico e, semanalmente, estar sempre reconsiderando o que era mais interessante para o curta foi uma experiência inédita para mim.” Ela destaca as mentorias de Chica Andrade, diretora, roteirista, produtora e atriz que acompanhou os finalistas ao longo do ciclo formativo. “Conversar sobre o projeto com ela e ouvir os conselhos de alguém tão experiente e empática fez o filme se aprofundar em si mesmo, fazendo ele ser algo que não era apenas mais apelativo para o streaming, mas também mais conectado ao que eu queria expressar.”
Até a estreia, a família de Beatriz havia visto apenas pequenos trechos do filme durante a pós-produção, e a reação dos parentes nessa etapa já foi o bastante para que a cineasta tivesse certeza de que estava no caminho certo. “O desejo que todos tinham de que essa história fosse contada, que existisse um registro maior da trajetória do meu avô e da Orquestra Marabá, era tão grande que o simples fato de o filme estar sendo realizado já emocionou todo mundo.” Ainda assim, é impossível ignorar as expectativas que acompanham qualquer estreia: “Espero muito que aprovem o resultado e que eu tenha conseguido fazer jus ao grande homem que foi o Maestro Antônio Vaz do Nascimento.”
“Resistência que atravessa gerações”
Beatriz conta que sua “jornada no mundo das artes” teve início em 2016, quando cursava teatro. Foi em 2018, ao dirigir seu primeiro curta-metragem durante um curso livre de cinema, que ela viu o audiovisual como possibilidade de profissão. Com a graduação, desenvolveu os fundamentos de áreas como roteiro, produção e direção, que seguiu explorando após formada: “eu senti uma necessidade gigante de continuar aprendendo mais sobre e continuar escrevendo e realizando novos projetos.”
Quando compara os desafios que encontra hoje como artista negra àqueles enfrentados pelo seu avô, Beatriz afirma que houve algumas mudanças, “mas a estrutura continua sendo a mesma. A história do meu avô enfrentou um apagamento quase total. Ele era um homem preto regendo uma orquestra em uma época em que isso não era esperado e quem nunca havia escutado a Orquestra Marabá questionava até a qualidade da arte deles.” Hoje, segundo ela, essas barreiras se apresentam de maneiras mais sutis, como na escassez de oportunidades e investimento e na dificuldade para artistas negros serem levados a sério em alguns espaços. “Ainda precisamos provar o tempo todo que sabemos o que estamos fazendo, que a nossa arte tem valor e que nossa história merece ser contada. A diferença é que agora temos mais consciência, mais aliados, mais ferramentas e principalmente mais voz para reivindicar esses espaços, mas a luta continua parecida com a dele. É uma resistência que atravessa gerações.”
Diante de uma realidade que exige transformações estruturais, a cineasta acredita que programas de incentivo a jovens talentos negros garantem acessos que de outra forma ainda são difíceis de conquistar. Além de oferecer estrutura e formação, essas iniciativas, de acordo com Beatriz, “legitimam nossas narrativas dentro de uma indústria que ainda é majoritariamente branca. Ter um espaço seguro para desenvolver ideias, trocar experiências e ser ouvido faz toda a diferença.” E o impulsionamento de novos realizadores, defende ela, “transforma o audiovisual como um todo.”
“Quanto mais diversa a indústria do audiovisual se torna, mais público ela alcança. Temos a necessidade de nos vermos representados em tela, e abrir esse espaço para diretores negros, que têm um olhar e uma vivência que diretores brancos não possuem e que dialogam diretamente com 60% do público, não é apenas uma questão de dar oportunidade, mas algo benéfico para a própria indústria.”
Beatriz Costa, cineasta e ex-aluna do Curso Superior do Audiovisual
Sobre o programa Narrativas Negras Não Contadas
O programa Black Brazil Unspoken - Narrativas Negras Não Contadas, da Warner Bros. Discovery Access, oferece recursos e mentoria para criadores negros brasileiros que estão iniciando suas trajetórias no audiovisual e ainda enfrentam um cenário de sub-representação. A iniciativa busca impulsionar a entrada desses profissionais em um mercado que, historicamente, apresenta barreiras de oportunidades e acesso. Além disso, valoriza narrativas diversas, plurais e autênticas sobre a experiência negra no Brasil. Saiba mais sobre os outros curtas realizados nessa segunda edição:
Camisa 9, dirigido por Guilherme Baptista, revisita um programa de mesa redonda de futebol apresentado por três jornalistas negros, no Rio de Janeiro, no final dos anos 1980. O curta revive a mesa redonda com um dos ex-apresentadores, Luiz Orlando Baptista, celebrando o legado e a representatividade desses comunicadores pioneiros na televisão brasileira, influenciando a linguagem esportiva nacional.
Meu Nome É Tiana, dirigido por Dafny Bastet, acompanha a travesti negra Tiana, de 92 anos, a mais idosa do país, que desafia as estatísticas do Brasil em relação à violência contra pessoas trans. Moradora de Governador Valadares, Tiana divide seu tempo entre orações em sua paróquia católica e a convivência com a comunidade LGBTQIAPN+. O documentário, produzido em parceria com o coletivo House of Bastet, retrata a relação entre fé, identidade, pertencimento e resistência, mostrando a trajetória de luta e inspiração de Tiana para diversas gerações.
Confira os dias e horários das próximas sessões dos curtas:
17 de novembro, às 20h - canal TNT
Camisa 9
18 de novembro, às 23h40 - canal TLC
Meu nome é Tiana
21 de novembro, às 22h30 - canal Cinemax
Melodia Ancestral
Todos os curtas já estão disponíveis na HBO Max