Institucional



Adilson Citelli e Mauro Wilton de Sousa: professores eméritos e eternos alunos

Em maio, docentes dos Departamentos de Comunicações e Artes e de Cinema, Rádio e Televisão foram homenageados por trajetória acadêmica

Pessoas
corpo docente
professor emérito
homenagem
comunicação
educação
educomunicação
teoria da comunicação

O estatuto da USP prevê que a universidade e as unidades podem conceder o título de Professor Emérito a docentes aposentados que tenham se destacado, ao longo de suas carreiras, em atividades didáticas e de pesquisa, ou que tenham contribuído de modo notável para o progresso da instituição e do conhecimento. Em maio, a ECA conferiu essa distinção a dois professores: Adilson Citelli, do Departamento de Comunicações e Artes (CCA), no dia 7, e Mauro Wilton de Sousa, do Departamento de Cinema, Rádio e Televisão (CTR), no dia 13. 

“Ser emérito é ser veterano, experiente, conhecedor, mas também é ser vitorioso, merecedor de honras, prêmios e deferências”, afirma a professora Clotilde Perez, diretora da ECA, sobre a outorga dos títulos. Ela acredita que, ao reconhecer o passado, “vivenciamos um presente com sentido e, com isso, vislumbramos um futuro possível, melhor e mais bonito.” E não faltaram gestos comoventes de reconhecimento nas cerimônias que celebraram a excelência e o legado de Adilson e Mauro. Saiba mais a seguir. 

 

Adilson Citelli

A sala da Congregação ficou cheia para a 24ª outorga de título de professor emérito da história da ECA. Dentre os presentes, docentes de outras unidades da USP, a professora emérita da ECA Margarida Maria Krohling Kunsch, o chefe do CCA, professor Anderson Vinicius Romanini, amigos e colegas docentes e funcionários, familiares e até um amigo da época de ginásio, François de Oliveira Vasconcelos, que veio de Campo Grande (MS) só para acompanhar o evento. 

Foto de quatro pessoas brancas em trajes formais sorrindo e posando: uma mulher de cabelos curtos, lisos e escuros usa óculos e vestido branco, um homem calvo, com barba branca e óculos, que veste paletó cinza sobre camisa azul e gravata segura e exibe um diploma, uma mulher de cabelos lisos compridos e loiros usa blusa preta e saia florida e um homem de cabelos curtos e escuros usa óculos e terno escuro sobre camisa clara. Atrás do grupo, uma mesa e uma projeção lilás na parede clara.
Roseli Figaro, Adilson Citelli, Clotilde Perez e Anderson Vinicius Romanini. Foto: Amanda Ferreira/LAC-ECA. 

Nascido em Adamantina (SP), Adilson Citelli interessou-se pela docência desde cedo e foi normalista. Em 1973, graduou-se em Letras pela Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH), na geração que viveu a mudança do prédio na Rua Maria Antonia para a Cidade Universitária e inaugurou o Crusp, não sem algumas batalhas pelo caminho, como lembrou a professora Roseli Figaro (CCA), ao apresentar a trajetória do docente. Ela destacou também a “dedicação à pesquisa e à produção de conhecimento sobre as profundas conexões em torno de comunicação, linguagem e educação. Uma vida inteira dedicada à ciência e aos valores humanistas tão necessários, sobretudo em momentos de profundas mudanças econômicas, culturais e políticas, como os da atualidade."

Mestre e doutor em Literatura Brasileira pela FFLCH, torna-se docente da ECA em 1986 e segue atuando na formação de professores do ensino fundamental público, atividade que desempenhava desde a década de 70. Ao longo dos anos 90 e 2000, Adilson participou de importantes ações de ensino, pesquisa e extensão junto a outros docentes ecanos — com destaque para Ismar de Oliveira Soares, Maria Immacolata Lopes e a professora Maria Aparecida Baccega, já falecida —, que levaram à criação da Licenciatura em Educomunicação, em 2011. Hoje, o professor lidera o grupo de pesquisa Mediações Educomunicativas e dirige, 32 anos após sua fundação, a revista Comunicação e Educação

Na cerimônia, Adilson foi presenteado com um pequeno livro contendo uma seleção de 11 obras de sua autoria feita pelos pesquisadores do Mecom. “Tivemos e temos o privilégio de aprender com ele, de estudar com ele, de debater com ele, de pesquisar com ele e de publicar com ele. Entendemos que uma das formas de agradecer pelo privilégio e pela honra desse convívio é compartilhar com o mundo acadêmico, em especial com as novas gerações de estudantes e futuros pesquisadores, a sua produção intelectual”, afirmou Ana Luisa Zaniboni, representando os quinze membros do grupo de pesquisa. 

Foto de uma plateia aplaudindo. No recorte, cerca de 30 pessoas, entre homens e mulheres majoritariamente brancos, alguns idosos, usando trajes de diferentes cores, muitos sorrindo. Ao fundo, uma pessoa de pé também aplaude e, na parede clara, os escritos: Feliz aquele que transfere o que sabe e aprende o que ensina e Minha pátria é a língua portuguesa.
Foto: Amanda Ferreira/LAC-ECA. 

 

Adilson começou seu discurso agradecendo o CCA, seus colegas docentes e os funcionários — “tanto os que estiveram conosco no passado quanto os que continuam; são eles que sustentam e seguram boa parte deste departamento.”  Lembrando as agitações de 68 em Paris e no mundo, a luta contra a ditadura,  a barriga nua e grávida de Leila Diniz e as guitarras de Jimi Hendrix, o docente retratou o caldo borbulhante de sua formação: “o aluno que vos fala pode não ter aprendido muito, mas reconheçamos que a escola geracional que o circundou foi de excelente qualidade.” Talvez por já ter visto tanta ebulição, talvez pela influência freiriana patente em seu trabalho, Adilson mantém o otimismo diante dos desafios do presente.

 

“O futuro há. Dizer que há só um presente contínuo é matar os sonhos, é matar as esperanças, é matar o desejo de transformação.”

Adilson Citelli, professor emérito

 

Mauro Wilton de Sousa

Para prestigiar a outorga de título ao 25º professor emérito da ECA, familiares orgulhosos e emocionados, docentes e (muitos) funcionários do CTR dividiram os assentos da sala da Congregação com professores dos demais departamentos da ECA e convidados ilustres de outras unidades da USP, como Kabengele Munanga, professor emérito da FFLCH. 

Ao falar da trajetória acadêmica do homenageado, Eduardo Vicente, professor do CTR, ressaltou o caráter pioneiro de Mauro Wilton ao criar, em 1991, o Grupo de Estudos sobre Práticas de Recepção Midiática e promover, no mesmo ano, o Seminário Internacional Sujeito, o Lado Oculto da Recepção, que reuniu pesquisadores de diversas áreas e trouxe pela primeira vez ao Brasil Jésus Martín-Barbero, um dos principais nomes do campo dos Estudos Culturais. Para ele, uma marca e diferencial do trabalho de Mauro “é o enfrentamento de grandes questões contemporâneas em cenários amplos. Isso é algo um tanto raro nesta escola, onde frequentemente nos colocamos diante de objetos muito específicos da comunicação ou das artes.”

Foto de dois homens sorrindo, abraçados de frente um para o outro e de lado para a câmera, ambos vestem paletó escuro sobre camisa clara. À esquerda, um homem com cabelos curtos e escuros, que usa óculos e cavanhaque, à direita, um homem calvo, com cabelos e barba grisalhos. Na parede ao fundo e sobreposta a eles, uma projeção escrito Mauro Wilton
Wagner Souza e Silva e Mauro Wilton. Foto: Amanda Ferreira/LAC-ECA.

Wagner Souza e Silva, professor do Departamento de Jornalismo e Editoração (CJE), lembrou de seu convívio de longa data com Mauro Wilton, de quem foi aluno e orientando de iniciação científica durante a graduação no antigo curso de Rádio e TV. “Saí de suas aulas transformado. Nunca mais olhei para uma tela de televisão ou de cinema da mesma forma. Operou-se uma espécie de desencantamento daquele deslumbramento inicial do mundo audiovisual que havia me seduzido. Nas aulas dele, esse deslumbramento ruiu para, em seguida, ser remontado sob um olhar e uma postura crítica que só o Mauro parecia capaz de nos instigar a ter.” Anos mais tarde, Mauro orientou a tese de doutorado de Wagner. “Você é o meu professor. E você é uma presença constante. Você é o meu influenciador, sem precisar de TikTok ou Instagram. Uma influência que não se esgota e que me acompanha no pensamento”.

Filho de professora normalista, Mauro também se envolveu com o magistério bem antes de chegar à USP. O goiano da pequena cidade de Sivânia foi professor de madureza (o atual programa de Educação para Jovens e Adultos - EJA) e atuou nos telepostos da TV Cultura, iniciativa de educação à distância em parceria com as secretarias de educação, criada no final da  década de 60. É nesse momento que ele chega a São Paulo e se gradua, em 1968, no curso de Ciências Sociais da Pontifícia Universidade Católica (PUC-SP), dando início, logo depois, ao mestrado na mesma área pela FFLCH. Em 1974, começa a atuar como docente na ECA e, na década seguinte, Mauro defende seu doutorado em Ciências da Comunicação, sobre a recepção da telenovela Roque Santeiro. 

 

“Eu não quis estudar a tecnologia em si, mas sim as pessoas; queria compreender como o cotidiano urbano-industrial influenciava a recepção midiática sob o ponto de vista político.”

Mauro Wilton, professor emérito. 

 

Tendo atuado primeiramente no CCA, Mauro passa a lecionar no CTR em 1990. A professora emérita Dora Mourão (CTR) lembrou de como o departamento se identificava com o campo das artes e foi impactado pela chegada do novo professor: “você foi fundamental para o curso e para o departamento porque trouxe a marca da comunicação para o nosso meio. Para além daquele estranhamento inicial, isso foi indispensável. Afinal, cinema, rádio e televisão não são feitos apenas de arte. (...) Esse diálogo enriqueceu a nossa história e a sua marca permanece viva.” Dora também destacou a atuação de Mauro como diretor da ECA entre 2009 e 2013, gestão na qual ela foi vice-diretora. 

Foto de cinco pessoas de pé, sorrindo e posando. Da esquerda para a direita: uma mulher de cabelos curtos e brancos, usa óculos, blusa azul e calça preta, um homem calvo de barba grisalha, usa paletó escuro e exibe um diploma, uma mulher de cabelos longos lisos e loiros veste casaco rosa e saia escura, dois homens de cabelos curtos e grisalhos usam calça jeans, um deles blazer azul sobre camisa clara e o outro camisa escura. Ao fundo, uma mesa e uma projeção na parede.
Dora Mourão, Mauro Wilton, Clotilde Perez, Wagner Souza e Silva e Eduardo Vicente. Foto: Amanda Ferreira/LAC-ECA. 

 

Ao falar para a plateia, Mauro reverenciou a memória de seus pais e familiares, além de agradecer a presença de amigos e colegas docentes e funcionários, destacando o técnico aposentado do CTR Douglas Giudice, querido e aplaudido por todos. Foi também na memória que resgatou o prenúncio do que viria a ser seu campo de estudo: “lembro-me com muito carinho de como eu me impressionava com os alunos que vinham do madureza e dos telepostos da TV Cultura. O lugar que a televisão, o rádio e a comunicação ocupavam na vida daquelas pessoas me fascinava.” Hoje, ao lembrar dos profissionais e pesquisadores que ajudou a formar e da partilha com os colegas das Comunicações e Artes, Mauro se alegra com novos motivos de fascínio: “sou aluno de vocês, tentando compreender o mundo das artes, da imagem, da política e da técnica contemporânea. (...) Estou muito feliz porque, depois de todo esse tempo e de toda essa trajetória, eu tenho o privilégio de me tornar aluno novamente.”

 

 


Foto de capa: montagem e fotos de Amanda Ferreira/LAC-ECA.
Notícias do