CAC | Departamento de Artes Cênicas



Sonhos viram realidade: relatos inspiram curtas de ex-discentes

Trabalho de conclusão de curso em Artes Cênicas criou animações a partir de sonhos influenciados pela pandemia 

Comunidade

Em 2020, Luana Pantaleoni e Krol Borges, então discentes do bacharelado em Artes Cênicas, iniciaram seu trabalho de conclusão de curso (TCC), com orientação do professor Felisberto Sabino. A ideia era retratar experiências oníricas vivenciadas durante a quarentena através do cinema de animação.

Agora, dois anos depois, o projeto Sonhos de uma noite de quarentena já conta com mais colaboradores, dois curtas-metragens, site próprio e planos para o futuro.

 

Desenvolvimento da pesquisa

 

Embora o começo do processo criativo e das explorações estéticas tenham sido baseados em sonhos da própria dupla, foi tomada a decisão de utilizar experiências alheias no projeto final. Isso foi pensado para que fosse possível mudar o ponto de vista e, principalmente, para examinar como a pandemia afetou outras pessoas.

“Descobrimos que a quarentena trouxe imagens extremamente semelhantes para a mente adormecida de dezenas de pessoas, o que nos interessou e nos impulsionou a investigar sonhos de outrem”, relata Krol.
Durante a preparação das obras, não houve a preocupação de que as animações fossem extremamente fiéis aos sonhos relatados. Krol explica que priorizaram “extrair delas [as experiências sonhadas] tudo que nos tocava e adicionar a elas as nossas próprias subjetividades, medos e, por que não, sonhos".

 

Produzindo em isolamento  

 

Foto de duas pessoas trabalhando nos bastidores de gravação. As duas estão curvadas para baixo e parecem estar movimentando os personagens. A imagem é bem escura, o único foco de luz ilumina, em tons azuis-esverdeados, a cena montada que acontece no chão.
Devido às restrições sanitárias, as filmagens precisaram ser caseiras. Foto: Arquivo pessoal/Jornal da USP

Utilizando cerca de mil palitos de sorvete, foram Luana e Krol que montaram o admirável cenário do primeiro curta-metragem publicado. Ou melhor, os cenários. Foi preciso construir dois quartos e dois bonecos idênticos, dado que as filmagens aconteceram separadamente, com cada integrante protegendo-se  em sua respectiva casa no momento crítico da pandemia.

Krol revela que um dos cenários mais desafiadores de se construir foi o Quarto Azul, aquele que recebe uma gradual inundação. Essa cena, aliás, foi o maior temor da produção, pois só havia uma única chance de acerto: uma vez que o material fosse molhado, não seria possível recuperá-lo.

Para o decisivo momento, todo apoio foi bem-vindo. “Luana gravou em sua sala com a ajuda da mãe e do namorado, e eu gravei em meu banheiro com a ajuda da minha mãe”, narra Krol, que utilizou um escorredor de macarrão para auxiliar no alagamento. “Extremamente caseiro, não? Cada uma se virou como pôde [...]. Com várias improvisações e incertezas, ficamos felizes com o resultado final”, acrescenta.

 

Azul Apneia: “os sonhos sufocam”

 

O primeiro lançamento do Noite em Queda, grupo formado pela dupla e outros sete colegas, foi Azul Apneia. Na história inspirada pelo sonho de Gustavo Zanfer, aluno de jornalismo da ECA, um pequeno ser sofre com o enclausuramento, o que enche o espectador de angústia, já que faz relembrar os períodos de confinamento e isolamento social.

Confira a seguir a obra inaugural do projeto:

 

 

Desafios do retorno ao presencial

 

Após a experiência de uma produção doméstica, o Noite em Queda, em meio a um misto de animação e medo, foi a quatro locações diferentes para a gravação de Tão Azul como Antes, o segundo curta-metragem. De acordo com Luana, foi uma situação engraçada, pois era a primeira vez que o grupo se encontrava pessoalmente desde o começo da pandemia. 

No segundo e último fim de semana de gravações, a equipe saiu bem cedo de São Paulo rumo à Barra do Sahy, em São Sebastião, esperando chegar numa praia deserta, o que seria ideal para trabalhar. Porém, ao chegarem ao destino, se depararam com uma situação bem diferente da prevista.

“O desespero tomou conta quando pisamos na areia e encontramos centenas de pessoas sem máscara - isso foi no primeiro semestre de 2021 [...]. O calor de um dia de sol e a ansiedade de estar num lugar lotado no meio da pandemia tomou conta de nossos corpos e passamos um dia extremamente tenso”, relembra  Luana.

Ao final da tarde o grupo precisou lidar com outro imprevisto: a chuva. Num primeiro momento, as nuvens expulsaram as pessoas que ali estavam e desiludiram a produção. A sensação era de que a cena havia sido arruinada. Entretanto, Luana conta que “foi aí que aconteceu algo lindo. [...] A chuva parou, logo quando os banhistas já não estavam mais na praia. Gravamos com uma paz imensa as últimas cenas e ainda pudemos aproveitar um pouquinho da nossa viagem.”
 

 

 

Tão Azul como Antes: “rumo ao grande reencontro”

 

Foto de personagem encarando a praia deserta. Há algumas marcas na areia e o mar está calmo. O céu tem algumas nuvens e há algumas pequenas ilhas na linha do horizonte.
Apesar das dificuldades, as cenas na praia foram concluídas de acordo com as expectativas do grupo. Foto: Reprodução/Youtube

A segunda obra, que foi publicada já em julho de 2021, apresenta  uma narrativa mais esperançosa. A protagonista-marionete inicia sua jornada em uma estação de metrô carregando uma peculiar bagagem que se desfaz aos poucos, percorre caminhos já traçados e se depara com parceiros de viagem. De acordo com a sinopse do curta, "é rumo ao grande reencontro que tantos outros reencontros acontecem."

 

 

 

 

Sonhos para o futuro

 

Cerca de 200 sonhos foram compartilhados com o projeto através de formulários on-line. Atualmente, o grupo  continua recebendo novos relatos, mas com cada vez menos frequência, uma vez que o isolamento social já foi flexibilizado há alguns meses.

Após a conclusão da graduação, a dupla já não segue mais com as atividades no mesmo ritmo de antes. Contudo, ainda carrega a antiga pretensão de criar algo para ser realizado presencialmente. “Estamos fazendo de tudo para que o grupo sobreviva, mas para que nós sobrevivamos também. Seguimos com novos projetos, mas, por enquanto, sem datas de lançamento.”, explica Luana.

 

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Imagem de capa: cena do curta-metragem “Azul Apneia”. Foto: Reprodução/Youtube