ECA

A Escola de Comunicações e Artes (ECA) da Universidade de São Paulo (USP) foi criada em 1966, chamando-se, inicialmente, Escola de Comunicações Culturais, e recebendo o nome atual em 1969, quando passou a oferecer formação universitária na área de Artes. O surgimento da ECA respondia à importância que esfera da cultura começava a adquirir na sociedade brasileira, em face da rápida modernização e ascensão dos centros urbanos no país, entre as décadas de 1960 e 1970.

A nova unidade da USP não apenas se lançava à tarefa de formar profissionais nessas áreas de conhecimento, como também almejava abrir a esses profissionais a perspectiva crítica e a aspiração transformadora de uma formação universitária humanista. Tal configuração, na confluência entre as exigências da vida acadêmica e as demandas do setor produtivo e do mercado, era até então inédita e reservada às áreas de ensino tradicionais como a Engenharia e a Medicina.
 

A Escola de Comunicações Culturais
 

No ano de 1965, o então reitor Luiz Antonio da Gama e Silva nomeou uma comissão de dez pessoas para estudar e estruturar a criação de uma nova escola dentro da USP. O projeto desenvolvido por essa comissão foi aprovado pelo Conselho Universitário e, em junho de 1966, foi publicado o Decreto que estabelecia a criação da Escola de Comunicações Culturais (ECC).

A ECC trouxe, inicialmente, os cursos de jornalismo, rádio e televisão, arte dramática, cinema, biblioteconomia, documentação e relações públicas. O decreto assinado pelo então governador do Estado Lauto Natel também autorizou a incorporação da Escola de Arte Dramática de São Paulo à USP e forneceu o crédito de quinhentos milhões de cruzeiros para as despesas iniciais da nova faculdade. Seus objetivos, de acordo com o artigo 2º do decreto, seriam “formar pessoas habilitadas ao exercício das profissões técnico artísticas e de magistério no campo das comunicações culturais” e “promover, incentivar e divulgar, ao mesmo tempo, a cultura e a pesquisa”.

A Escola de Comunicações Culturais tinha como proposta ser o centro social da Cidade Universitária,  onde se poderiam realizar exposições, espetáculos para alunos e docentes. O contexto cultural do país foi muito favorável para sua criação: as manifestações artísticas de caráter político-ideológico contra a repressão da ditadura militar ganhavam cada vez mais força, começavam as transmissões de TV em cores no mundo e desenvolviam-se as emissoras de televisão que atualmente figuram entre as maiores do país.

Em março de 1967, foi realizado o primeiro vestibular da nova escola, elaborado pelos próprios professores da ECC, que contou com 1.247 candidatos disputando 200 vagas. Logo em abril, a Escola iniciou suas atividades, ainda sem instalações próprias: as aulas eram ministradas em um andar do prédio da Reitoria e a secretaria ficava no pavilhão B-9.

foto antiga do campus da USP
Prédio da Reitoria da USP, que abrigou a ECA no final dos anos 60. Ao fundo, os barrações, onde localizava-se o pavilhão B-9. Fonte: [s.d] [s.l.]

 

A ECC no contexto da ditadura

O país encontrava-se em pleno período de regime militar, que se iniciara em 1964: profissionais de áreas como Jornalismo, Cinema, Teatro e outras relacionadas ao campo da Comunicação e das Artes enfrentavam grande repressão e censura. 

A ECA, pelas suas próprias características de unidade formadora nos campos da comunicação e das artes, lugares de produção de conhecimento que dizem respeito às complexidades da informação, da cultura, das manifestações estéticas, tem na liberdade de expressão o seu compromisso mais significativo. Há, pois, incompatibilidade visceral entre os desígnios de uma instituição educativa como a nossa e a violência da censura, do cerceamento expressivo, do controle da informação, do regime ditatorial.
Adilson Citelli, Tempo Vivido – um depoimento sobre participação estudantil e resistência à ditadura

 

A Escola chegou a receber visitas de caráter não oficial de representantes policiais para observar as aulas, confiscar documentos ou mesmo para levar pessoas para depoimento. Paulo Emílio Sales Gomes, do Departamento de Cinema, e José Marques de Melo, de Jornalismo, foram alguns dos professores que sofreram “cassação branca” - a não renovação do contrato sem motivo declarado e sem direito à defesa ou à indenização - como forma de afastar do corpo docente professores ligados a algum tipo de ideologia contrária ao regime. 

Ao longo de todo o período ditatorial, a ECC/ECA manteve-se como um palco de resistência, de pensamento crítico e de vanguarda. 


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