Coletiva Preta Performance põe em cena atemporalidade do Massacre do Carandiru

Artigo sobre performance Negrotério reforça a importância das artes cênicas na discussão sobre memória e políticas de Estado

 

Livros e revistas
artes cênicas
artigo
pesquisa
revista científica
performance
Massacre do Carandiru
necropolítica
trauma social

Em outubro de 2025, as imagens dos mais de 120 corpos enfileirados, resultado da Operação Contenção no Rio de Janeiro, eram divulgadas e debatidas por toda a internet. Grande parte das notícias, como recurso de comparação, citavam, após a divulgação da maior chacina do Brasil, uma tragédia anterior: o Massacre do Carandiru, ocorrido 33 anos antes na Casa de Detenção de São Paulo. 

A mensagem de uma repetição trágica, implícita na relação entre os ocorridos, fica ainda mais forte com a leitura do artigo Performance Negrotério: 25 anos do massacre do Carandiru, escrito por Rodrigo Severo dos Santos, professor da Universidade Federal da Bahia (UFBA) e integrante do Laboratório de Práticas Performativas da ECA. O artigo é um dos resultados de sua tese defendida no Programa de Pós-Graduação em Artes Cênicas (PPGAC)publicado na última edição da Revista Aspas. 

O texto, analisando a performance com base nas ideias de Achille Mbembe e Diana Taylor, reflete sobre o potencial das artes cênicas em ativar memórias traumáticas, a fim de questionar e combater as políticas de apagamento e esquecimento exercidas pelo Estado. 

 

Necropolítica e transmissão de trauma

O artigo inicia apresentando um conceito importante do filósofo e cientista político Achille Mbembe: necropolítica, que se refere ao “poder e a capacidade de ditar quem pode viver e quem deve morrer”. O racismo é um motor dessa política e as chacinas policiais no Brasil, desdobramentos da escravidão e do colonialismo, seriam, de acordo com o autor, formas de aplicá-la.

 

"Nesse contexto é possível, pela arte, especificamente pela performance, invocar espaços de questionamentos, rupturas, tensões e indignação de um passado marcado pela Necropolítica? Poderia a performance transmitir as memórias traumáticas produzidas pelas políticas de morte?"

Rodrigo Severo dos Santos, artista, pesquisador e professor da UFBA

 

Essa pergunta é respondida pelo professor baseando-se nas ideias de Diana Taylor, professora de filosofia da John Carroll University e pesquisadora dos estudos da performance. Ela defende que as performances podem trazer memórias traumáticas para o presente e para a realidade, ajudar os sobreviventes a lidar com traumas e transmitir parte da dor e responsabilidade para o espectador. Para a autora, isso pode inspirar o ativismo político.

 

Preta Performance e o Carandiru

Fundada pelo próprio professor Rodrigo, em 2016, na periferia de Diadema, estado de São Paulo, Preta Performance é uma coletiva independente de artistas negres que pesquisam as relações étnico-raciais no Brasil para promover, através da linguagem da performance e do audiovisual, ações estéticas descolonizadas e antirracistas. 

Segundo o autor, uma performance nomeada apenas Negrotério, que tem como base a disposição de performers envoltos em lona preta e embebidos em sangue, foi inicialmente elaborada em 2016 e performada em diversos lugares de São Paulo “com o objetivo de gerar algum tipo de estranhamento crítico, alterando a percepção dos que transitam pelo espaço da cidade, dando visibilidade à temática do genocídio negro para o debate público”. 

Em 2017, após uma discussão sobre o massacre de 1992, a brutalidade dos assassinatos e a impunidade dos responsáveis, surgiu então a nova versão, Negrotério: 25 anos do Massacre do Carandiru.

 

Negrotério: 25 anos do massacre do Carandiru

 

"A performance enquanto intervenção urbana evocaria a memória do massacre, delatando a violência de Estado e abrindo as portas para questionamentos, indignação e revolta que levassem a sociedade civil a ter conhecimento dessa tragédia e da sua impunidade."

Rodrigo Severo dos Santos, artista, pesquisador e professor da UFBA

 

Foto de quatro pessoas vestidas com roupas pretas e se apresentando em um parque. No centro, um homem branco com boné azul joga um galão de líquido vermelho no chão. À direita, um homem com óculos escuros segura um bolo de aniversário e as outras duas pessoas, também de óculos, aplaudem. Logo atrás desse grupo, quatro pessoas estão envoltas em lona preta e deitadas no piso. Ao fundo, há pessoas circulando, árvores e o céu está claro.
Negrotério: 25 anos do massacre do Carandiru. Performance realizada no Parque da Juventude em 2017. Foto: Vinícius Soares.

 

Segundo o autor do artigo, a tentativa do governo de produzir o esquecimento e o apagamento da tragédia através da destruição física do Carandiru e a construção do Parque da Juventude são fatos que tornaram ainda mais simbólico o local escolhido para realização da performance: a porção do parque em que ficava o Pavilhão 9 da penitenciária, onde, em 1992, teve início a rebelião que foi sucedida pelo massacre. Rodrigo conta que utilizou documentos como fotos e vídeos disponíveis na base de dados do Projeto Memória Massacre para a elaboração da performance.

De acordo com a descrição do autor, a performance ocorreu da seguinte forma: no dia 1º de outubro de 2017, cinco atores foram empacotados em lona preta, enquanto outros encarnavam um político celebrando a construção do parque e uma jornalista, que citava o nome de cada uma das 111 vítimas nas pausas do discurso; então, um galão de 25 litros de sangue era derramado entre os corpos e um bolo de aniversário de três quilos era trazido para cantar o “parabéns” pelos 25 anos da chacina e ser distribuído entre os espectadores.

Rodrigo destaca que a performance causou o desconforto esperado e, mesmo com a autorização da administração do parque para realizar a ação artística, houve tentativas de cerceamento por parte de agentes a serviço do Estado presentes no parque, as quais foram contestadas pelos próprios espectadores. 

Por fim, a ação foi expandida para o suporte da videoperformance e publicada nas redes sociais no dia 2 de outubro de 2017, representando, segundo o autor, mais uma forma de lutar contra o esquecimento do Massacre do Carandiru pelas autoridades estatais e rememorar suas memórias traumáticas para a sociedade civil. 

 

Revista Aspas

A Revista Aspas é publicada semestralmente pelo PPGAC e busca divulgar pesquisas em artes cênicas, com foco especial nas metodologias desenvolvidas na área, abrindo espaço para novos autores e para formas que escapem do formato tradicional da academia.

Também foram publicados na última edição — v. 15 n. 2: As artes da cena e os movimentos abolicionistas: pedagogias libertárias e espaços de imaginação política — os artigos Estética do oprimido e pedagogia da libertação: teatro como resistência no sistema socioeducativo e Ato-espetáculo musical Inútil Canto e Inútil Pranto pelos Anjos Caídos: a política genocida do Estado, o encarceramento em massa e os movimentos sociais no palco, entre outros.

 

 


Foto de capa: Marcos Santos/USP Imagens.