Subvertendo imagens racistas: a costura da memória de Rosana Paulino

 Doutoranda do Programa de Pós-Graduação em Artes Visuais analisa como a artista ressignifica imagens para pensar as marcas da opressão racista
 

Comunidade

No mês de novembro, a Universidade de Boston organizou o evento African American Art History: Present Coordinates (História da Arte Afro-Americana: Coordenadas Atuais, em tradução livre). Maíra Vieira de Paula, doutoranda na ECA pelo Programa de Pós-Graduação em Artes Visuais (PPGAV), deu uma palestra que é fruto da pesquisa que está desenvolvendo. O tema do seu doutorado é Pesquisar, selecionar, manipular, arranjar e exibir: a estratégia de apropriação fotográfica na produção artística de Rosana Paulino.

No Mês da Consciência Negra, é oportuno refletirmos sobre a obra de uma artista negra, foco do estudo de Maíra. Rosana Paulino é uma inovadora na arte brasileira, mesclando diversos formatos em obras que tematizam a questão racial, em especial a da mulher. Ela possui graduação em Artes Plásticas pela ECA, além de ser doutora em Poéticas Visuais pelo PPGAV.

Foto de Rosana Paulino falando ao microfone. Ela está sentada atrás de uma bancada de madeira. Ela é negra, seus cabelos são curtos, pretos e crespos. Ela usa um óculos quadrado de armação preta. Veste uma blusa com listras nas cores em tons rosa, roxo e creme.
Rosana Paulino. Imagem: Leonor Calasans/Instituto de Estudos Avançados 

O trabalho de Paulino vem ganhando cada vez mais relevância. Ela foi a primeira artista negra brasileira a ter uma mostra individual na Pinacoteca de São Paulo, com a exposição A Costura da Memória. Esse espaço que ela continua a galgar, além de seus métodos de criação estética, fizeram com que Maíra se debruçasse sobre ela. E o ponto que mais chamou a sua atenção foi a questão da apropriação fotográfica, ainda pouco explorada pela crítica. 

Esse processo, defendido por Maíra como o mais importante dentro da obra de Paulino, consiste em transpor imagens fotográficas de um local para outro, de maneira que seus significados sejam alterados. A artista não criou esse procedimento; no entanto, ele desempenha um papel fulcral em sua carreira. Maíra procura entender o que causa tanto impacto quando se observa uma obra de Paulino, e como isso ocorre.

Para tanto, a pesquisadora procura ampliar o conceito de apropriação fotográfica. Para Maíra, “não é só o gesto da Rosana Paulino tirar a imagem do livro e por na galeria. Apropriação fotográfica tem que envolver tudo o que ela fez com essa imagem. Ela aumentou, cortou, sobrepôs as figuras, sem falar na pesquisa e na seleção”. Ou seja, esse conceito abarca todo o caminho que a artista teve que percorrer até chegar ao produto final. 

 

Reparação Histórica?
 

Grande parte da crítica tende a enxergar uma espécie de reparação histórica nas obras de artistas negros que pensam o racismo, como se elas fossem capazes de recuperar a humanidade sequestrada da população negra durante a escravidão. Contudo, Maíra aponta que Paulino não demonstra essa pretensão em seu trabalho, o qual, ainda de acordo com ela, estaria mais próximo do pensamento afropessimista, em que não há possibilidade de reparação histórica. O que é possível é trazer novos olhares para o futuro, pois esse ainda pode ser alterado.

 

"A sociedade, em qualquer parte do mundo, valoriza menos as vidas negras. É como se ela tivesse até hoje uma sub-humanidade. Se você vê uma criança negra morrendo, isso choca menos que uma criança branca. Mas a gente pode tentar mudar o futuro."

Maíra Vieira de Paula, doutoranda do Programa de Pós-graduação em Artes Visuais da ECA

 

É nesse sentido que a pesquisadora vê uma dimensão ética na obra de Paulino. A poética da artista é construída com base na subversão de elementos e narrativas racistas, que são reflexos da mentalidade da época, além de serem, eles próprios, instrumentos de opressão. Ao alterar essas imagens e criar novos sentidos que enfrentam o racismo, Paulino adota uma posição ética, vislumbrando um futuro em que a violência e subjugação contra o corpo negro deixem de ser uma realidade. 

Maíra também ressalta que as diferentes dimensões presentes na obra de Paulino não podem ser separadas. Ou seja, os significados políticos, éticos e estéticos se concatenam através do processo de criação e execução de cada trabalho, que se torna uma síntese entrelaçada de todos eles. Nada do que está ali pode ser considerado incidental. Tudo provém de um procedimento bem arquitetado, especialmente o da apropriação fotográfica. 

 

Foto de seis bastidores, armações circulares utilizadas para fazer bordados em tecidos.  Cada um deles traz a reprodução de uma fotografia em preto e branco de diferentes mulheres negras, e em cada bastidor a mulher retratada tem uma parte diferente do rosto ou pescoço coberta por um bordado grosseiro feito com linha preta.
Sem Título, obra de 1997 integrante da exposição Costura da Memória, realizada na Pinacoteca de São Paulo de dezembro de 2018 a março de 2019. Imagem: Reprodução/Museu de Arte Moderna (MAM)

 

Entre o popular e o erudito 
 

Em seu artigo Deslocamento, justaposição e suspensão: considerações iniciais acerca da apropriação fotográfica na poética de Rosana Paulino, em que analisa na obra de Paulino os conceitos que dão nome ao texto, Maíra faz uma consideração interessante. Ao falar sobre a instalação Assentamento (2013), a autora faz uma afirmação que pode ser expandida para toda a obra de Paulino. 

“O principal objetivo de Paulino foi refletir sobre a experiência de deslocamento vivenciada por esses sujeitos (negros escravizados) e todas as suas contribuições para a formação da cultura brasileira”, diz o artigo. E de que maneira a artista conseguiu isso? Através da apropriação fotográfica, que Paulino começou a utilizar ainda no início de sua carreira, com imagens de seu arquivo familiar. Aliás, o uso de imagens familiares, de modo a resgatar a ancestralidade, ficou muito associado à sua figura. 

Mas engana-se quem pensa que a artista vai buscar inspiração e material apenas dentro de casa, ou na cultura ancestral e popular dos povos negros que vieram para o Brasil e o formaram. Enquanto pesquisadora e acadêmica, Paulino também se serve de outras fontes para construir a sua estética. Maíra faz questão de ressaltar esse lado erudito da artista: “não é só porque a Rosana Paulino é uma mulher negra que ela consegue captar tão a fundo a escravidão. É por uma série de fatores, desde a experiência de vida dela, até a sua capacidade intelectual e técnica”. 

Maíra também nota que essa faceta de Paulino não significa que ela tenha se submetido à uma cultura branca e europeia, até porque a forma como ela lida com esse tipo de conhecimento é muito subversiva. Na verdade, a inserção de Paulino no ambiente acadêmico e da cultura erudita é crucial para mostrar as falhas e lacunas existentes dentro desse sistema. 

 

 

 


Imagem de capa: Assentamento (2013). Reprodução/Uncool Artist - Cláudia Melo