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A resistência de estudantes quilombolas contra a crise climática

Artigo da revista Comunicação e Educação analisa dinâmica educomunicativa realizada em escola no quilombo Mata Cavalo, em Mato Grosso
 

Vida acadêmica

O conceito de injustiça climática explica que grupos sociais mais vulneráveis, como povos quilombolas, indígenas e ribeirinhos, ainda que contribuam pouco para o agravamento da situação do clima, são os que mais sofrem com as suas consequências; enquanto isso, grupos mais privilegiados, que são responsáveis pela degradação mais acentuada do meio ambiente, possuem recursos que os blindam dos danos.

Em Educomunicação socioambiental no quilombo Mata Cavalo: narrativas e resistências de uma comunidade tradicional mato-grossense, publicado na revista Comunicação & Educação, Thiago Cury Luiz, docente do Programa de Pós-Graduação em Comunicação da Universidade Federal do Mato Grosso (UFMT), e Michèle Sato, doutora em Ciências pela Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), partem desse conceito para compreender como a educomunicação socioambiental pode inserir essas populações em situação de vulnerabilidade nas discussões sobre o clima

Buscando responder a duas perguntas — “como é possível comunicar a emergência climática em dinâmicas no âmbito da educação popular?” e “em que medida as narrativas genuínas sobre dada realidade podem servir como movimento de resistência diante desse contexto de crise?” —, o artigo analisa vídeos produzidos por estudantes dos ensinos fundamental e médio de uma escola do quilombo Mata Cavalo em uma dinâmica educomunicativa.
 

A cultura como forma de resistência

 

Foto da escola localizada no quilombo Mata Cavalo. O prédio é comprido e possui paredes amarelas, com listras vermelhas e muitas janelas. Na frente da construção, há um ônibus escolar amarelo. O chão é de terra e há nele muitas pedras, além de alguns pontos com grama.
Escola Estadual Professora Tereza Conceição de Arruda, onde a dinâmica foi realizada (Foto: Antonio Cruz/Agência Brasil)

Os autores do artigo apontam a grande quantidade de filmagens que retratam as atividades culturais exercidas no quilombo Mata Cavalo. As gravações trazem apresentações de danças com raízes africanas em uma festa típica da comunidade. Um outro vídeo registra uma apresentação de canto de uma música sobre orgulho negro. Para Thiago e Michèle, “os vídeos demonstram que os quilombolas estão dispostos a resistir e a valorizar o que levaram anos para construir.”

A cultura é entendida como uma maneira de resistir, um “modo encontrado pelo povo quilombola para se opor aos agressores fundiários e, a nosso ver, recurso de manutenção das tradições em um tempo de emergência do clima, que tende a encurralar ainda mais os que lá vivem”, pontuam.

Para alguns dos estudantes, a dinâmica pode ajudar a retratar a realidade dos quilombos para a população externa. Um deles, sob o pseudônimo de Face, afirma que “as pessoas vão começar a enxergar que o quilombo não é só um local de passeio, mas que ele precisa também dos olhos do governo.”

 

Natureza presente no imaginário
 

Também foi produzido muito conteúdo sobre os cenários naturais do quilombo. São imagens e áudios que registram o pôr do sol, a vegetação local, a correnteza do rio, a fauna e os sons presentes no ambiente.

Essa recorrência do retrato da natureza faz parecer que ela está “presente no imaginário desses jovens moradores e estudantes do quilombo, sendo a captação do ambiente onde vivem um movimento quase natural do corpo.” Os registros são um jeito de demonstrar o “orgulho pelas belezas existentes no território de lutas, ponderando-se o fato de o colapso climático já proporcionar certos obstáculos.”

Além de uma maneira de materializar o afeto que os discentes sentem pelo local onde estão suas raízes, Thiago e Michèle compreendem os vídeos como uma forma de inserir alunos e alunas na discussão climática e de resistir: “ao narrarem as questões ambientais que as afligem e as caracterizam, as populações em situação de vulnerabilidade expõem suas percepções sobre o clima e demarcam formas de resistência.”
 

Revista Comunicação & Educação
 

Comunicação & Educação é uma revista acadêmica de publicação semestral do Departamento de Comunicações e Artes da ECA. 

Em sua vigésima sétima edição, o periódico traz uma entrevista sobre o campo da comunicação e educação com o pesquisador mexicano Guillermo Orozco Gómez, além de um artigo sobre a circulação midiática da expressão “ideologia de gênero”. Destaque também para um artigo sobre jornalismo infantil, que conta com a análise de um podcast voltado para crianças.